• CONEXÕES CLÍNICAS

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  • À escuta da vida contemporânea

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– Tornando-se pai.

Em 2015 virei pai de uma garotinha linda. Sinto que a partir do momento em que minha filha saiu de dentro de minha mulher, tornei-me uma nova pessoa. Aliás, desde então, esse é o substantivo que mais me qualifica: pai. Antes de minha profissão, de ser marido, do lugar que ocupava em minha família de origem, do meu papel junto a meus amigos e, com certeza, antes dos meus hobbies (aliás, muito infeliz a matéria da revista da Folha de São Paulo que, ao abordar os “pais modernos” e seus hobbies, deixa a paternidade completamente de escanteio).

Tenho orgulho de que minha primeira função atualmente seja ser pai, mesmo que tenha que dividir meu tempo e atenções com o trabalho fora de casa. Recentemente meu segundo filho nasceu, jogando-me novamente no cenário caótico e maravilhoso dos cuidados de um recém nascido. A meu ver, a primeiríssima função de qualquer pai reside em criar um ambiente de bem estar mínimo necessário para que a mulher consiga amamentar o bebê com paz e tranquilidade. Provavelmente cada mulher ao amamentar deva ter suas próprias idiossincrasias, mas algum nível de silêncio, hidratação e sono me parecem questões básicas nesse momento tão vital. Devemos zelar por isso!

Das coisas mais valiosas que aprendi sobre esse comecinho de vida foi a seguinte: se a mãe está bem, o bebê está bem. O contrário é igualmente verdadeiro. Para o bebê, não há diferenciação entre mundo interno e mundo externo; nesse começo de vida o bebê vivencia sua mãe como extensão, o que acarreta em uma conexão muito profunda.

Aprendi muito sobre os diversos benefícios do aleitamento materno, desde o desenvolvimento do sistema imunológico, até a questão da formação do vínculo mãe-bebê.  Aí reside um fato biológico intransponível, não há nada mais básico para o desenvolvimento de uma vida do que a alimentação, sendo assim, nós, pais, seremos sempre os terceiros nesse princípio de vida e do desenvolvimento das relações afetivas. Há que se contentar e saber usufruir dessa posição. Nunca saberemos como é alimentar um filho com o nosso próprio corpo, produzir todos os nutrientes que eles precisam, por seis meses, um ano ou mais. Em uma cultura na qual apagamos quase todos os vestígios de nossa animalidade, para as mulheres, não resta dúvidas de que somos mamíferos e, naquele momento, isso é a coisa mais importante do mundo.

Providas as condições básicas para a amamentação, o que de forma alguma é um trabalho fácil e nem sempre possível, aos poucos temos a incumbência de apresentar o mundo não-mãe para nossos pequenos. Desde o som de nossas vozes, passando pelo nosso cheiro até nossa forma de tocar os seus corpos, ninar ou tentar acalmar o bebê. Penso que isso resume na prática o que seria a função paterna para a psicanálise, isto é, a de interceder na relação dual mãe/bebê e imprimir uma primeira marca de interdição.

Falando dessa forma, pode até parecer que a função paterna seria a de acabar de forma agressiva com o paraíso idílico que vivem mãe e bebê. Contudo, sem um pouco de assertividade de um terceiro, corre-se o risco de uma cristalização desse primeiro vínculo, o que normalmente acaba acarretando em sequelas psíquicas para o bebê.

Ao falar em assertividade de um terceiro, me refiro a uma certa dosagem de segurança que o pai precisa ter para mostrar ao seu filho(a) que o mundo não se resume à sua mãe. Acredito que para gerações passadas, a forma de mostrar essa assertividade acontecia somente em um momento mais tardio, pois os bebês faziam parte exclusivamente do domínio feminino. Quando os pais finalmente se mostravam presentes, a forma de colocar isso em prática passava mais pela ótica do medo, da imposição e dos imperativos, como por exemplo: “lá fora não haverá uma mamãe para te cuidar!”. Não que isso seja mentira, mas será o bastante?

