– Bullying é crime ?

bullyng

Recentemente, políticos e cidadãos de Carson, na California (EUA), vem se organizando para aprovar lei que criminaliza o Bullying na cidade, conforme noticiou a Folha de São Paulo. Não é o primeiro município que se mobiliza nessa direção e certamente muitos virão a seguir, inclusive no Brasil, refletindo uma tendência a lidar com o problema.

Muitos dizem que a prática do bullying sempre existiu, só não tinha esse nome; outros detectam uma intensificação do fenômeno, pois em sociedades altamente competitivas e individualistas, o outro transforma-se num competidor a ser destruído – dessa maneira, o bullying mereceria um cuidado especial nestes tempos.

Segundo o portal Brasil Escola, a concepção atual de bullying refere-se a “todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa sem ter a possibilidade ou capacidade de se defender, sendo realizadas dentro de uma relação desigual de forças ou poder”.

Ao nomear universalmente como bullying, ao invés de “zoar”, “zombar”, “caçoar”, ou qualquer outro sinônimo,  busca-se cada vezdrawing-bullying4[1]mais delimitá-lo numa esfera jurídica e médico-psicológica. Ou seja, torna-se uma doença a ser descrita e com uma conduta de intervenção definida, designando tratamentos e sanções criminais para o bullier (agressor) ou seus familiares. A universalização do problema, em contrapartida, pode tirar o foco de todas as variáveis envolvidas na complexa situação do bullying, desde o funcionamento psíquico dos envolvidos, o contexto escolar/institucional ou mesmo questões sociais mais amplas.

Seja no meio científico, na mídia ou na “boca do povo”, há uma tendência clara a tomar partido da vítima do bullying e, por outro lado, a pressionar a família, a escola ou o Estado a intervir sobre o agressor. Criminalizar o fenômeno parece coroar essa tendência.

Algumas experiências e teorizações advindas da clínica e de acompanhamento escolar, mostram que nem sempre podemos definir a situação grupal de agressividade como bullying. Em diversas situações, torna-se frutífero pensar que uma mesma pessoa é composta de setores psíquicos muito diversos, sendo uma delas a instância autocrítica. Em alguns, essa instância pode funcionar de maneira extremamente aguçada, às vezes até tirânica, permanentemente julgando e “caçoando” do próprio eu. Isso pode ocorrer de maneira ainda mais intensa na infância e adolescência, tempos de egos frágeis e personalidades ainda em formação. Frente a isso, a pessoa pode tentar endereçar sua crítica sobre outra pessoa, que pensa ser mais frágil que ele; o outro jovem, por sua vez, pode sujeitar-se à ofensa de uma maneira sistemática, sem se defender. E por quê? Talvez porque essa voz externa faça eco com sua própria voz interna autocrítica. Dessa maneira, é possível pensar e intervir considerando que o o agressor busca em seu ato desfazer-se de seu próprio lado frágil, do mesmo modo que a “vítima” tem em si um lado muito agressivo, que está voltado contra si próprio. Agressor e agredido formam um par no qual um não existe sem o outro.

Por outro lado, quando a situação do bullying de fato ocorre,  é necessário que os adultos e profissionais envolvidos não se omitam, pois a repetição sistemática pode produzir efeitos psicológicos extremamente nocivos. Estas situações exigem um delicado manejo com o grupo e, muitas vezes, tratamento.

Entendemos então que deve haver cuidado ao taxar uma situação de bullying, tanto nos contextos escolares quanto nos termos da lei, pois não podemos perder de vista a multiplicidade de fatores e agentes envolvidos nesta situação. Adotar uma posição sem a compreensão ampla do fenômeno pode levar a equívocos.

Tomás Bonomi, Bruno Espósito e Bruno Mangolini.

 

 

 

 

 

Deixe uma resposta