-“Causos Clínicos”: lambidas, fugas e dilemas…

O blog Conexões Clínicas inaugura um nova sessão: “Causos Clínicos”.

Trataremos aqui de situações estranhas, engraçadas, pessoais, curiosas e até bizarras que acontecem em nossos cotidianos de trabalho. Neste sentido, optamos por uma escrita mais livre,  que comporte a sutileza e o lúdico dos momentos vivenciados.escrita

Entendemos ser importante ressaltar que as situações aqui retratadas de forma alguma rompem com o compromisso ético que temos em relação aos nossos pacientes e locais de trabalho, principalmente no que se refere ao sigilo. Estaremos focando a atenção na vivências do clínico e não do paciente, se, por ventura, tratarmos de alguma questão referida à um paciente, será apenas para contextualizar a situação; todos os dados importantes referente a identidade serão modificados.

Dito isto, inicio o primeiro relato que quero dividir com vocês.

Esta experiência se passou numa época em que trabalhava em uma clínica de internação para pacientes dependentes químicos. O turno de trabalho funcionava através de plantões, ou seja, apesar da maioria dos profissionais passar algumas horas lá, sempre havia uma pessoa da equipe técnica que era o responsável pelo plantão do dia inteiro e, inclusive, dormia lá, pois cabia a ele lidar com as questões da noite e da madrugada.

grafite colorido homensEsta clínica, assim como a maioria das clínicas de internação, segue uma metodologia que se baseia em um sistema complexo de pontuação na qual os pacientes vão evoluindo conforme atingem determinadas metas e, assim, ocorre o desenvolvimento do tratamento até sua saída. Ou seja, conforme os pacientes atingem as metas eles são recompensados com maiores liberdades na clínica, mais contato com o mundo exterior e até pequenos regalos como horas livres, doces e etc. Da mesma forma, quando os pacientes cometem infrações às regras previamente explicadas, há um sistema detalhado de punições que envolvem desde perder estes regalos, aumentar o tempo de internação e, nos casos mais graves, existe a possibilidade do paciente passar por um período de isolamento num quarto trancado.

Faço uma pequena pausa para contar uma anedota do psicanalista Contardo Calligaris que me foi muito importante no período de minha formação. Conta ele no seu livro “Cartas a um Jovem Terapeuta” uma situação quando estava em Paris em que soube que queria ser terapeuta. Este fato ocorreu em uma instituição francesa, se não me engano para crianças autistas que tinham grande dificuldades afetivas e de interação. Um certo dia, Calligaris conta que passou várias horas junto a um menino que lambia seu rosto; diz ele que esta foi a única forma que o garoto encontrara para se comunicar com o terapeuta. Por trás desta história, está a vontade do autor em passar uma mensagem aos jovens terapeutas sobre os desafios e limites que poderiam encontrar em sua carreiras.fuga clínica

Voltando ao “Causo”, numa noite em que eu era o responsável pelo plantão, um dos pacientes cometeu uma infração: foi pego planejando uma fuga. A pena designada era a reclusão no quartinho por dois dias. Cabia a mim optar ou não por esta decisão. Sempre há uma questão de interpretação da regra, mas naquele caso diante dos outros funcionários era bastante claro que a decisão padrão seria pela reclusão. E foi assim que aconteceu, com o agravante de que este tal quarto ficava ao lado do quarto que os terapeutas dormiam. Nesta noite dormi muito mal, pois podia escutar gritos e murros na parede.

Bom, o fim da história foi que após este dia percebi que este trabalho não era para mim, então pedi cobra línguademissão e parti para outra. Continuo apaixonado pela profissão e a exerço em vários outros cantos. Acho que as lambidas de um garoto eu suportaria, mas a decisão de punir um ser humano de tal maneira, não!

Fica o convite ao leitor para também contar suas impressões e vivências!

Tomás Bonomi.

 

 

 

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