– Alguns comentários sobre o mentiroso compulsivo.

pinoquio

Quem nunca cruzou com uma pessoa que mente insistentemente? No senso comum, eles são caracterizados como indivíduos de mau caráter ou de má índole. Seriam pessoas que mentem para ocupar um lugar de destaque e, ao fazê-lo, não sentem o mínimo de culpa em machucar e passar por cima dos outros.

Muitas pesquisas afirmam que a mentira seria inerente ao comportamento humano e que todas as pessoas mentiriam centenas de vezes por dia.  Segundo Christopher Bollas,  um conceituado psicanalista de tradição inglesa, a mentira da pessoa comum teria a função de proteger a si mesmo ou um terceiro de uma verdade dolorosa ou de uma revelação embaraçosa. Além disso, podemos conscientemente mentir para infligir dor e crueldade à outrem.

Já os mentirosos compulsivos ou – na nomenclatura de Bollas – os mentirosos psicopatas mentem por outros motivos. A mentira teria a função de colocar a vida em um vazio, neste sentido o mentir seria praticamente igualado ao viver. Ele acredita que só por meio da mentira é que se pode vivenciar um sentimento de realidade pessoal. Em outras palavras, o mentiroso compulsivo experimenta um sentimento de tamanho vazio afetivo que a mentira serviria para humanizar sua vida, uma vez que caminha sempre nas bordas de um processo de desumanização.mascaras

Pode-se perguntar por que e como tais pessoas chegam nesta complexa situação psíquica. O autor constrói a hipótese de que os mentirosos compulsivos teriam severas falhas na formação do Self relacionadas à falta de contorno e mediação da realidade. Este processo, que ocorre por meio de seus cuidadores, faz parte do amadurecimento do aparelho psíquico do bebê na medida em que não nasce com a distinção estabelecida entre mundo interno e externo. Sendo assim, quando a mediação da realidade transcorre sem maiores problemas, o bebê atinge um grau de confiança e segurança na realidade necessário para o desenvolvimento de novas etapas de seu psiquismo.

De acordo com essa descrição, quando falha ao sujeito uma mínima crença na realidade, a mentira é introduzida como uma forma de encontrar um conforto e alegria, isto é, criar uma relação afetiva e imaginativa com o mundo exterior que ele não consegue alcançar. “É como se ele precisasse da mentira para dar realidade à experiência dissociada do self. Não é o conteúdo da mentira que permite isso, mas o processo do mentir em si, uma vez que no ato de reorganizar a realidade ele se libera do que vivencia como uma terrível escravidão” (p.206, 1992).

a-sombra-do-objetoApesar de algumas das mentiras funcionarem como uma defesa do self, ou seja, para que não seja descoberta a verdade sobre seu mundo interior, a grande maioria das mentiras desses sujeitos poderiam ser categorizadas como mentiras desnecessárias. Por exemplo, uma pessoa que narra aos seus colegas de trabalho todas as segundas feiras às incríveis peripécias e aventuras que vivera no final de semana; todo um enredo de personagens e acontecimentos fictícios. Tal mentira é acompanhada de um sentimento de triunfo e confiança, de tal modo que sente-se muito mais verdadeiro e preenchido do que com sua realidade, tornando praticamente inevitável que a mentira seja contada.

Ao mentir, o mentiroso compulsivo está mediando a realidade para um outro, assim, de forma inconsciente revive a experiência que lhe faltou no início da vida. Como se ele precisasse repetidamente assegurar sua existência em uma realidade “mágica”, já que, para ele, expressar uma verdade seria o mesmo que um ato de loucura.

 

Fonte:

BOLLAS, C. “O mentiroso”. In A sombra do objeto. Rio de Janeiro: Imago. 1992.

 

Tomás Bonomi, Bruno Mangolini e Bruno Espósito.

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