Clínica Underground: o pioneirismo de Sabina Spielrein

por Renata Cromberg*

Um pequeno baú encontrado em 1977 com documentos relacionados a Jung, Freud e Sabina Spielrein transformou-se em um achado arqueológico que deu a conhecer uma segunda vez a vida e a obra da pioneira esquecida da psicanálise Sabina Spielrein (1885-1942), que nasceu e morreu em Rostov sobre o Don, na Rússia tornada União Soviética, no tempo de seu retorno em 1923, após vinte anos na Europa Ocidental. Uma visão de seu percurso como psiquiatra, médica e pedóloga e de seus escritos podem dar conta da dimensão de suas realizações inéditas no seu tempo histórico. A sua dissertação de obtenção da graduação em psiquiatria não só foi a primeira tese de psicanálise defendida por uma mulher, mas onde se realizou o primeiro estudo analítico do discurso esquizofrênico de maneira extensa para comprovar sua lógica simbólica interna, a partir da compreensão psicanalítica (Sobre o conteúdo de um caso de esquizofrenia, 1910, publicada na principal revista de psicanálise, em 1911). Suas reflexões fazem parte da nova psiquiatria, movimento de implantação da psicanálise no coração da psiquiatria, que se deu na Clínica Burgholzli, em Zurich, na primeira década do século XX, do qual fez parte. Em seguida escreveu A destruição como origem do devir, publicado em 1912, com ideias pioneiras sobre as múltiplas facetas do componente destrutivo da sexualidade que anteciparam em nove anos as descobertas freudianas na mesma direção, conforme Freud reconhece em uma nota de rodapé de Mais além do princípio do prazer, de 1920. Ainda neste ano, publicou Contribuições para o conhecimento da alma infantil, um compêndio de descrição e análise de fantasias infantis sobre concepção e o nascimento. Entre 1904 e 1911, ela faz sua passagem de primeira paciente a ser psicanalisada por Jung na Clinica Burgholzli, dirigida por Eugen Bleuler, para a praticante de psicanálise que se tornou ao se formar como médica e trabalhar na mesma clínica e segunda mulher a fazer parte da Sociedade Psicanalítica de Viena. A separação Freud-Jung deveu-se não só às divergências teóricas e pessoais entre eles, mas também ao papel de pivô que Sabina desempenhou ao convocar Freud para ser o terceiro interventor na intensa ligação afetiva e sexual entre ela e Jung, que foi seu terapeuta, amante, mentor e posteriormente colega. Os conceitos de amor de transferência e contratransferência presentes nos escritos técnicos de Freud surgiram neste contexto.

Por volta do tempo da Primeira Grande Guerra, em sua residência entre Berlim e Lausanne, publicou muitos artigos entre os quais A sogra, de 1913, no qual trata de interações familiares de uma perspectiva inédita a partir da diferença sexual e de influências sociais mais amplas. Após trabalhar como médica cirurgiã e tentar ser compositora musical, Sabina Spielrein foi a pioneira entre os psicanalistas a trabalhar entre os campos da psicanálise e da nascente linguística moderna para trazer uma nova compreensão sobre a origem da linguagem infantil. Na sua estadia no pioneiro Instituto Jean Jacques Rousseau, berço da Escola Nova, entre 1920 e 1923, assistente de psicanálise, psicanalista e colega de Claparède e Piaget, foi pioneira também em entrelaçar o campo psicanalítico e linguístico com o campo também nascente do estudo da psicologia do desenvolvimento infantil do pensamento, da linguagem e da aquisição das capacidades cognitivas e psicológicas pela criança. Ali escreveu três artigos fundamentais: A origem das palavras infantis ‘mamãe e papai’. Algumas considerações sobre os diferentes estágios do desenvolvimento da linguagem, publicado em 1922, Uma contribuição psicológica para o problema do tempo, publicado em 1923 e Algumas analogias entre o pensamento da criança, do afásico e o pensamento subconsciente, publicado em 1923.

Na sua atuação, a partir de 1923, na implantação da psicanálise nos primórdios da antiga U.R.S.S. como psicanalista, psicanalista infantil e pedóloga, participou de uma ampla gama de atividades de ensino, por meio de conferências e seminários na Universidade e no Instituto Estatal Psicanalítico de Moscou, onde era também psicanalista didática e na constituição de uma interface entre seus conhecimentos de psicanálise infantil com a direção da famosa creche ou jardim-de-infância psicanalítico, o Lar Experimental para Crianças, criado em 1921. Esse experimento pedagógico com crianças em idade pré-escolar foi convertido, quando redescoberto, em inspiração do movimento pela educação não autoritária no Ocidente. Publicou dois artigos em seu período na U.R.S.S. em meio as controvérsias públicas que buscavam desqualificar científica e politicamente a psicanálise, os últimos artigos de psicanálise vindos da U.R.S.S. e publicados no Ocidente antes da proibição oficial da psicanálise naquele país: Sobre o discurso do Dr. Skalkovskij, de 1929 e Desenho infantil com olhos abertos e fechados, de 1931. Ambos tentavam apontar a interdisciplinaridade e não a oposição entre as pesquisas e práticas da psicanálise, da neurociência e da psicologia comportamental, em disputa nas controvérsias da era Stalin.

Por que foi esquecida? Porque esteve entre Stalin e Hitler, vivendo na época da proibição da psicanálise no stalinismo e assassinada como judia pelo nazismo. Porque esteve entre Freud e Jung na época de sua ruptura. Mas também porque pensou, atuou e escreveu como mulher, problematizando o feminino e a feminilidade em todas as suas facetas. Uma jovem mulher enfrentado o desejo e a angústia a partir da feminilidade, demolindo por dentro a misoginia dos psicanalistas pioneiros e concebendo de uma maneira inédita a bissexualidade, a sexualidade autoerótica e aloerótica, os papeis do ativo e do passivo e a importância das mães. Uma esposa descobrindo o papel da diferença sexual e sua determinação também social. Uma mãe descobrindo a origem da linguagem e do psiquismo na relação com seu bebê. E isto em muitos momentos foi inaceitável do ponto de vista masculino da psicanálise nascente. Foi inaceitável a antecipação inovadora do importante lugar que a especificidade da sexualidade feminina e do lugar do feminino em psicanálise teriam a partir dos anos vinte.

* Renata Udler Cromberg, psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, pós doutora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e autora dos livros Paranoia, Cena Incestuosa – abuso e violência sexual e Sabina Spielrein, uma pioneira esquecida da psicanálise, obras completas, vol. 1. (Clique para comprar).(Aqui você também encontra o livro).

Para os que se interessaram pela autora, fica o convite para a 1ª conferência internacional sobre Sabina Spielrein e as pioneiras psicanalistas a ser realizado na Polônia em 2020.

1 Comment

  1. Carlos André Cavalcanti on março 23, 2019 at 11:14 pm

    Excelente texto! Parabéns.

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