A influência das redes sociais na relação analista-paciente

Depois de alguns anos sem fazer análise, resolvi voltar. O primeiro passo desse processo – que para muitos é o mais árduo – reside na necessidade de pegarmos o telefone e marcarmos uma entrevista com esse(a) possível novo analista.

Se esse tem mais de quarenta anos, possivelmente ainda será adepto das antigas secretárias eletrônicas. Com mensagens padronizadas, os analistas se apresentam e dizem que vão retornar sua ligação o mais breve possível; tudo isso já dando início ao que Freud recomendava aos iniciantes na prática psicanalítica: a tal da neutralidade clínica.

Poucas horas depois de deixar a mensagem na caixa postal do analista, recebo uma chamada
anônima no celular (quando não aparece o número na bina). Eu estava ocupado naquele momento, e o primeiro pensamento que tive foi “que saco, mais um desses serviço de televendas”; desligo antes de atender. Algumas horas depois recebo novamente a bendita chamada anônima, dessa vez resolvo atender, e não é que era o analista retornando minha ligação!

Rapidamente tudo fez sentido para mim,  “mas é claro, ele não queria que eu tivesse em mãos, de bandeja, o seu número de celular e assim a possibilidade de encontra-lo a qualquer hora”.  Mais um passo nessa construção da figura neutra do analista, que estaria em grande risco se – com seu número em mãos – o paciente visse sua foto de perfil do Whatsapp e tivesse a possibilidade de iniciar uma primeira conversa via mensagens. Não só a neutralidade do analista está em jogo, mas também toda uma parte importante dos primeiros e significativos contatos com o analista pode ir por água a baixo.

Descrevo essa minha experiência pessoal, não como crítica, mas para levantar um tema que ainda é pouco discutido. Se na época de Freud, o telefone ainda era um item de luxo, atualmente os Smartphones, redes sociais e aplicativos não só fazem parte da vida como tecnologia da comunicação, mas também como ferramentas que alimentam as relações sociais, os afetos e a subjetividade de uma grande parcela da população.

Todo esse contexto não poderia deixar de influenciar o ramo das terapias e, mais especificamente, a relação analista-paciente. A almejada neutralidade clínica não parece mais ser possível em tempos de tantas conexões virtuais. Percebo, ao conversar com colegas, que uma grande parcela dos terapeutas utiliza-se do Whatsapp para se comunicar com os pacientes. Nos rendemos às benesses da tecnologia, o que acabou praticamente culminando na extinção da profissão de secretária, pelo menos nesse meio. Passamos a organizar nossas agendas e compromissos com poucos cliques, mas também nos colocamos em uma posição complicada – se nós podemos lhes alcançar, eles também podem.

Atualmente, principalmente com pacientes mais jovens, o primeiro contato ocorre via Whatsapp, maneira de se comunicar que aparentemente mostra-se menos carregada de angústia e ansiedade. O paciente quer saber os horários, que linha você trabalha, já saber se você pode lidar com um tipo específico de questão e, até mesmo, discutir o preço da sessão sem ter que escutar a nossa voz ou olhar em nossos olhos. Será que essa forma inicial de conversa não deixa de produzir marcas essenciais de serem vividas e analisadas na terapia?

Outra questão ainda mais complicada: o que significa para um paciente a possibilidade de poder
encontrar o seu analista a qualquer momento de sua vida? Por exemplo, acordo na madrugada angustiado, escrevo uma mensagem para meu terapeuta e fico aguardando ansiosamente sua resposta. Alguns analistas não respondem, outros respondem prontamente e iniciam uma conversa numa espécie de uma proto-terapia virtual. Será que estou disposto a virar analista 24h? Como cobrar por esses serviços? Será que você está sendo ético ou oferecendo uma escuta qualificada ao responder algo enquanto assiste um seriado com seu cônjuge ou toma uma cerveja com seus amigos? A minha opinião é a de que devemos sempre endereçar esses pedidos para a análise, quando possível oferecendo sessões extras.