Ao observar e conversar com alguns homens que se tornaram avôs recentemente, percebo que o contato que eles têm com seus netos(as) bebês parece ser mais íntimo e próximo do que a relação que estabeleceram com os seus filhos. Como se agora eles pudessem se dedicar e se apropriar mais dos cuidados e até mesmo se permitir serem tocados afetivamente por esses pequenos seres.

É claro que falo a partir de uma experiência pessoal e de um contexto particular, mas há inegavelmente uma tendência de mudança social do lugar do pai.  Há mais ou menos 100 anos, os homens sequer expressavam o amor dentro de seu núcleo familiar, sendo a relação matrimonial uma relação de procriação e as relações com os filhos uma relação de castração; o prazer do homem só era concebido fora do lar. Atualmente os homens procuram constituir relacionamentos afetivos, se perguntam sobre o amor (e sofrem por ele) e, quando pais, querem realmente envolver-se com seus filhos. 

De forma geral, os pais de hoje parecem participar mais da criação de seus filhos, não só por terem sido convocados para esse papel, mas também por mudanças culturais que lhes permitiram se incumbir e ter prazer nesse cuidado. Penso que ser pai é ter segurança de que você quer participar de todos os momentos possíveis desse começo de vida, é poder deixar-se tocar por seu próprio mundo infantil, é trocar fraldas e ter infinitas noites mal dormidas, é contar histórias e músicas de ninar de sua infância; enfim, aprender a ser pai junto de sua parceira ou parceiro.

 

* Recentemente foi publicado o artigo Paternidade e função paterna no blog da sociedade brasileira de psicanálise São Paulo, para quem quiser se aprofundar mais no tema, indico a leitura. 

 

Tomás Bonomi (com contribuições pontuais de Bruno Espósito e Bruno Mangolini).

 

 

 

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– Não brigue (muito) por causa da crise.

Desde 2014, ano de um período eleitoral pra lá de tenso e início de uma das mais graves crises político-econômicas brasileiras, tem sido muito comum nos consultórios e nas ruas escutar as pessoas dizendo de conflitos relacionais nos quais se meteram, desencadeados fundamentalmente por discussões políticas.

Algumas dessas brigas se dão no ringue da internet, sob condições de um relativo anonimato, onde sabemos que as pessoas se sentem mais confiantes e utilizam-se de uma postura e linguagem que não sustentariam em uma discussão tête-a-tête. Mas o fato digno é que a maior parte dessas confusões se dão entre aqueles com quem se tem um vínculo mais profundo: familiares, amigos de longa data e colegas de trabalho, com quem costuma-se encontrar todos os dias.

O tamanho do vínculo é proporcional ao tamanho do enrosco em que a confusão nos lança. A discussão política passa rapidamente das ideias às vísceras, os ataques se tornam cada vez mais pessoais e quem está envolvido na briga sente efeitos psicofísicos bem claros como hipertensão, taquicardia, tremores, enfim, o “sangue sobe” pra valer, fazendo lembrar aquelas brigas com irmãos e pais que você tinha lá atrás, quando tudo parecia ser questão de vida ou morte. Read More

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– Quebrando o viés “Made in USA” (por Flavia Cerruti)

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Viver em Nairóbi (Quênia) me fez sentir pela primeira vez a responsabilidade que carregamos com a nossa imagem. Sou latina e sempre me identifiquei com a cultura do hemisfério Sul. Eu passei um pouco mais de um ano viajando em bicicleta pela América do Sul e, sempre que me deparava com alguém adaptado à cultura do hemisfério Norte, tentando compreender o caos latino, era um prazer para mim explicar que não nos comportamos desta maneira sem motivo. Podendo, compartilhava um pouco da nossa História: período de colonização, neocolonização, etc. Sempre me aborreceu seguir padrões exteriores e não construir nossa própria História.

Então, eu vim para África e uou! Aquela latina descolada se deu conta do quanto seus padrões são muito mais atados à cultura do hemisfério Norte do que ela imaginava.

