– A Saúde Mental no Hospital Geral: os desafios da clínica ampliada (por Bruno Bengel)

 

consulta antiga

Quando ficamos doentes, experimentamos uma condição existencial incômoda. O corpo impõe seus limites e expõe nossa vulnerabilidade orgânica, acarretando modos de subjetivação singulares. Contudo, essa experiência é comum à todos nós, pois ninguém deixa de adoecer. A busca pela restituição do estado normal pode se dar de diferentes formas nos dias de hoje, mas a procura por atendimento médico em pronto-socorro (PS) continua em alta.

Ao procurarmos por assistência médica, supomos que o profissional será capaz de aliviar nosso sofrimento e nos curar da enfermidade. Temos a crença de que sua prática está subsidiada por saberes e técnicas acumuladas ao longo da história das ciências médicas. Preferencialmente, buscamos um hospital por compreender este local como sendo portador dos equipamentos tecnológicos mais avançados, além de poder contar com especialistas das mais diversas áreas.

Ao adentrarmos no estabelecimento hospitalar, entregamos nossos corpos ao exame exterior, convictos de que a promessa tácita de não mais sofrer ou sentir dor será cumprida. O médico, detentor do todo-saber, objetifica com o olhar, esquadrinhando o corpo para poder isolar dele as patologias.

Para que a dinâmica da relação médico-paciente tenha um bomMED029_thumb[14] funcionamento, há que se distinguir aquele que ocupa o lugar de poder pela norma, do que se submete e se emudece diante da verdade do outro. Embora possamos tratar com naturalidade esse enquadre clínico, presente no ambiente hospitalar, não podemos perder de vista como se deu sua construção social e historicamente.

Primeiramente, não foi a medicina que inventou os hospitais. Eles existem desde a idade média, mas foram construídos para satisfazer outras funções sociais: amparar material e espiritualmente os pobres, além de proteger a população de sua presença perigosa. Misturam-se, nesse local de internamento, figuras das mais variadas estirpes. Doentes, loucos, devassos, prostitutas, habitam ao mesmo tempo esse espaço de caridade e exclusão <1>.

Somente à partir da segunda metade do século XVIII, os hospitais passam a ser objeto de intervenção da medicina. Os princípios ideológicos da Revolução Francesa (1789) contribuíram para a transformação do hospital geral. O que era antes lugar de filantropia e de manutenção da ordem social, passou à prestar tratamento exclusivamente aos doentes. Com a queda o rei soberano, as instituições se democratizaram. Surge então a disciplina como técnica de exercício do poder, reorganizando o espaço hospitalar e administrando os corpos. Os médicos adquirem posição central nessa modificação institucional, pois não só tratam dos doentes e das doenças, como também gerenciam os hospitais <2>.

No período pós-Revolução, Pinel inaugura a psiquiatria e sua instituição por excelência, o manicômio. Portanto, os loucos devem permanecer submetidos ao internamento, já que despossuídos da razão iluminista. Consequentemente, o hospital psiquiátrico se aparta do nosocômio <3>. Após essa cisão, a psiquiatria se reencontra com o hospital geral somente no século XX, com o término da II Guerra Mundial. O horror aos campos de concentração e o adoecimento psíquico de ex-combatentes foram fatores cruciais para a fundamentação da crítica às instituições totais – os manicômios, dentre elas –, assim como impulsionaram a criação de unidades psiquiátricas em hospitais gerais <4>.

Atualmente, a assistência em saúde mental inclui os hospitais gerais como componentes das Redes de Atenção Psicossocial (RAPS), sendo pontos de passagem possíveis de acordo com o itinerário terapêutico de cada usuário do SUS. Como estratégia de cuidado, são ofertadas internações breves em leitos psiquiátricos em enfermarias de clínica médica ou em unidades próprias de psiquiatria.

Embora sendo o discurso oficial do Ministério da Saúde (MS), o acolhimento das demandas de saúde mental, independentemente da queixa do usuário, continua sendo uma questão nevrálgica para a atenção hospitalar. Não é incomum observarmos a subestimação de urgências psiquiátricas nos corredores do PS. Psicóticos, histéricas, toxicômanos, parecem não se enquadrar à norma médica de intervenção terapêutica, em que a normalidade é tida como meta ideal <5>. Em seus discursos, casos como esses trazem à tona uma verdade negada pelo poder disciplinar, pois quando existe fala, há sujeito.

Contudo, muitas vezes o silêncio não é irrompido. O processo de hospitalização produz efeitos devastadores na subjetividade. Emergem sintomas que carregam consigo um mistério para a objetividade científica. Algumas pessoas quando internadas deprimem, outras se agitam, umas ficam ansiosas, enquanto há aquelas que se tornam hostis. Um modo de atender ao chamado desses sintomas é justamente tentar medicalizar questões clínico-institucionais. Ao entendermos que, assim como a institucionalização em si, a relação médico-paciente também pode produzir sofrimento, se ignorarmos esses fatores como determinantes do processo saúde-doença- intervenção, tornamo-nos cúmplices da diminuição da capacidade das pessoas para lidar com a doença e o sofrimento de forma mais autônoma; corremos o risco de desconsiderar as relações de pertencimento dos sujeitos; podemos gerar dependência excessiva de atenção médica, alienação e outras iatrogenias <6>.

