A cura do amor?

Todos devem imaginar que, dentre os temas mais falados nos consultórios de psicanálise ou psicoterapia, um dos mais prevalentes é o amor. Se não o mais.cupido

Com grande frequência, as pessoas procuram um analista para ajudá-las diante de relacionamentos amorosos turbulentos, com dificuldades das  mais variadas para amar ou para superar desilusões amorosas. Os caminhos pelos quais cada um irá enfrentar seus dilemas frente ao amor será absolutamente singular, mas é evidente que a partir dos afetos e da dor que os encontros amorosos despertam, uma rica matéria prima fica à disposição para que cada um possa reinventar a si próprio.

Trocando em miúdos, muitos buscam um analista inicialmente quase como um pai de santo que “trará a pessoa amada em até sete dias”, mas pouco a pouco descobrem as armadilhas que deixam para si próprios nos relacionamentos amorosos, e que isso pode até guardar relação com outros departamentos da vida – como no trabalho, nas amizades, etc.

Pelo menos até certo ponto, amar é sofrer. Aliás, o prefixo pathos da palavra patologia – que significa o estudo sobre a doença – deriva ao mesmo tempo de “paixão” e de “sofrimento”. Aquilo que queremos separar a todo momento, na verdade estão imbricadas na essência das palavras, na essência mesma da coisa!

amor cerebroNão obstante, como hoje em dia time is money e muitas vezes “pega mal” demonstrar qualquer sentimento negativo,
novas estratégias terapêuticas prometem “acabar com o sofrimento” relacionado ao amor. A proposta se efetiva através de intervenções medicamentosas que ora agem na diminuição da libido, ora inibem pensamentos obsessivos e a compulsão, além de estratégias psicoterapêuticas para que o cérebro “aprenda” a não pensar na pessoa amada.

Vale conferir a reportagem na Revista ISTOÉ, na sua edição de 9 de abril de 2014, e quem sabe engrossar a fila dos amantes inveterados, que devem agora tentar resistir às tentativas de epoca amorcontrole e anestesia de nosso sentimento mais importante – e complexo. Para dar-lhe significado lançamos mão de estratégias não só científicas, mas também artísticas, cotidianas, históricas, religiosas, dentre outras, não sendo nunca passível de um reducionismo à química cerebral.

Quem não se lembra do personagem vivido por Jim Carrey em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004), que se submete a um tratamento cerebral com a finalidade de apagar todos os registros de memória relacionados à pessoa amada? Nessa obstinação, o risco é acabarmos por apagar a nós mesmos. Eis um bom exemplo de como a arte antecipa os dilemas da ciência que está porvir!

 Bruno Espósito, Bruno Mangolini, Tomás Bonomi

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