Em Nairóbi, a população original é 99% negra, então, se você é branca, automaticamente você é enquadrada na categoria muzungo (gringos), não importando se é da Alemanha, do Brasil ou dos EUA. A princípio, era uma faca no peito: “Como assim você pode me colocar no mesmo balaio que um francês?!? Eu sou do Brasil, um dos países com maior nível de desigualdade do mundo! A gente também foi colônia!  Read More

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– À querida Silvana Rabello

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Neste fim de semana, perdemos uma pessoa muito querida. Silvana Rabello, além de ser  uma referência no meio psicanalítico e clínico, tinha uma grande importância em nossa história; tanto de nós, do Conexões Clínicas, como de outros colegas da psicologia. Me lembro bem quando tivemos nosso primeiro contato, quando ela apareceu para dar o último semestre de psicanálise, ainda na graduação. Ela foi cativante desde o início: uma mulher linda, serena, delicada, extremamente cuidadosa ao se dirigir ao outro, escutava atentamente a todos. Não demorou para criarmos uma boa afinidade com ela, e logo estávamos planejando fazer um grupo de estudos que ela coordenaria, com amigos próximos.

Foram deliciosos encontros, que se estenderam por sete anos; íamos em seu consultório, às vezes em sua casa, onde ela nos ajudava generosamente. Ela conseguia fazer o estudo de Lacan ser algo leve, talvez por poder nos conduzir por atalhos, dando muita coisa “mastigada” para nós, como uma mãe faz; ou talvez fosse por conseguir extrapolar a teoria, nos brindando com exemplos de sua vasta experiência clínica. Ela falava com tanto entusiasmo de seus pacientes autistas, sensível aos menores sinais de evolução da criança.  Isto sem mencionar as articulações que fazia com o I Ching, que ela tanto gostava e conhecia, falando sobre a importância da respiração, da meditação, do acaso e da impermanência, sempre em um tom de voz baixo, humilde e preciso. Quando levávamos as ideias da esquizoanálise para o grupo de estudos, Silvana nos estimulava a pensar ainda mais, a ir mais a fundo; chegou até a organizar uma palestra para nos ajudar no assunto. Ao longo desse período, pudemos estreitar os laços e compartilhar muitas histórias de vida. Um carinho enorme que nutríamos por ela e vice-versa.

Silvana foi também nossa supervisora. Era aquela espécie de mestre a quem se recorre, alguém que está disponível para lhe ajudar de modo ético, generoso e alegre. Não é possível dizer da sua importância com palavras. Não estaríamos aqui se não fosse por ela. Silvana acompanhava todos os momentos especiais de nossas vidas, desde a entrega do diploma em psicologia, o casamento de um de nós, na banca da dissertação do mestrado, até o nascimento de um filho;  pedíamos conselhos, e ela nos incentivava a ser sempre melhores. Silvana nos acolheu como estudantes, amigos, parceiros, filhos, tudo meio misturado. Uma luz que passou por nós e que servirá de inspiração para seguirmos nossas vidas.

Vai ser muito difícil não tê-la mais por perto. Sua presença será muito sentida, e deixa uma sensação ambivalente de que aproveitamos muito de sua compainha, mas que ainda tínhamos muito o que desfrutar…

 

Muito obrigado por tudo, Sil!

 

Bruno Mangolini, Tomás Bonomi e Bruno Espósito.

 

 

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– Pesquisa de Harvard examina do que dependem a saúde e a felicidade

As pesquisas de cunho positivista tendem a recortar uma problemática e avaliá-la em um curto espaço de tempo. Essas pesquisas são hegemônicas no mundo ocidental pois são metodologicamente acessíveis e não necessariamente custosas para serem financiadas. De quebra, tem ampla aceitação midiática. Uma revista lança uma reportagem: “a ciência finalmente descobre que o ovo é responsável por doenças graves” e, alguns meses depois uma nova reportagem “cientistas desvendam que o ovo é fundamental para uma vida saudável, ao contrário do que se imaginava”. Assim como nós, você deve ter tido vontade de comprar as duas revistas. No entanto, talvez essa metodologia científica não seja a mais indicada para responder a questões complexas como “o que faz bem à saúde” ou “o que de fato nos torna mais felizes”.