Mas como pensar essa questão no âmbito dos casos difíceis (que cada vez mais habitam nossa clínica)? Supondo que um paciente nos escreva que está pensando em cometer suicídio, o que fazer nessas situações? Tento de alguma forma sempre priorizar o espaço da análise; contudo há casos e casos, e em situações extremas utilizo-me do recurso de fazer uma sessão emergencial por telefone, algo que normalmente já foi acordado com o paciente, com uma duração mais ou menos correspondente à uma sessão e que posteriormente será cobrada.

Uma mensagem escrita sempre dá margem a inúmeras interpretações, pois não temos a entonação da voz do interlocutor, não temos sua respiração, seus silêncios e, nesse tipo de diálogo, controlamos o tempo de resposta de nossa fala. Não é nem de perto a mesma coisa do que uma conversa presencial, e posso afirmar que a chance de cairmos em uma cilada ao respondermos as mensagens de nossos pacientes é bastante alta. Talvez o mais complicado resida na questão de que fora da sessão não estamos realmente focados no paciente, caímos na tentação de uma resposta rápida e simplista. Além disso, o que escrevemos está lá marcado na memória da máquina para sempre, o que não obedece de forma alguma aos mesmos processos da memória humana.

E o Facebook e o Instagram? O que dizer para um adulto esquizofrênico com graves dificuldades afetivas ou, sem ir tão longe, no caso de um adolescente que sofreu bullying a vida inteira e nunca teve um amigo, que você não vai poder adicioná-lo por conta de uma suposta neutralidade clínica? Podemos pesar os efeitos transferenciais de dizer sim ou não para esse pedido; às vezes perdemos o paciente, às vezes simplesmente não há o que fazer. Em situações muito particulares, já cheguei a criar um segundo perfil, mais simples, na rede social somente para poder adicionar um ou outro paciente, mas que teve suma importância no desenvolvimento do caso, pois não tive que negar esse pedido afetivo do paciente, algo que no momento julguei que poderia acabar destruindo o vínculo.

Acredito que tal medida deva somente ser usada em situações bastante particulares, o pedido para “ser amigo” nas redes sociais é bastante comum e praticamente todas as vezes julgo que o paciente tenha estofo subjetivo suficiente para aguentar uma negativa calcada na explicação de que seria importante manter reservada minha vida pessoal e de que tais informações poderiam prejudicar o andamento da análise.

Concluindo, todos estes questionamentos de alguma forma tocam o que Sandor Ferenczi teorizou sobre a elasticidade da técnica. A grosso modo, este psicanalista sempre priorizou o encontro humano em detrimento a uma técnica dura; acredito que as tecnologias citadas revolucionaram o modos de se relacionar do séc XXI, e seria ingênuo de nossa parte (psicanalistas) se não discutíssemos e pensássemos mudanças na técnica psicanalítica.

Tomás Bonomi

3 Comments

  1. Renata M Abreu on abril 4, 2018 at 1:28 pm

    Gostei mto desse artigo , que coloca questões atuais e pertinentes. Já fiz tratamento de câncer com longa internação. Nessa época não só a analista foi ao hospital para
    fazermos sessões, como tb fizemos pelo aplicativo Facetime. O ditado não diz que o ótimo é inimigo do bom? Análise sem ser no contexto clássico não é ótimo mas pode ajudar muito!

    • conexoesclinicas_super on abril 11, 2018 at 12:56 pm

      Obrigado pelo comentário e por dividir um pouco de sua experiência, Renata!

  2. André Leibl on abril 20, 2018 at 11:54 am

    Excelente abordagem da complexidade que a tecnologia virtual nos coloca na relação paciente-analista. A meu ver, temos que utilizar tudo que resulte no bem estar do paciente. Como ‘usar’ Freud, Jung e Lacan nas novas mídias, que não na ‘mídia’ frente-a-frente que eles tiveram que usar? Ainda não sabemos. Temos que usá-las e acompanhar de perto seus resultados.

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