– “Causos clínicos”: quando a lei encontra o tratamento na saúde mental.

Existem diversas abordagens a respeito da lei no campo das ciências humanas. Na psicologia e na psicanálise existem muitos estudos que relacionam as categorias psicopatológicas com a lei, como, por exemplo, a relação da perversão com a transgressão, os atos transgressivos na adolescência e a imputabilidade dos esquizofrênicos diante da lei.

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Praça em Tournay (foto de Julia Cutait)

Uma abordagem consagrada deste tema na psicanálise refere-se ao processo psíquico da constituição subjetiva do bebê, em que uma terceira pessoa, geralmente o pai, faz um corte na relação dual mãe-bebê, o que corresponderia a uma restrição primordial e, portanto, seria a raiz do processo de internalização das leis. 

Apesar de existirem muitos trabalhos dedicados a este tema, são poucos os que propõe diretrizes clínicas a partir do estudo da relação do ser humano com a lei.  Desta forma, gostaria de dividir uma vivência clínica em que o dispositivo da lei foi utilizado para lidar com uma situação complexa.

Esta situação ocorreu na clínica Le Courtill, uma instituição pública na cidade de Tournay (Bélgica), que acolhe crianças e adolescentes com diagnósticos graves, principalmente psicose e autismo. Neste local, eles participam de uma série de atividades propostas por profissionais que vão desde grupos terapêuticos até organização de saídas, viagens, atividades esportivas, arrumação e limpeza da casa, além de irem à escola; os adolescentes que conquistaram um certo grau de autonomia possuem um quarto próprio.

Le Courtil Jeunes Adultes. Foto Julia Cutait.

Le Courtil Jeunes Adultes (foto de Julia Cutait)

A instituição é aberta, os adolescentes entram e saem quando querem, criando-se assim um fluxo na pequena cidade de 40.000 habitantes. Era interessante notar a interação entre os moradores com os jovens nos estabelecimentos comerciais: olhando gibis na livraria, tentando encontrar um adulto para comprar cigarro nas quitandas ou pedindo dinheiro emprestado para ir ao parque de diversões; contatos pessoais que operavam a favor da inserção social.

Durante o tempo em que atuei nesta clínica, iniciou-se uma competição entre alguns adolescentes sobre quem tinha o sistema de som mais potente. Alguns deles trabalham ou recebem dinheiro das famílias o que lhe proporcionam os meios para tais aquisições. Rapidamente foi instaurada uma situação crítica em que o volume do som alcançado perturbava qualquer atividade e todas tentativas de conversas ou imposição de limites não surtiam efeito ou até mesmo geravam situações de extrema violência.

Os vizinhos começaram a reclamar e a equipe clínica tentou propor aos adolescentes que usassem fones de ouvido – o que não surtiu efeito – e por fim tomaram a decisão de confiscar os aparelhos. Em pouco tempo os adolescentes conseguiram sistemas de som ainda mais potentes. Foi aí que surgiu a ideia de um dos diretores da instituição de chamar a polícia, uma vez que havia ali uma transgressão clara da lei. O efeito da chegada de homens fardados à casa dos adolescentes foi súbito. Após uma conversa com os representantes da lei a batalha do som terminou.

Befroi em Tournay. Foto de Julia Cutait.

Befroi em Tournay (foto de Julia Cutait)

Chamar a polícia não é uma solução mágica e nem uma decisão simples; é necessário avaliar o impacto desta ação no vínculo com o(s) paciente(s) e o que de fato se busca com isto. Neste caso, o recurso da lei foi decisivo para a mudança de atitude dos adolescentes. 

Este é um assunto que certamente pode ser mais aprofundado. Se por acaso o leitor quiser dividir alguma vivência ou pensamento a respeito desse tema, sinta-se livre para fazer aqui!

 

Em 2014 foi filmado na instituição Le Courtil o filme “A Ciel Ouvert” (A Céu Aberto). O título faz referência à famosa frase de Jacques Lacan de que na psicose o inconsciente se manifestaria à céu aberto. Segue abaixo o link para a página do filme onde há maiores informações e o trailler.

http://www.acielouvert-lefilm.com/p/le-film_17.html

Tomás Bonomi

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