A Universidade de Harvard, através de várias gerações de pesquisadores, está produzindo uma pesquisa que já dura 75 anos com o objetivo de explorar todos os fatores possíveis associados à saúde mental e física. Foram selecionados dois grupos de centenas de pessoas, um deles de estudantes de Harvard da época próxima à eclosão da II Guerra Mundial, e outro de moradores suburbanos em situações de vulnerabilidade, todos eles sendo avaliados ano a ano. Como é de se imaginar, a pesquisa é extremamente complexa e cara, seus resultados levam um enorme tempo para serem obtidos (grande parte dos primeiros pesquisadores já faleceu sem ter ideia desses resultados, por exemplo), mas hoje já é possível um olhar retrospectivo para a vida dessas pessoas, atualmente na casa dos 90 anos de idade, e dizer quais os fatores que mais se destacaram para produzir uma vida e uma velhice mais saudável e realizada.

A novidade é que, embora tenham sido coletadas informações as mais variadas, como amostras de sangue, histórico familiar, sucesso profissional e financeiro, etc., a única conclusão obtida realmente confiável foi a de que bons relacionamentos nos mantém mais felizes e saudáveis. Nosso nível de colesterol, os números de nossa conta bancária, a quantidade de amigos que temos nas redes sociais, enfim, tudo isso sucumbe frente à constatação de que precisamos de bons relacionamentos interpessoais, sejam eles amorosos, de amizade ou familiares, para nos apoiarmos mutuamente, o que constitui a dimensão mais importante no enfrentamento das dificuldades físicas e psicológicas.

A solidão é em geral deteriorante, assim como relacionamentos distantes ou afetivamente conturbados, de modo que a qualidade da relação é o que mais vale. Em suma, é o amor o que mais importa, um dos sentimentos ao mesmo tempo mais básico e complexo de nossas vidas. Se superarmos o desafio de manter relacionamentos sólidos e afetivamente consistentes, tenderemos a viver uma vida melhor; no entanto, esbarramos o tempo todo diante da dificuldade que exige sustentar esses relacionamentos. Não é difícil de imaginar quantos empecilhos colocamos a nós mesmos frente a possibilidade de viver uma vida mais amorosa, mais conectada e interdependente –  hoje esta pesquisa de Harvard nos mostra a necessidade de atentarmos a isso. Nada além do que a filosofia, o saber popular ancestral e o próprio Freud (“precisamos amar para não adoecer“) haviam apontado anteriormente, mas trata-se também de uma questão que ganha relevo em nossa vida contemporânea – repleta de virtualidades, intensidades efêmeras e aplicativos todo-sabedores que dizem permanentemente o que você tem que ser e fazer.

Para saber mais da pesquisa de Harvard, assista o vídeo acima e/ou confira a reportagem a seguir: https://www.inc.com/melanie-curtin/want-a-life-of-fulfillment-a-75-year-harvard-study-says-to-prioritize-this-one-t.html.

 

Bruno Espósito, Bruno Mangolini e Tomás Bonomi.

16 maio 2017
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– Homenagem a Manoel Tosta Berlinck (27/05 no CEP).

No meio acadêmico, Manoel Berlinck era muito conhecido,  mas talvez a maioria de vocês nunca tenha ouvido falar dele. Seu currículo é extenso, com destaque para seu importante papel na sociologia como professor na Unicamp e FGV,  e na psicanálise como clínico e cofundador – ao lado de Pierre Fedida – de uma grande área de pesquisa chamada Psicopatologia Fundamental.

A associação universitária de pesquisa em Psicopatologia Fundamental compõe diversos grupos de pesquisadores espalhados pelo Brasil e por alguns outros países do mundo, tais como Chile, Argentina, México, Portugal, França e etc. Manoel foi presidente desta instituição até os últimos dias de sua vida, um presidente apaixonado e orgulhoso,  que a tratava como um filho.