Independentemente da forma de manifestação sintomática, seja pela via da palavra ou do corpo, os sujeitos resistem à subordinação disciplinar da instituição ou à dessubjetivação produzida pela prática médica. Como podemos escutar essas demandas que a todo momento estão sendo caladas pela clínica biomédica e de que modo contribuir para práticas clínicas menos degradadas <7>.pintura

A princípio, a inserção de profissionais da saúde mental ou a criação de enfermarias psiquiátricas no âmbito hospitalar pode parecer suficiente para o aumento do grau de eficácia das ações terapêuticas, além de qualificar o acesso dos usuários da RAPS e promover um espaço de internação menos excludente em momentos de crise. Há evidências de que as intervenções psiquiátricas, psicológicas e psicossociais trazem benefícios aos usuários do hospital, pois reduzem o tempo de hospitalização e diminuem a quantidade de procedimentos terapêuticos e diagnósticos, acarretando na queda dos custos com as internações hospitalares <8>.

Contudo, somente a presença de profissionais especializados em saúde mental pode não produzir transformações no modelo assistencial vigente. A implementação de arranjos organizacionais, que tenham como referencial metodológico o trabalho interdisciplinar, pode contribuir para aumentar o grau de democratização institucional, possibilitando: A) o compartilhamento de saberes e práticas; B) a definição de responsabilidades de acordo com as competências; C) o abrandamento das disputas corporativas e seus efeitos deletérios; D) abarcar a dinâmica intersubjetiva do trabalho em saúde <9> .

Portanto, alguma experiências teórico-práticas nesse campo são apostas dignas de citação.

A interconsulta médico-psicológica <10> , desenvolvida na Argentina, propõe uma atuação clínica voltada à relação médico-paciente, a partir da construção de um diagnóstico situacional, utilizando-se do referencial psicanalítico para compreender e manejar os conflitos emergentes dessa relação. No Brasil, a interconsulta psiquiátrica <11>. trabalha na interface com amedicina, desenvolvendo ações assistenciais, bem como de ensino e pesquisa. É um instrumento metodológico utilizado no trabalho em serviços de saúde pelo psiquiatra, objetivando compreender e aprimorar a tarefa assistencial. Outro arranjo tupiniquim que poder ser útil, para conceber uma remodelação da prática clínica hospitalar, é o apoio matricial <12,13>. Essa tecnologia é tanto arranjo organizacional como metodologia para a gestão do trabalho em saúde. Pode ser compreendido como retaguarda assistencial e suporte técnico especializado para equipes multiprofissionais, aumentando sua capacidade de fazer clínica ampliada. Permite a regulação dos encaminhamentos, corresponsabilizando os profissionais envolvidos com o caso, com vistas a garantir a integralidade do cuidado.

Embora não tenham sido exploradas exaustivamente neste artigo, essas metodologias de organização dos processos de trabalho podem criar subsídios para a emergência de práticas em saúde pautadas no sujeito, sem excluir a doença que encarna, mas considerando a singularidade do processo de adoecimento. É a partir da escuta daquilo que resiste que podemos questionar as formas instituídas, tensionando assim o modelo de clínica e gestão tradicionais. Através das fissuras que se abrem pelos usuários-sujeitos e seus sintomas, que escapam à institucionalização da clínica biomédica hegemônica, poder interrogar o saber-poder médico <14>.

Bruno Bengel é psicólogo, especialista em saúde mental e mestre em saúde coletiva. Atualmente, trabalha no CAPS ij Roda Viva (Campinas).

 

Para acessar o texto completo do autor: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000967690

 

1 FOUCAULT, M. O nascimento do hospital. In: Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 6ª ed. 1986.

2 FOUCAULT, M. O nascimento do hospital. In: Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 6ª ed. 1986.

3 FOUCAULT, M. História da loucura: na Idade clássica. São Paulo: Perspectiva, 2008.

4 BOTEGA, N. Psiquiatria no hospital geral: histórico e tendências. In: Prática psiquiátrica no hospital geral: interconsulta e emergência. Ed. Porto Alegre: Artemed, 2012.

5 CANGUILHEM, G. O normal e o patológico. 7 a Ed. Rio de Janeiro: Forense universitária, 2014.

6 Campos G.W.S, Cunha G.T, Figueiredo MD. Práxis e formação Paideia: apoio e cogestão em saúde. São Paulo: Hucitec; 2013.

7 CAMPOS G.W.S., Saúde Paidéia. São Paulo: Hucitec; 2013.

8 NOGUEIRA-MARTINS L.A., BOTEGA N.J. Interconsulta psiquiátrica no Brasil: desenvolvimentos recentes. Revista ABP-APAL 20(3):105-111, 1998.

9 BENGEL DE PAULA, B.H. Estudo das relações interprofissionais no hospital geral: contribuições da saúde mental para uma clínica do sujeito. Dissertação de Mestrado apresentada à Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas.

10 FERRARI, H., LUCHINA, I., LUCHINA, L. La interconsulta médico-psicológica en el marco hospitalario. Buenos Aires: Ediciones Nueva Visión. 1980.

11 NOGUEIRA-MARTINS LA, BOTEGA NJ. Interconsulta psiquiátrica no Brasil: desenvolvimentos recentes. Revista ABP-APAL 20(3):105-111, 1998.

12 CAMPOS GWS, DOMITTI AC. Apoio Matricial e equipe de referência: uma metodologia para gestão do trabalho interdisciplinar em saúde. Cad Saude Publica 2007; 23(2):399-407.

13 CAMPOS, G. W. S.; AMARAL, M. A. A clínica ampliada e compartilhada, a gestão de redes de atenção como referenciais teórico- operacionais para a reforma do hospital. Ciência e Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 12, n. 4, p. 849- 859, 2007.

14 BENGEL DE PAULA, B.H. Estudo das relações interprofissionais no hospital geral: contribuições da saúde mental para uma clínica do sujeito. Dissertação de Mestrado apresentada à Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, 2016.

Deixe uma resposta