A vida e a revolução de Nise da Silveira (por Daniel Taubkin)

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Recentemente assisti a um belo filme, “O Coração da Loucura”em que a protagonista é indubitavelmente uma das mulheres mais notáveis da história do país.

Trata-se da médica psiquiatra Nise da Silveira (que no filme é interpretada pela atriz Gloria Pires). Sua trajetória se estende brilhantemente pelo século XX, de ponta a ponta, pois Nise nasceu em 1905 nas Alagoas e faleceu em 1994, no Rio de Janeiro. Seu pai era diretor do Jornal de Alagoas. Sua formação básica foi num colégio de freiras em Maceió; depois foi à Bahia e de 1921 a 1926 cursou a Faculdade de Medicina.

Sua vocação para a singularidade, exceção e luz própria já se manifesta aí onde é a única mulher numa turma de 157 estudantes. Está entre as primeiras mulheres a se formar em Medicina. Casou-se com o sanitarista, colega de turma, Mario Magalhães da Silveira. Em 1927, com a morte do pai, o casal muda-se para o Rio de Janeiro.

Nos primeiros anos na capital envolve-se com o meio artístico e literário da época. Seis anos depois estagia na clínica neurológica de Antonio Austregesilo. Ainda em 1933 é aprovada num concurso e passa a trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental do Hospital da Praia Vermelha.nise_da_silveira94278

Dois anos depois, no periodo da Intentona Comunista, é denunciada por uma enfermeira por posse de livros marxistas o que acaba a levando para a prisão por um ano e meio. Aqui podemos ver que se tratava de perseguição a uma mulher com ideais e ideias próprias. Só o fato de possuir os livros não seria motivo para ficar presa por um período de 18 meses! E assim, mesmo depois em liberdade, durante o período autoritário do Estado Novo, por motivos políticos foi afastada do serviço publico e passou a viver na semi-clandestinidade.

A sensível e lucida Nise sentiu na própria pele a dor vivida por seus pacientes, enclausurados em sanatórios. Sua posição antimanicomial se fortaleceu e, em 1944, é readmitida no serviço público e passa a trabalhar no Centro Psiquiatrico Nacional D. Pedro II, em Engenho de Dentro.

É aqui que começa o filme. Com uma imagem simples e poderosa de Nise (Gloria Pires) batendo insistentemente num portão de ferro, a entrada do Centro Psiquiátrico, até que após vários minutos alguém vem atendê-la. A cena é metafórica e reveladora no sentido da dificuldade que teria em ser ouvida pelos médicos e pacientes, pois começou aí a manifestar-se clara e radicalmente contrária às formas agressivas de tratamento de sua época, tais como o confinamento, o eletrochoque e a lobotomia.

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Foi encaminhada ao setor considerado desimportante não só pelo conjunto de profissionais do Centro, como pela comunidade médica, que era o de Terapia Ocupacional. Fez uma verdadeira revolução nesse setor ao introduzir um ateliê de pintura e escultura onde seus “clientes”(era assim que Nise chamava seus pacientes) começaram a desenvolver verdadeiros milagres de produção artística. O filme se passa nessa época, desde o primeiro dia em Engenho de Dentro até o reconhecimento científico e cultural transnacional da obra revolucionária de Nise.

Os atores representam personagens reais que viveram nesse periodo e o fazem com muita competência. As cenas documentais são extraidas de um filme realizado na decada de 80 pelo saudoso cineasta Leon Hirzman em parceria com Nise da Silveira, “Imagens do Inconsciente”. A trilha sonora é de Jaques Morelenbaum e a direção de Roberto Berliner. Obrigatório.

Seguem os Links para o filme “Imagens do Inconsciente” de Leon Hirszman.

Parte 1:

Parte 2:

 

Daniel Taubkin é músico e produtor cultural. 

 

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