Dentre os diversos feitos da associação está a realização de diversos congressos internacionais de psicopatologia fundamental, o último realizado em João Pessoa – logo após o seu falecimento – e a edição da Revista latino-americana de Psicopatologia Fundamental, referência no meio psicanalítico.

No extinto laboratório de psicopatologia fundamental da Universidade PUC-SP, orientou mais de 85 teses e dissertações de doutorado e mestrado ao longo de 21 anos. Foi lá que o conheci e convivemos de perto por apenas 3 anos. No epicentro da academia, o laboratório de psicopatologia fundamental surgia, pelo menos para mim, como um oásis, pois não só permitia como incentivava a produção de conhecimento científico através do trabalho clínico. O professor Manoel parecia desafiar a lógica acadêmica quantitativa para dar lugar a um oxigenado espaço de pensamento e discussão, onde conviviam diversas vertentes da psicanálise e outras disciplinas do conhecimento.

O editorial da última edição da Revista Latino-americana de PsicopatolCapa Latino set 2016ogia Fundamental foi escrito por seu amigo Plínio Prado. Recomendo fortemente a leitura do belo texto: “Ao Manoel Berlinck que eu conheci“.

Esta mesma edição contém uma interessante entrevista com Elisabeth Roudinesco, realizada pela psicanalista Betty Milan. A entrevista gira em torno da biografia de Freud, recém escrita pela autora francesa.

Ainda nesta edição da revista, encontra-se um artigo de quem vos escreve em co-autoria com o Professor Manoel Berlinck – “O Mau cheiro como estratégia de sobrevivência” – derivado de minha dissertação de mestrado. Read More

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– A Psicologia do Consumidor e suas implicações (por Gabriel Maschião da Costa)

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A cada momento que precisamos adquirir um produto, temos muitas escolhas possíveis. A quantidade de anúncios e propagandas aos quais somos expostos diariamente é enorme. Se hoje há um comportamento altamente incitado, tanto pela esfera pública quanto pela esfera privada, é o comportamento de consumo.

Diante de uma variedade enorme de opções, racionalizar sobre todas as varíaveis que envolvem o processo de escolha de um produto (ex: cor, preço, sabor, tamanho, durabilidade etc) torna-se uma atividade muito complexa e por vezes irrealizável na vida prática. Por esse motivo, muitas vezes criamos atalhos mentais para tomar essas decisões de um modo mais eficiente. Um dos campos de estudo da Psicologia do Consumidor aborda justamente esta articulação entre a complexidade de uma decisão de consumo e a necessidade de recorrer a padrões de comportamento que facilitem logo_pepsiesse processo.

 Já reparou como as propagandas de relógios analógicos sempre apontam para o horário por volta das 10h10 ou das 3h50? Essa regularidade no horário não é mera coincidência. Estudos indicam que tendemos a atribuir características humanas aos produtos que vamos comprar (Govers, 2004). De tal modo que um relógio sorridente tende a influenciar no processo de escolha. Read More

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– Quando acaba um Acompanhamento Terapêutico ?

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O acompanhamento terapêutico (A.T.) surge como dispositivo clínico no Brasil na esteira da reforma psiquiátrica. De início chamados de “auxiliares psiquiátricos”, tratavam majoritariamente de pacientes psicóticos crônicos, e foram figuras importantes no processo do fechamento das instituições psiquiátricas e na criação de um novo sistema básico de atenção em saúde mental.

Passados quase 40 anos, muito se modificou na área, sendo que as as demandas por A.T.s aumentaram significativamente. Atualmente, essa modalidade de tratamento é solicitada para atender, além de uma multiplicidade de casos de psicopatologias graves, pacientes idosos com questões afetivas significativas (muitas vezes atreladas à algum tipo de demência), passando por acompanhamentos específicos com dependentes químicos, até uma inserção já bastante difundida no processo de inclusão escolar com crianças e adolescentes.at Apesar deste aumento significativo do escopo do A.T, algo bastante comum e definidor deste trabalho refere-se à uma clínica sempre bastante complexa e desafiadora. Ao toparmos um trabalho deste,  sabemos que as possibilidades de transformações importantes ou até mesmo pequenos ganhos são discretos. Qualquer coisa diferente disso acaba sempre causando frustração nos terapeutas. Além disso, pensamos que ao aceitar acompanhar uma pessoa nesta situação, muitas vezes estamos fazendo uma escolha radical de iniciar um atendimento que realmente nunca teria um fim ou um resultado final.

