Análise via internet: limites e possibilidades

por Lucas Simões Sessa*

O avanço dos meios de comunicação é, sem dúvida, uma das características mais marcantes dos tempos atuais. Não é difícil perceber que o surgimento da internet provocou transformações radicais no modo como as pessoas se relacionam, atravessando fronteiras que, até então, inviabilizavam o contato a certas distâncias, mas também fazendo efeitos importantes nos vínculos que, antes dela, aconteciam sem que a ausência de qualquer mediação tecnológica fosse sentida. Enquanto ferramenta, não se trata de condená-la ou enaltecê-la em si mesma, mas de refletir a respeito de suas possibilidades de utilização, bem como dos seus limites. Interessa aqui direcionar essa reflexão para uma modalidade bastante específica de uso da tecnologia no campo das comunicações, por psicólogos e psicanalistas, no atendimento clínico de pacientes que, por alguma razão, não podem comparecer presencialmente ao consultório.

Logo aí surge um elemento que penso ser importante de abordar: o motivo pelo qual o paciente não pode se encontrar pessoalmente com seu analista. Enfatizo esse ponto porque considero que condições diferentes por parte de quem procura um tratamento analítico implicam em dispositivos também diversos de acolhimento da demanda que se apresenta. Parto da premissa, portanto, de que o atendimento online é uma dentre várias alternativas possíveis ao enquadre clássico do consultório, e que a sua validade enquanto formato de trabalho implica, antes de tudo, em uma indicação pertinente e cuidadosa. É interessante, por exemplo, que a virtualização das relações humanas, a que assistimos na contemporaneidade, não resulte em recorrer irrefletidamente a este recurso sem que exista um pensamento clínico que dê base a essa escolha por parte do analista.

Em um cenário de valorização exacerbada da capacidade produtiva, no qual a relação com o tempo se caracteriza por um ideal de otimização de tarefas e aumento de desempenho, me parece fundamental a ressalva quanto ao apelo de optar pela terapia online por sua conveniência e praticidade. Desde sua origem, a psicanálise jamais se propôs a limitar-se ao trabalho de tornar o sujeito mais adaptado ao meio em que vive, manifestando, pelo contrário, uma marcada dimensão transgressiva, ao convocá-lo a se haver com o que nele existe de enigmático e que, por isso mesmo, o determina. É inerente a um processo analítico a possibilidade de questionar as próprias escolhas, ao invés de simplesmente se ajustar a elas e a seus desdobramentos de modo mais eficiente. O mesmo dispositivo contribui, por outro lado, para democratizar o acesso à possibilidade de fazer uma análise, ampliando o alcance dessa ferramenta que busca dar voz ao sofrimento humano na pluralidade em que se manifesta. Mais uma vez, é uma questão do uso que se faz destes novos recursos.

Para tanto, alguns critérios precisam ser considerados de modo a definir qual o setting mais adequado a cada processo terapêutico, o que passa fundamentalmente por compreender o sentido e a função que uma determinada conduta assume no contexto singular de uma análise. Ir até a casa de um paciente que se encontra impossibilitado (por razões físicas ou psíquicas) de sair; circular com um sujeito pelo espaço público, acompanhando-o em atividades que lhe sejam significativas, quando o seu sofrimento passa justamente pela angústia de estar à margem do laço social; estar com um aluno em sala de aula, uma vez que sua dificuldade de aprendizado envolve o trabalho de lidar com conflitos psíquicos – são exemplos de modalidades terapêuticas preciosas, desde que fundamentadas clinicamente e capazes de viabilizar uma posição de escuta que, de outra forma, não seria possível – ou, ao menos, se sustentaria com menor consistência.

