Clínica Underground: Fernand Deligny

“E o humano aparece então como aquilo que resta, um tanto em farrapos, do aracniano atravessado por essa espécie de meteorito cego que é a consciência”

(F. Deligny)

O filósofo e pedagogo francês Fernand Deligny (1913 – 1996) é o personagem escolhido para inaugurar nossa sessão Clínica Underground, cuja proposta é a de dar voz àqueles que conduziram diferentes práticas curativas e subjetivantes, mas que por variadas razões não circulam no mainstream.

A escolha não se dá a toa, já que Deligny era um profissional absolutamente heterodoxo, renegado ou mesmo desconhecido não só pelo público geral, como também pelos próprios profissionais da saúde mental e da educação. Embora o grosso de sua produção tenha sido há décadas, somente em 2007 sua obra completa foi lançada na França, seu país natal; no Brasil, O Aracniano foi seu único livro publicado e está completamente esgotado. Dentre as aventuras de Deligny, a câmera desempenhou um papel importante (chegou a ser uma grande influência para François Truffaut em “Os incompreendidos”) mas só um de seus próprios documentários está disponível no YouTube, e em francês. Uma pena, pois esses documentários constituem uma boa maneira de entrar em contato com seu trabalho e suas ideias.

Do ponto de vista conceitual, quem conhece um pouco da obra de Gilles Deleuze & Felix Guattari já se deparou com várias ideias que foram desenvolvidas inicialmente por Deligny: rizoma, linhas de fuga, deriva e até a cartografia: ao invés de fixar os autistas em uma identidade, ele propunha acompanhar suas ações e a movimentação de seus corpos através de um mapeamento contínuo.

Cartografia de Fernand Deligny. Em 2012, muitos destes trabalhos foram expostos na Bienal de Arte de São Paulo.

Embora consistente em sua formação acadêmica, Deligny já se colocava à margem dela: preferia ser apresentado como poeta e etólogo, e seu posicionamento era sempre crítico aos manuais, modelos e produção de conhecimentos “universais”. Ele detestava a postura do “saber” científico e as falações intelectuais, especialmente quando o assunto eram as crianças e jovens que, em suas palavras, estavam “à parte da sociedade”. Tecia críticas à educação positivista, à psiquiatria e à psicanálise hegemônica naquele momento na França – acima de tudo, Deligny não aceitava a ideia de que patologias seriam desvios de uma norma preexistente.

Em sua prática profissional, Deligny era alguém que buscava campos de ação sem nenhuma pretensão de conforto. A partir dos anos 1940, após se desiludir com o funcionamento dos hospitais psiquiátricos – na época espaços de pouquíssima esperança e de características profundamente asilares -, resolveu inovar. Foi corajoso o suficiente para propor espaços de tratamento alternativos, lugares abertos, imersos na natureza, com o que havia de mais complicado em termos de prognóstico: crianças deficientes mentais, jovens delinquentes e, por fim, os autistas.

Segue um brevíssimo resumo de sua trajetória prática: em 1945, foi nomeado diretor de um Centro para delinquentes, no qual implementou um sistema de portas abertas e formou uma equipe “sem diploma”: operários, desempregados, pessoas da comunidade de maneira geral, e criou oficinas de produção remuneradas, dentre outras atividades mais “polêmicas”. A instituição foi fechada em 1947 por falta de recursos, diante das dificuldades do pós-guerra. A partir dessa experiência, Deligny escreveu “Les vagabonds efficaces”. 

Em seguida aproximou-se de Henri Wallon, um reconhecido psicólogo infantil e teórico da educação que lhe incentivou na criação de La Grande Cordée, outra instituição para jovens antissociais, reconhecida por muitos como a primeira experiência verdadeiramente extra-hospitalar para esses pacientes. Em 1953 o corte de financiamento se repete, levando a um período de intervenções “nômades” de Deligny e sua equipe, nos chamados “acampamentos temporários”, período em que formula seus pensamentos acerca d´O Aracniano e da tessitura de redes.

Nos anos 1960, aproxima-se de Felix Guattari e Jean Oury, vivendo por algum tempo na famosa clínica de La Borde. Dessa experiência produz um importante documentário (Le Moindre Geste) e ficam claras algumas dissonâncias de concepções. Acompanhou lá alguns seminários de Jacques Lacan e sentia-se desconfortável frente à “língua” deste – Deligny chegou a externar a ideia de que sentia-se um estrangeiro diante da psicanálise tal como um autista deve se sentir diante de nossa própria língua.

Em 1967, Deligny instala-se em Cévennes, uma outra zona rural, iniciando definitivamente seu trabalho com crianças autistas. Documentários, escritos, cartografias… Trata-se do período mais produtivo de sua obra e de sua clínica, pois o que ele apreende da vida com os autistas vai balizando a direção que ele tem de um tratamento possível com esses pacientes.

Poucos livros de Deligny estão disponíveis, especialmente em português. Sua escrita poética e singular instiga mas também confunde o leitor. A ruptura com a racionalidade é uma característica de seu pensamento

Mas, na realidade, será que a palavra “tratamento” seria a melhor definição para o que acontecia nesses espaços? Deligny denominava-os de “residências coletivas”, de espaços de “tentativas de vida em comum com indivíduos radicalmente diferentes”, ou um “comunismo primordial” habitado por “guerrilhas não-violentas”. A vida em comum, esse comunismo em sua radicalidade,  se contrapunha a qualquer hierarquia entre terapeuta e paciente, assim como a singularidade e diversidade eram valorizadas em oposição à psicopatologia. A tarefa era conviver e permitir existir, mesmo que isso exija que nós próprios mudemos, pensava Deligny – portanto na contramão do entendimento costumeiro de “tratar”.