Podemos nos indagar: até quando vai o atendimento de um menino com espectro autista grave na inserção escolar? São trabalhos extremamente difíceis, que beiram o heroísmo, em que o A.T. realiza um verdadeiro malabarismo entre a família, a escola e a criança. Tal cenário permitiria um trabalho de anos, ou mesmo décadas; no fundo seria um trabalho sem fim. Na prática, ele dura o tempo que a instituição escolar ou a família conseguem sustentar as diferenças destas crianças e adolescentes com seus colegas de classe. Read More

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– A Saúde Mental no Hospital Geral: os desafios da clínica ampliada (por Bruno Bengel)

 

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Quando ficamos doentes, experimentamos uma condição existencial incômoda. O corpo impõe seus limites e expõe nossa vulnerabilidade orgânica, acarretando modos de subjetivação singulares. Contudo, essa experiência é comum à todos nós, pois ninguém deixa de adoecer. A busca pela restituição do estado normal pode se dar de diferentes formas nos dias de hoje, mas a procura por atendimento médico em pronto-socorro (PS) continua em alta.

Ao procurarmos por assistência médica, supomos que o profissional será capaz de aliviar nosso sofrimento e nos curar da enfermidade. Temos a crença de que sua prática está subsidiada por saberes e técnicas acumuladas ao longo da história das ciências médicas. Preferencialmente, buscamos um hospital por compreender este local como sendo portador dos equipamentos tecnológicos mais avançados, além de poder contar com especialistas das mais diversas áreas.

Ao adentrarmos no estabelecimento hospitalar, entregamos nossos corpos ao exame exterior, convictos de que a promessa tácita de não mais sofrer ou sentir dor será cumprida. O médico, detentor do todo-saber, objetifica com o olhar, esquadrinhando o corpo para poder isolar dele as patologias. Read More

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– Os devaneios de Thom Yorke (ou o videoclipe vivido como um sonho)

Uma das bandas mais ousadas e criativas dos últimos tempos, o Radiohead lançou um videoclipe ano passado da música Daydreaming (devaneios ou sonhos diurnos), sob direção do prestigiado Paul Thomas Anderson. Eis a versão original do trabalho:

 

Até aí, temos um videoclipe aparentemente esquisito, no qual é possível captar alguma sensação de inquietude e angústia do protagonista, mas nem acompanhando a letra da música apreende-se um verdadeiro sentido. O que esse videoclipe representa?

Estudando relatos pessoais de Thom Yorke (vocalista do Radiohead e personagem do videoclipe) e outras tantas pesquisas feitas por fanáticos da banda, um outro fã (Rishi Kaneria) fez este outro video dissecando o sentido por trás de Daydreaming: Read More

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– É carnaval – e daí?

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O Carnaval coloca para a sociedade uma espécie de imperativo: é o momento de ser feliz, de não trabalhar, de ir viajar ou de ficar em casa, ter algum tempo digno em quantidade.

Quer você goste ou não de Carnaval, seu acontecimento é algo que modifica o estrato social, que faz com que ele se dobre e se rebata sobre ele mesmo, de modo mais intenso. Essa dobra permite passar outros fluxos, promover encontros dos mais potentes, incitar ideias novas, paixões, amores. Permite também que, por um certo período, consigamos ser um pouco mais tolerantes – apesar de ainda vermos muita violência, pelos mais diversos motivos, desde pessoas que talvez não suportem tanta diferença, ou que tenham dificuldades em compartilhar o palco, ou por não conseguirem conviver com limites mais alargados.

