22 Homens e uma bola: futebol e psicanálise

A cada quatro anos, durante trinta dias, centenas de milhões de pessoas no mundo prendem seus olhares em direção ao jogo de uma bola que é disputada, dominada, circulada e, se tudo der certo, levada a cruzar uma determinada linha, a do gol. A lógica se repete em vários outros esportes apaixonantes: futebol americano, rugby, basquete, handebol… Essa relação tão intensa com a bola, tanto para jogadores quanto espectadores, vai determinando uma série de significações, hierarquias, paixões, ódios e inúmeras dinâmicas em constante mutação.

Poderíamos nos valer de diversas teorias para discutir essa importância crucial da bola em nossas vidas, algo que aparentemente vai muito além do jogo. Desde a psicanálise, por exemplo, poderíamos discutir algo sobre o papel da bola na constituição psíquica de cada sujeito. Seguem alguns apontamentos:

Na literatura psicanalítica existe a conhecida descrição de Freud do jogo do carretel. Freud observa seu neto de um ano e meio jogar um carretel amarrado a um fio, o bebê o atirava para fora do berço até que não conseguisse mais vê-lo e em seguida o puxava; o jogar e o puxar eram acompanhadas de falas fort e da, que seriam traduzidas do alemão como “ir embora” e “ali”.

Freud interpreta esta brincadeira como uma tentativa do bebê de elaborar a ausência da mãe, o jogo representaria o movimento de presença e ausência da mãe. O bebê viveria com uma certa apreensão no momento em que passa a não ver mais o carretel, mas depois, de forma ativa, puxa o fio e, ao enxergar o carretel, vivencia uma espécie de jubilo ao reencontrar o objeto perdido.

O jogo do cadê-achou, em que escondemos nosso rosto com algum objeto e depois o mostramos para o bebê exercita as mesmas capacidades psíquicas que o fort-da, no caso, a separação eu-outro.

Uma brincadeira comum dos bebês com as bolas no início da vida (pelo menos no Brasil) é a de jogar uma bola e esperar alguém buscá-la, ao revê-la o bebê normalmente ri e torna a arremessá-la. O bebê parece estar exercitando uma capacidade psíquica semelhante à do jogo do fort-da, da separação e permanência dos objetos. Há um certa excitação quando o bebê percebe que a bola jogada reaparece, ela não foi destruída, não desapareceu e ele pode continuar a jogá-la.

Para Winnicott, a bola também seria junto da chupeta e do paninho um dos objetos transicionais por excelência. Objetos que se situam na fronteira entre o interno e o externo e promovem a segurança necessária para o início da separação mãe-bebê.

A bola pode assumir diversas funções e papeis em uma brincadeira. A psicanalista inglesa Marion Milner cunha o termo meio maleável para falar tanto de características de objetos quanto de uma posição do analista que possa abarcar estados mais infantis e regressivos dos pacientes. No que se refere aos objetos, seriam recursos tais como tintas, papel machê e argila que promovem a capacidade de simbolização, isto é, exercitam capacidades que dão a pré-forma, no seio da relação primária, às futuras propriedades do aparelho de simbolização. Para explicar melhor essa ideia, lançamos mão de um exemplo da própria Marion Milner que está no livro “A comunicação da experiência sensorial primária” de 1955:

“(…) a tinta, pelo fato de se espalhar com facilidade e o modo como ela permite a uma cor se misturar com outra e aí se fazer uma terceira, e por não demandar nada por si própria, restringindo-se a esperar, submetendo-se às coisas que lhe são feitas, espera que o pintor torne-se cada vez mais sensível às suas qualidades e capacidades reais; acreditei que deste modo a tinta faz para o pintor algumas coisas que uma boa mãe faz pelo seu bebê” (MILNER, 1955, pp. 139-40).

Para Milner, o meio maleável apresenta algumas características importantes: indestrutibilidade, apreensibilidade, processabilidade, sensibilidade, disponibilidade, reversibilidade, fidelidade e constância. Ao vivenciar tais estados, o bebê – ou o adulto em estado regressivo – estaria ao mesmo tempo fundando e já exercitando o seu aparelho de simbolização e os processos de representação.

A nosso ver, poderíamos pensar na bola como um objeto que reúne se não todas, quase todas as características presentes na definição do meio maleável. Quando pensamos nessa bola, vem à cabeça a cena de um bebê ou de uma criança pequena brincando com aquelas bolas de borracha, aquelas mais baratinhas que ao menor sinal do vento são empurradas. Por mais que elas não sejam indestrutíveis, também não é tão fácil assim destruí-las. Imaginamos aquela cena clássica brasileira de um bebê engatinhando atrás da bola, ele a agarra, a pressiona, bota na boca, e a bola às vezes simplesmente escorre por suas mãos, o bebê então se põe a engatinhar atrás dela novamente. As vezes a bola parece ganhar vida própria, ela faz todo um percurso, bate em alguma coisa e volta caprichosamente para as mãos do bebê, ou então, vai parar embaixo de uma cadeira ou atrás de uma porta. Muitas vezes esse esboço de brincadeira ocorre com o bebê sozinho, um adulto só precisa observar de longe e ajudá-lo eventualmente a encontrar a bola. O bebê experencia – tal qual na brincadeira do fort-da – os limites das situações de presença e ausência, porém o movimento e “a vida própria” da bola provocam um exercício um pouco mais complexo das capacidades de simbolização. Pensamos então que a bola pode ocupar um primeiro papel importante na constituição psíquica do bebê ao poder se deixar usar como objeto meio maleável.

