A Ritalina e o “doping” dos vestibulandos

Quem convive ou atende adolescentes em fase de vestibular já sabe bem o clima que se estabelece nesta época do ano em que estamos. A ansiedade toma conta do vestibulando e da própria família, a expectativa das provas e dos resultados corroem a paciência e a sensação de estar sendo testado toma conta de tudo.

A lógica da competitividade, dos perdedores e vencedores, vem impondo-se de tal maneira na vida dos vestibulandosadolescentes premio que a analogia mais pertinente a ela talvez seja com as Olimpíadas esportivas: treinos descomunais, sacrifício dos prazeres da vida, imagem mundial de êxito ou fracasso e… doping.

Para atingirem um “a mais” no desempenho e eliminarem os mal-estares de uma rotina atlética de estudos, os vestibulandos vem gradativamente aumentando o uso de psicofármacos, em especial os da classe do metilfenidato (Ritalina, Concerta, etc.). São substâncias estimulantes que geram um aumento da atenção e diminuem a sensação de cansaço, fazendo com que o jovem sinta-se produtivo por um período significativamente maior de tempo.

Trata-se de mais um exemplo deste mundo que vivemos, onde não só se tratam doenças, como também tenta-se otimizar pessoas normais, aqui através do que vem sendo denominado como ”doping mental”. Se a Ritalina já sofre muitos questionamentos quando é receitada em situações nas quais o diagnóstico está claro, imagine então quando não há doença e quando fica difícil controlar seu uso e sua procedência (por ser um estimulante que pode causar dependência e uma série de efeitos colaterais, sua prescrição é controlada, fazendo com que as pessoas a busquem noritalina mercado negro, ou “simulando sintomas” na frente de um médico).

Ao menos duas grandes questões se abrem. Uma delas é o uso da droga tal como qualquer outra droga ilícita, cujas consequências físicas, psíquicas e sociais ficam bem mais difíceis de serem abordadas quando “debaixo dos panos”. Tornou-se inclusive comum uma espécie de narcotráfico da Ritalina em cursinhos para vestibulares, o que preocupa se considerarmos o estado de pressão e desespero em que o estudante se encontra. A outra é uma questão de ordem social: no esporte, buscam-se criar mecanismos de impedir o doping, pois quem o usa obviamente é favorecido. E se no vestibular percebermos que os usuários de Ritalina tendem a obter um desempenho melhor do que os outros, o que faríamos? Investiríamos cada vez mais em dopings mentais, visando atingir o máximo absoluto de desempenho, ou criaríamos mecanismos de antidoping nos vestibulares, desclassificando quem usou a droga?

São questões que antes imaginávamos só aparecer em filmes de ficção científica, mas que hoje estão cada vez mais próximas do momento que vivemos.

 

Bruno Espósito, Tomás Bonomi e Bruno Mangolini

1 Comment

  1. Lucimaria on janeiro 5, 2016 at 11:24 pm

    Isso e o que ocorre!
    Mas fico pensando o quanto isso e estimado pelos médicos, país e professores, tudo para a obtenção do sucesso, mas a que preço para os alunos??

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