Temos muita libertação no Carnaval – e isso é maravilhoso. Mas é importante lembrar das minorias que gritam o quemCarnaval nas ruas: as minorias que gritam e chacoalham o Carnaval: as mulheres, os negros, os pobres, a comunidade LGBT, os loucos que frequentam e os que não frequentam os serviços de saúde mental. Esse parcela enorme da sociedade, é aquela que pode agora gritar, mas, como já disseram, passar o ano amargando sofrimento. Que nossa memória, que já é curta historicamente, possa nesse momento de amnésia se lembrar de pelo menos disso, do respeito à alteridades que constitui a verdadeira alegria coletiva. Read More

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– A ‘Deepweb’ e o inconsciente freudiano

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Talvez você já tenha escutado adolescentes ou pessoas particularmente interessadas no mundo da internet comentarem a respeito de uma tal de deepweb (internet profunda). O tema é intrigante, cheio de polêmicas e costuma despertar uma tremenda insegurança ao imaginarmos os efeitos práticos que essa rede subterrânea pode provocar em nossas vidas.

A deepweb corresponde à todo o conteúdo da internet que não pode ser acessado pelos meios aos quais nos habituamos, como os navegadores Chrome e Explorer, ou pelos sites de busca convencionais como o Google ou o Yahoo. Para acessá-la é preciso um navegador apropriado (Tor) e a utilização de códigos específicos, de modo que tanto seu computador quanto o site acessado mantenham-se criptografados. Essa complexidade de acesso, que também pode envolver um certo risco para amadores, acaba restringindo bastante seu público e deixando o “cidadão comum” alienado da existência desse gigantesco mundo subterrâneo.

Enquanto que na superfície da internet as autoridades (ou mesmo o Google, o YouTube e o Facebook) agem retirando conteúdos impróprios e denunciando violações de direitos autorais, na deepweb encontra-se de tudo. Uma infinidade de livros e músicas para baixar gratuitamente, páginas de militância política de países com forte censura (como China e Venezuela), documentos governamentais secretos (a WikiLeaks de Julien Assange começou ali), um livre comércio de armas, drogas ou documentos falsificados e, por fim, a pornografia está colocada em todos os níveis e formas, inclusive pedofilia. Como abriga desde conhecimento e militância política até práticas francamente criminosas, os internautas mais familiarizados com a deepweb costumam dizer que em si ela não é boa nem má, depende do uso que cada pessoa faz dela. Read More

17 nov 2016
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– Alguns comentários sobre o mentiroso compulsivo.

pinoquio

Quem nunca cruzou com uma pessoa que mente insistentemente? No senso comum, eles são caracterizados como indivíduos de mau caráter ou de má índole. Seriam pessoas que mentem para ocupar um lugar de destaque e, ao fazê-lo, não sentem o mínimo de culpa em machucar e passar por cima dos outros.

Muitas pesquisas afirmam que a mentira seria inerente ao comportamento humano e que todas as pessoas mentiriam centenas de vezes por dia.  Segundo Christopher Bollas,  um conceituado psicanalista de tradição inglesa, a mentira da pessoa comum teria a função de proteger a si mesmo ou um terceiro de uma verdade dolorosa ou de uma revelação embaraçosa. Além disso, podemos conscientemente mentir para infligir dor e crueldade à outrem.

Já os mentirosos compulsivos ou – na nomenclatura de Bollas – os mentirosos psicopatas mentem por outros motivos. A mentira teria a função de colocar a vida em um vazio, neste sentido o mentir seria praticamente igualado ao viver. Ele acredita que só por meio da mentira é que se pode vivenciar um sentimento de realidade pessoal. Em outras palavras, o mentiroso compulsivo experimenta um sentimento de tamanho vazio afetivo que a mentira serviria para humanizar sua vida, uma vez que caminha sempre nas bordas de um processo de desumanização. Read More

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– Open Dialogue approach: um novo modelo de tratamento para a psicose

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Desde os anos 1940 e 50, o tratamento a pacientes em grave sofrimento psíquico, em especial psicóticos, vem desenvolvendo-se em pelo menos dois grandes eixos: o da humanização e o da psicofarmacologia.