A consciência, a linguagem e o mundo simbólico, ou seja, os grandes saltos qualitativos que estabeleceriam a hierarquia humana em relação às outras espécies, são justamente aquilo que Deligny quer manter apartado de seu trabalho. Estas seriam categorias que teriam ocultado e bloqueado as múltiplas possibilidades de existir do humano; o homem que somos, o homem da civilização, estaria em oposição ao humano propriamente dito, e nesse sentido, Deligny admirava os autistas, que enquanto não falavam, expressavam milhares de gestos, formas, movimentos e ações absolutamente singulares e estranhos ao homem-racional. A língua de quem vê um autista viver, para ele, é tão ou mais significativa que a língua oficial, a língua falada; esta, querendo ou não, estabelece uma hierarquia, uma relação de dominação e poder, enquanto a língua dos autistas se escreveria em linhas, portanto não-hierárquica. Daí que a proposta de cartografar é arte, clínica e também política.

Viver e trabalhar na natureza, resgatar os hábitos costumeiros da espécie humana, não falar tanto, “fazer junto” ao invés de “agir sobre”: parece um papo hippie, mas as experiências de Deligny tiveram desdobramentos expressivos e instigantes – e também outros tantos causos e percalços pelos quais o politicamente correto o colocaria na cadeia nos dias de hoje. A nosso ver, não se trata de sair por aí replicando as experiências de Deligny, até porque… seria preciso ter uma ousadia que, sem bagagem clínica e fundamentação teórica, facilmente descambaria para a irresponsabilidade. Mas, observar como sua postura em relação a estes pacientes (especialmente os autistas) os acalmava e lhes dava um lugar possível de existência em comum pode nos trazer muitos ensinamentos e também oportunidades de repensar nossas práticas clínicas hegemônicas com esses pacientes “difíceis”.

É interessante que, embora exista hoje um moralismo no âmbito da clínica que a engessa em protocolos e discursos dominantes, vemos também um interessante movimento surgindo por parte dos próprios autistas, lutando para serem reconhecidos não como doentes mas sim como singulares, neurodiversos. Eles falam sobre sua maneira diferente de experienciar o mundo e de como os discursos dominantes – dos cientistas e neurotípicos – tem um fechamento e uma indisponibilidade tremenda a essa “outra língua” do autismo. Em suas autobiografias, Temple Grandin e Dawn Prince-Hughes (duas autistas que encontraram meios de se reabilitar) desenvolvem extensamente a importância do contato com o mundo animal e da natureza em seus (auto)tratamentos reconhecidamente exitosos. Há mais de cinquenta anos, Deligny desenvolvia ideias e experiências muito próximas, abrindo o campo da experimentação sensorial, da humanização através da natureza, interrogando o verbal, o protocolar e o racional. Portanto, parece ser uma questão de ponto de vista se Fernand Deligny era um profissional irresponsável e de questionável sanidade mental, ou uma espécie de gênio, capaz de captar como ninguém na sua época uma maneira de estabelecer encontros muito frutíferos com autistas e outras crianças “à parte da sociedade”.

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Bruno Esposito, Tomás Bonomi e Bruno Mangolini.

3 Comments

  1. Fabio on Fevereiro 2, 2018 at 2:43 pm

    Curti o texto!
    Vou atrás desse sonhador agora.
    Lembrei da introdução do livro do Maleval, ‘autista e sua voz’.

  2. Cassio Machado on Fevereiro 6, 2018 at 1:08 pm

    Lindo texto, parabéns aos autores, gostaria porém de pontuar meu estranhamento quando ao se escrever sobre o fazer, pois ao escrever sobre replicar se atrela a necessidade de bagagem clínica e fundamentação teórica, perigoso. Pois que clínica é essa? E de qual fundamentação se referem? A acadêmica? Curioso também pelo fato do autor referido não ser “clínico”… então, perigoso.

    • conexoesclinicas on Fevereiro 6, 2018 at 6:58 pm

      Muito importante sua ponderação, Cassio! Penso que isso é e deve ser alvo de discussão permanente! Não sei se chegaremos em um acordo quanto a isso, mas procuro esclarecer melhor o que tentamos transmitir: Deligny provavelmente tinha uma sensibilidade muito diferente da nossa (clínicos mundanos, rs) que lhe possibilitava entrar em uma fina sintonia com esses pacientes, mas também construir dentro de si referenciais que o orientavam em seu trabalho. Podemos discutir se ele consideraria isso um fazer clínico, um fazer terapêutico ou não, mas a nosso ver ele tinha sim uma prática que era referenciada – não só seus escritos, desenhos e poemas mostravam seu compromisso com a reflexão acerca do que ele estava fazendo e de quem eram esses sujeitos a seu lado, como também ocorria diariamente uma espécie de “supervisão horizontal” entre os trabalhadores. E se nós, clínicos mundanos, tivéssemos a ambição de conduzir espaços de convivência-tratamento como os de Deligny, por não termos sua originalidade e sensibilidade, precisaríamos muito mais de referenciais para balizar nosso trabalho, mesmo que fora do âmbito acadêmico. Caso contrário, o risco de estragar uma “experiência” através de uma “atuação” seria tremenda! Um abraço!

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