– “Causos Clínicos”: as traquinagens no Acompanhamento Terapêutico

Quando trabalhava em uma instituição voltada a pacientes psiquiátricos, durante algum tempo atendi um paciente jovem com quadro de esquizofrenia já estabelecido e que em alguns momentos fazia uso abusivo de cocaína.

Apesar dessa combinação arriscada, o paciente era geralmente afetivo, cheio de energia e de anseios com relação a seu futuro, tal como os jovens que costumamos conhecer. Salve em momentos disruptivos, vinculou-se ao tratamento de maneira invejável, talvez porque tivemos a sensibilidade e a paciência em considerar que seu tratamento exigiria muito mais jogo de cintura do que o habitual.

pipaEste paciente falava muito de sua infância, das brincadeiras e peripécias infantis, como soltar pipa, caçar passarinho, pular o muro do vizinho, etc. Por outro lado, também gostava de contar suas contravenções mais recentes, dizendo do glamour presente no mundo das drogas e das enrascadas inerentes à sua “vida loka”.

Pode parecer estranho para quem não é da área, mas seu Projeto Terapêutico se dava através de passeios pelo bairro, eu e ele, no qual íamos revisitando aquelas peraltices da infância e, como pano de fundo, ele ia ampliando as perspectivas de futuro. Algumas vezes, ao invés de fissurar na droga, ele fissurava nos nossos passeios. Somando isso ao tratamento medicamentoso e a um intenso trabalho com a família, àquela altura,  foi possível assegurar muitos progressos do paciente.

Em uma de nossas saídas a dois, que tecnicamente denominamos de Acompanhamento Terapêutico (AT)pulando o muro, nos dirigimos espontaneamente a uma praça pública e nos esparramamos na grama sob um sol que aquecia, ao passo que conversávamos sobre sua vida pregressa e seus projetos. Neste dia, ele havia mencionado diversas vezes suas travessuras de infância, inclusive algumas puladas de muro. O que ninguém esperava, no entanto, era que a praça naquele dia fecharia mais cedo que o habitual, sem que se dessem conta de nossa presença lá dentro. Não havia outra forma de sairmos de lá, a não ser… pulando o muro!

E foi assim que paciente e terapeuta viveram juntos na pele, no aqui-e-agora da relação terapêutica, aquilo que se supunha de tempos idos, de uma infância perdida, e que passado o constrangimento produziu uma marca de satisfação no paciente, incrementando o nosso vínculo. Mais do que nunca, eu era alguém que “entendia o que ele passava”, que “sabia do que ele estava falando”.

Nosso trabalho, em especial os Acompanhamentos Terapêuticos, é repleto de “causos” e acasos. Situações às vezes constrangedoras, mas que relacionam-se de maneira absolutamente direta com o conteúdo subjetivo envolvido no tratamento. Se soubermos agarrar as oportunidades, podemos transformar ou aprofundar a relação terapêutica.

 

Bruno Espósito

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2 comments on “– “Causos Clínicos”: as traquinagens no Acompanhamento Terapêutico

  1. Tomás Miguez disse:

    Muito bom. Sem essa disponibilidade o trabalho terapêutico fica logo comprometido. Um verdadeiro sonho a dois. Tomás

  2. Paula disse:

    Muito bom!