O exercício de transportar a psicanálise para além dos muros do consultório me parece muito interessante de ser feito, não apenas pela referida importância de democratizá-la e de ampliar seu alcance, mas pelo que este movimento suscita em termos de reflexão a respeito dos elementos que constituem a sua estrutura. Em toda a diversidade de formatos possíveis do fazer analítico, penso que a singularidade do seu método consiste na sustentação de uma escuta atenta ao que está pra além do conteúdo expressamente dito, o que inclui o discurso em sua dimensão estética e possibilidades de significação – por parte do analista – e, do lado do paciente, uma fala que busque dar voz a um fluxo associativo espontâneo de pensamento – par este apoiado no pressuposto de existência de um registro inconsciente regido por uma lógica a ser acessada através desse método de atenção flutuante e associação livre.

A especificidade do atendimento online consiste em se valer de um aparato virtual, capaz de viabilizar a conexão entre duas pessoas que não estão juntas fisicamente, tornando-o especialmente apropriado a situações nas quais o encontro presencial entre analista e paciente não é uma possibilidade. É característico do mundo globalizado em que vivemos o aumento do fluxo de pessoas por diversos países, tornando frequente a demanda de se analisar estando em uma localidade onde se fala outra língua, o que pode dificultar ou mesmo tornar impraticável um trabalho presencial. Este caso é especialmente ilustrativo da pertinência deste recurso, levando em conta toda a complexidade de relações existentes entre a linguagem e a constituição psíquica do sujeito, e a importância do paciente se sentir capaz de se expressar livremente em um processo terapêutico. Certamente que não é o caso de considerar inviável uma análise que aconteça fora da língua materna do paciente e do analista, mas de reconhecer e compreender a legitimidade desta demanda.

Também é comum que o processo analítico tenha início no consultório e passe a ocorrer virtualmente, uma vez que o analista ou o paciente passam a viver em outro lugar que não permite mais o encontro presencial entre os dois. Nesses casos, enquanto analista me parece importante pensar, sempre na singularidade de cada relação, se o caminho mais interessante de ser seguido é o da separação, contando com a eventual possibilidade de encaminhamento para outro profissional, ou a continuação online do trabalho. Atender ou frustrar a demanda do sujeito é uma decisão delicada que cabe ao analista, assim como saber das próprias possiblidades de viver rompimentos. Uma análise conduzida virtualmente desde o início provavelmente encontrará maiores limitações na sustentação da transferência e cederá mais facilmente às investidas das resistências que, em algum momento do trabalho, se farão presentes com maior força, do que um processo terapêutico no qual o trabalho à distância ocorra de modo mais pontual, durante uma viagem do analista ou do paciente, por exemplo.

Convém tratar ainda de casos nos quais questões relativas ao corpo e à auto imagem do sujeito desempenham um papel significativo no processo analítico. As chamadas “patologias narcísicas”, por exemplo, merecem especial atenção em um contexto de trabalho virtual, pois o olhar do analista desempenha aí uma função constitutiva particularmente desafiadora de encontrar caminhos de expressão sem que possa contar com a materialização presencial da relação terapêutica. Existe todo um conjunto de manifestações que acontece por outras vias que não a da palavra, para o qual o corpo serve de depositário. Penso que a bidimensionalidade da tela e a ausência de encontro físico na cena analítica virtual restringe significativamente a possibilidade de operar nestes outros registros. De modo semelhante, entendo que a psicanálise com crianças, em sua linguagem própria mediada por recursos lúdicos e trocas que passam marcadamente por vias alheias à palavra, encontraria notada limitação no trabalho online.

Situações em que o sujeito não teria outra alternativa para se analisar nos confrontam diretamente com a urgência de oferecer um lugar a esse debate sobre o uso das ferramentas tecnológicas de comunicação que não seja meramente o do posicionamento contra ou a favor destes dispositivos. É preciso positivar essa experiência do atendimento clínico online ao invés de contentar-se em defini-la pelo que ela não é, contribuindo com elementos teóricos e metodológicos para que este novo setting possa ser pensado. Por outro lado, é fundamental que analista e paciente se sintam suficientemente confortáveis para trabalharem neste enquadre, assim como também é muito importante que possamos, enquanto analistas, saber dos limites e impotências que nos impedem de acolher indistintamente toda e qualquer demanda que nos seja dirigida.