Um segundo momento importante da constituição psíquica refere-se aos próprios jogos com a bola. Para falar dos jogos com bola, vou utilizar da referência que Lacan faz em seu Seminário 6 ao jogo do passa-anel. Lacan faz uma breve referência ao jogo utilizando-o como metáfora da circulação do falo no Complexo de Édipo.

No jogo do passa-anel, forma-se um círculo e uma pessoa passa o anel entre as mãos dos participantes, ao completar o círculo, o anel terá sido deixado secretamente entre as palmas da mão de algum dos demais participantes. Ou seja, uma pessoa adquire um valor especial no jogo quando está com o anel. A posição das pessoas em si não altera nada, somente a posição do anel que marca e institui um lugar especial.

Pensamos que a bola também pode representar a circulação do falo em diversas brincadeiras. Brincadeiras estas que subjetivamente exercitam funções mais complexas do aparelho de representação, pois nelas não estamos mais restritos somente ao indivíduo e a bola. Poderíamos pensar em muitos exemplos, mas os primeiros que vêm à cabeça são a brincadeira do “bobinho” e a da “batata quente”. Em ambas brincadeiras são necessárias a presença de mais de um indivíduo, e há regras previamente estabelecidas, ou seja, já não nos encontramos no terreno do meio maleável.

No jogo da batata quente passa-se uma bola de mão em mão e canta-se uma música, ao final da música, quem estiver com a bola perde o jogo. Sendo assim os integrantes passam a bola o mais rápido possível uns para os outros, a bola marca um lugar que representa uma espécie de anti-falo, pois ninguém quer acabar com ela na mão e assim sair do jogo.

No bobinho forma-se uma roda e elege-se uma pessoa para ficar no meio. O objetivo da pessoa do meio é pegar a bola, e o das pessoas que estão no círculo externo é passar a bola para uma outra pessoa sem que a do meio toque na bola. Quando a pessoa do meio toca na bola, o penúltimo que tocou na bola assumirá seu lugar no centro.

O circular da bola, marca o circular das posições no jogo, quem está com a bola tem o poder (falo) aos seus pés, podendo tanto conseguir passar a bola a um companheiro, e assim perpetuar o jogo mantendo o bobo mais tempo no centro, como pode errar o passe e ser obrigado a assumir a posição de quem corre atrás da bola – falo. Ou seja, do ponto de vista de quem está no centro, de quem é o bobo, a bola representa sua saída desta posição de desconforto.

Em ambos os jogos, a bola faz parte de um jogo simbólico, ela não está mais lá somente como objeto, ela representa algo e está submetida há um conjunto de regras e, justamente por essas razões, exige dos participantes capacidades mais elaboradas de representação.

Por fim o futebol, esporte das massas, amparo de infinitas identificações, seria, a nosso ver, uma das formas atuais mais privilegiadas de promover a sublimação. Os uniformes discriminam duas equipes que organizam-se individual e coletivamente em torno da bola e estabelecem uma disputa de poder, medida pela capacidade de “furar” a defesa do adversário e atingir seu gol. São poucas regras que regulam o jogo, 17 para ser preciso, possibilitando uma grande maleabilidade nas formas de buscar o gol: há quem prefira uma postura mais dominadora, por exemplo, se apossando da bola e acanhando progressivamente o adversário, ou quem prescinda dela e saiba exatamente o que fazer no pouco tempo que a tiver, pegando o oponente desprevenido, dentre inúmeras outras possibilidades estratégicas. Fato é que, esse jogo em torno da bola encena todos os elementos humanos de vida e de morte com os quais nos debatemos diariamente no registro do inconsciente, como o erotismo, o ódio, as parcerias e submetimentos, as diferenças e repetições, o masoquismo, as perversões, etc.

O equilíbrio do jogo é falho e frequentemente precisa ser recontratado para que possa acontecer. É quando o futebol perde seu caráter sublimatório e transforma-se na atuação dos impulsos em estado bruto, seja pela desorganização dos jogadores ou dos torcedores. O limite entre o futebol técnico-científico, artístico e o da brutalidade é sutil e vai sendo reestabelecido situação a situação e de acordo com cada momento histórico – nesta Copa do Mundo. por exemplo, deposita-se enormemente as expectativas no VAR, um mecanismo de regulação imagético que nos diria qual foi a “verdade” ocorrida nos lances polêmicos. Bem sintônico com este cenário mundial de hiper-realidades e pós-verdades, não?

O futebol reproduz a democracia, em alguma escala, mesmo com todas as suas conhecidas falhas. Existem fortes e fracos, mas quem é quem é algo passível de mudança. Há uma certa alternância de poder, existem ciclos, tradições que se estabelecem e são vencidas, dando lugar a outras. Muda quem detém o anel, quem domina a bola, e todos nós em torno disso vamos buscando meios de lidar com isso, tal como na vida em seu sentido amplo. Somos, simultaneamente, espectadores e jogadores desse jogo.

Boa Copa do Mundo!

 

Tomás Bonomi, Bruno Esposito e Bruno Mangolini.

 

REFERÊNCIAS

FREUD, S. (1920). “Além do princípio do prazer”. In FREUD, S. Edição Standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro, Imago, 1996, v. 18, pp. 13-78.

LACAN, J. O Seminário, livro 6: O desejo e sua interpretação. Rio de Janeiro, Zahar, 2016.

MILNER, M. (1955). “A comunicação da experiência sensorial primária”. In MILNER, M. A loucura suprimida do Homem são. Rio de Janeiro: Imago, 1991, pp. 118-169.

WINNICOTT, D.W. (1953). “Objetos transicionais e fenômenos transicionais”. In WINNICOTT, D.W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975, pp. 13-44.

WISNIK, J.M. Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 2008.

Leave a Comment





%d blogueiros gostam disto: