– A pele na formação da subjetividade.

“O mais profundo é a pele”

– Paul Valery

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vesaliusVocê sabia que a pele é o maior órgão do corpo, alcançando em torno de 18.000cm² de superfície? Que ela é um dos primeiros órgãos a se desenvolver no feto – algo em torno do 2º e 3º mês de gestação – o que denota sua extrema importância em nossa sobrevivência? Que pele e cérebro provém da mesma estrutura embriológica, o ectoderma? Que a pele, inclusive, está absolutamente irrigada de terminações nervosas, portanto em contato direto com o cérebro?

É na pele que sentimos dor e prazer. Através dela temos a experiência do tato – nosso primeiro e principal sentido -, permitindo-nos conhecer o mundo e a nós mesmos, através de sucessivas experiências e discriminações, como por exemplo entre o prazer de um calor e a dor de uma queimadura. A pele realiza outras inúmeras funções vitais, sem que tenhamos essa percepção corriqueiramente, sustentando e protegendo nosso corpo, respirando, transpirando, além de ter um papel decisivo na sexualidade.

De um ponto de vista mais amplo, podemos constatar a importância da pele para além do organismo. Ela representa um meio de comunicação de marcas e valores individuais e coletivos, seja através de cicatrizes, tatuagens ou adereços; da mesma maneira, a linguagem corrente utiliza a pele permanentemente como metáfora, quando dizemos, por exemplo: “sentir na pele”, “se pôr na pele do outro”, “fulano é casca grossa“, dentre muitas outras.

Complexa e multifacetada, a pele é objeto de estudo em diversos campos de conhecimento, desde biologia, medicina e etologia, passando por história, sociologia e filosofia, chegando até a linguística e as artes. A psicanálise também debruçou-se sobre essa temática, trazendo enormes contribuições teóricas e ampliando o alcance da clínica. O livro intitulado “O Eu-pele” de Didier Anzieu, é um marco dessa investigação dentro da psicanálise, através de um estudo rigoroso na ciência de Freud, mas também muito generoso com relação às contribuições que outras ciências podem nos oferecer sobre a pele.

Vamos destacar a seguir algumas contribuições que identificamos, tanto na clínica quanto no campo científico, à medida que atribuímos à pele seu devido valor na formação da subjetividade. Também convidamos o leitor a dar sua opinião em uma temática tão importante e atual!

1) A pele e o ego: construindo barreiras

O ego (eu, em latim) é entendido em psicanálise como uma instância psíquica que procura regular interesses muito diversos, como os impulsos que vem do corpo e exigem satisfação, as exigências da realidade externa e as exigências do denominado “superego” – essa instância crítica presente em todos nós. O ego busca conter os afetos e “dar nome” a eles, em uma tentativa de simbolização que substitua as descargas energéticas – este processo de nomeação se daria, por exemplo, quando uma mãe tenta identificar o motivo do choro de seu bebê. Ao longo da constituição psíquica, o ego vai internalizando traços de pessoas com quem se convive – pais, irmãos, amigos, professores, etc. Mas como o ego se origina? E qual a sua relação com a pele?

Já em 1923, Freud postulou que o egosurge a partir das sensações corporais vividas inicialmente pelo bebê, principalmente pelo que ocorre na superfície do corpo. Aquilo que é vivido na pele serve como fundamento para a construção de um eu psíquico; “o ego é, antes de tudo, um ego corporal”, na célebre afirmação de Freud.

Os toques, estímulos, brincadeiras, amamentação, etc., que se dão principalmente no contato com a pele do bebê, o
imagespossibilitam vivenciar a relação com seus cuidadores como proteção, confiança e  continência para as aflições. Em um segundo momento, os limites do próprio corpo começam a ser reconhecidos e consequentemente a própria pele é percebida como uma membrana que protege das “ameaças” externas e dá continência ao mal-estar interno. A pele passa a funcionar como um intermediário entre os diferentes estímulos, as relações entre o dentro e o fora, as diferentes sensações, o interno e o externo, etc. O ego baseia-se nessa experiência corporal para realizar essas mesmas funções no plano psíquico, contendo os afetos, filtrando os estímulos externos, discriminando dentro e fora, eu e outro.

Vale relembrar um dado científico de suma importância: o ser humano, em comparação com as outras espécies da natureza, nasce muito mais despreparado para a sobrevivência e, portanto, dependente absolutamente de seus cuidadores. Se uma criança é lançada à própria sorte, além do risco eminente de não sobreviver, boa parte de suas funções corpóreas não se desenvolverão satisfatoriamente, como no caso da pele, que não poderá ser experimentada como o continente do corpo, se não houver um outro que o ajude a criar essa sensação. Os bebês buscam o apego, o contato pele a pele, e em situações de desamparo tentam desesperadamente consolar a si próprio. Quando não se consegue experimentar o contorno corporal, evidentemente, fica prejudicada a constituição do ego.

2) A pele entre o corpo orgânico, psíquico e social: superando barreiras

No momento atual, observa-se uma polarização entre diferentes teorias que tentam explicar a origem do psiquismo, em especial suas falhas – os “transtornos mentais”. A polarização se dá fundamentalmente entre teorias que postulam a origem orgânica dos transtornos mentais, com ênfase especial nas heranças genéticas, e teorias psicogênicas, advogando em favor das relações humanas, da história de cada indivíduo com ênfase nos seus relacionamentos interfamiliares ou sociais mais amplos.

Entretanto, o estudo da pele mostra como as coisas caminham mais interligadas do que costumamos pensar. O psíquico tem como base os cuidados corporais; o espaço psíquico pode se desenvolver através de uma rotina razoavelmente coerente de alimentação, descanso, momentos lúdicos, etc. São nesses momentos que transmitem-se impressões, desejos, valores, tudo aquilo que possa dar sustentação psíquica para um sujeito. Tudo isso ocorre no corpo a corpo, pele a pele, portanto as experiências de prazer e desprazer estão profundamente imbricadas no que concerne tanto às necessidades corporais quanto psíquicas.

como-acabar-com-a-birra-do-bebe-7463Tão importante quanto os momentos em que se está junto, vale salientar, são os momentos de separação. A relação não se dá em uma fusão do bebê e seu cuidador, e sim através de sucessivas presenças e ausências, nem sempre fáceis de “dosar”. A presença nutre e estimula, mas a ausência cria condições do bebê se des-envolver, ou seja, sair do envolvimento com seus cuidadores e inventar recursos próprios para suportar essa ausência, seja através da imaginação ou da brincadeira.

As orientações dos pediatras a respeito da rotina de um bebê – como, por exemplo, “mamar de três em três horas” -, para nós, diz respeito não só às necessidades fisiológicas que precisam ser garantidas em uma medida adequada, mas também a um ritmo adequado de presença e ausência que ajude seu desenvolvimento psíquico.

A constituição psíquica não se dá de maneira “desencarnada”, fora do corpo a corpo, como alguns profissionais foram levados a crer; tampouco se dá por uma inscrição genética prévia e impositiva, compreensão igualmente fora da relação corpo a corpo. Se acompanharmos tendências científicas como a epigenética, vemos que gerações anteriores podem transmitir para o corpo da criança traumas que passaram em suas vidas, sem que se deem conta necessariamente; exemplo disso são os filhos de quem viveu no holocausto ou em catástrofes climáticas, que desenvolveram em maior escala doenças físicas e mentais. Essas pesquisas vão bastante de acordo com o postulado psicanalítico das transmissões inconscientes, em que determinados eventos ocorridos com pessoas de gerações passadas marcam a história de uma família e acabam influenciando na construção da subjetividade das gerações mais novas.

3) Limites em um tempo sem limites

Inúmeras lutas sociais protagonizadas no século XX questionaram e conseguiram destituir – ou pelo menos abrandar – regimes políticos autoritários, modos de vida muito restritivos e métodos pedagógicos punitivos. No entanto, a lógica de mercado se impôs no lugar das antigas tradições, convocando-nos a produzir e consumir sem limites. Estamos no tempo do “quanto mais, melhor” e tentar impor qualquer tipo de limite soa como uma afronta à liberdade individual. Eis o dilema bastante presente hoje nas escolas e na vida familiar, pois não se trata de tentar resgatar um autoritarismo despótico, mas de reconhecer como os limites em certa dose ajudam a organizar as crianças, diminuindo suas angústias e ajudando a construir nelas próprias as noções de temporalidade e coletividade, assim como diminuir sua sensação de onipotência. Vale salientar que os limites, em uma esfera individual, começam a ser construídos na pele. 

 

mente e cerebro ab

4) Por fim…

Pensar o papel da pele na formação da subjetividade parece-nos interessante por ela situar-se em um papel de intermediária entre corpo e psiquismo, por ser fundamental na constituição de limites e do próprio pensamento. Além disso, ela pode ser um caminho para a ciência cessar a polarização mente-corpo para, quem sabe um dia, chegar a um modelo integrado de compreensão.

 

Bruno Mangolini, Bruno Espósito e Tomás Bonomi

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One comment on “– A pele na formação da subjetividade.

  1. Congratulations for the way you “skinned” the psychocutaneous pathways!
    I am dermatologist and work in the field of psychodermatology. What are your specialties? (The authors)
    Iara Galiás Yoshinaga
    São Paulo – Brasil