Existe uma dimensão de artesanato em cada processo analítico. A composição do setting tem sempre algo de singular, seja qual for o dispositivo adotado, no consultório ou fora dele. No caso do trabalho online, penso ser importante estabelecer, desde o contrato inicial, condições que permitam incluir os atravessamentos inerentes a este recurso, como as eventuais quedas de energias e falhas de conexão. O distanciamento físico deste contexto faz efeitos interessantes de serem compreendidos, como a nítida percepção subjetiva de que existe algo de mais frágil e evanescente acerca do vínculo possível de ser construído, ou a apreensão ante uma insistente ameaça de ruptura que pode, por exemplo, tornar os silêncios, tão constitutivos de uma análise, em sua polissemia, mais desafiadores de serem suportados. Há também algo que se perde na eliminação do tempo de preparo e de espera que antecede uma sessão de análise ou o encontro com o analista, ainda que fora do consultório. O campo virtual de alguma forma parece embaçar as fronteiras entre o junto e o separado, o longe e o perto, produzindo a impressão de contato constante – mas um outro contato – o que certamente produz efeitos importantes de serem pensados.

Contar com esporádicas sessões presenciais ao longo de um trabalho online, sempre que possível, me parece bastante oportuno, assim como a criação de outros mecanismos, conforme as preferências de cada analista, entre eles a escrita, que busquem dar maior consistência e corpo à relação transferencial. Produzir efeito análogo à suspensão do contato visual, como em um divã, através do desligamento da câmera do analista, ou mesmo solicitando ao paciente que se deite, também são possibilidades de singularizar este modo de conexão e potencializa-lo enquanto ferramenta clínica. Neste contexto, considero oportuno trazer a essas reflexões o manejo de outros recursos tecnológicos e virtuais também bastante presentes nas análises atuais, como os e-mails, as mensagens de celular e os telefonemas. Poder dar palavra a um sentimento ou acontecimento assim que ele se manifesta, através de uma mensagem ou e-mail endereçado ao analista, por exemplo, é um recurso muito interessante em casos nos quais a impossibilidade de significar minimamente uma experiência de angústia tem efeito paralisante para o sujeito, ou ainda a possibilidade de contar com esta outra modalidade de contato, para além do encontro presencial, quando a separação e a distância entre as sessões é muito insuportável de ser vivida.

Desde suas origens, seja enquanto ciência, método terapêutico ou elaboração teórica sobre a condição humana, a psicanálise se inscreve no esforço de posicionar-se à margem de toda hegemonia vigente, na resistência ao apelo de qualquer massificação ameaçadora da subjetividade, na composição e sustentação de espaços e tempos de escuta do erro e do caos, na aposta de que existe aí algo da verdade constitutiva de cada um. Não me parece afeita aos extremos pouco esclarecidos da conveniência e do conservadorismo, nem furtável à tarefa transgressora e revolucionária de levar a palavra até onde ela não alcançava, permitindo construções de sentido para a experiência errante do sujeito vida afora. Oferecer elementos para a compreensão das mudanças e para a contínua inserção deste nobre ofício no seu tempo e no seu meio constitui trabalho complexo e de grande valia, com o qual eu espero ter minimamente contribuído, na certeza de que outros posicionamentos são igualmente oportunos e cabíveis, em um debate ao qual, espero, muitas vozes se somarão.

* Lucas Simões Sessa é Psicólogo, graduado pela PUC-SP e Psicanalista, formado pelo Instituto Sedes Sapientiae. Possui experiência em análise de grupos e atendimento ambulatorial hospitalar. Atende adolescentes e adultos em consultório particular desde 2011, onde também realiza atendimentos online.

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