A vertente da humanização, na qual se incluem as estratégias de reabilitação psicossocial, a garantia dos direitos humanos, a psicanálise e as demais curas pela palavra, bem como aportes sociológicos e antropológicos, advém do contexto europeu pós-segunda guerra mundial, quando se constatou que a situação dos manicômios era praticamente idêntica àquilo que acabara de envergonhar o mundo: os campos de concentração, que retinham as pessoas em condições degradadas, sob violência institucional, impossibilitando a vida material e subjetiva.

No contexto sul-americano, as mudanças começaram a ser empreendidas a partir dos anos 1970 e 80. As ditaduras militares haviam aprofundado o sofrimento dos pacientes psiquiátricos, diante do descaso com os direitos mais fundamentais, e muitos militantes políticos foram “presos” nesses hospitais, conhecendo de perto o que era essa realidade. Com a redemocratização, tornou-se fundamental intervir em prol de um cuidado humanizado. Read More

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– Psicanálise e Política. Entrevista com Christian Dunker.

Inserido no site PsiBr, o canal de discussão Psicanálise e Política entrevista psicanalistas renomados sobre fenômenos políticos, sociais e culturais na atualidade. O último entrevistado foi o professor catedrático da USP, Christian Ingo Lenz Dunker.

A entrevista gira em torno do papel que o psicanalista teria na sociedade, considerando o momento de grande efervescência política que vivemos no país, onde as discussões se mostram extremamente polarizadas.

Se apoiando no livro de sua autoria: “Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros” (2015), o professor discute um modo de subjetivação contemporâneo baseado na metáfora do condomínio fechado, ou seja, na lógica da exclusão e do medo.

Uma passagem particularmente interessante da entrevista relaciona a democracia com o método da associação livre, ressaltando que ambas privilegiam radicalmente a fala livre, a palavra.

Num terreno geralmente pouco explorado pelos analistas, fica a sugestão para aqueles que se interessam pelos cruzamentos entre psicanálise e política.

Tomás Bonomi, Bruno Espósito e Bruno Mangolini.

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– O (des)conforto do silêncio (por Lilia Standerski)

“Sabemos muito mais do que podemos falar, entretanto quase chegamos a acreditar que o que falamos é tudo o que sabemos.”

                                                                     Yi Fu Tuan

 

Você entra no elevador, tem outra pessoa: silêncio. Você é o primeiro a chegar numa festa, não conhece muito bem o aniversariante: silêncio. O professor pergunta algo durante a aula, ninguém responde de primeira: silêncio. Uma criança faz uma pergunta, você não sabe a resposta: silêncio.

Em fevereiro participei de um encontro promovido pelo Instituto Alana e pelo projeto Território do Brincar, foi o primeiro de uma série chamada Diálogos do Brincar. Na ocasião Renata Meirelles e David Reeks falaram sobre o projeto e sobre o brincar. Uma pessoa perguntou se eles tinham visto diferenças entre o brincar na cidade e no interior e Renata respondeu: “A maior diferença que percebemos é que nas brincadeiras da cidade se fala mais. Há uma necessidade de falar.”

Essa fala está ecoando em mim desde então. Comecei a prestar mais atenção no quanto as crianças falam em suas brincadeiras na Ubá, e mais ainda, no quanto os adultos falam com as crianças. Quando estão brincando é comum os adultos perguntarem o que estão fazendo e se as crianças não respondem, vão dando opções. Se estão comendo, puxamos assuntos, não paramos de fazer perguntas. Será uma necessidade realmente necessária, a de falarmos tanto? Read More

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– A vida e a revolução de Nise da Silveira (por Daniel Taubkin)

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Recentemente assisti a um belo filme, “O Coração da Loucura”em que a protagonista é indubitavelmente uma das mulheres mais notáveis da história do país.

Trata-se da médica psiquiatra Nise da Silveira (que no filme é interpretada pela atriz Gloria Pires). Sua trajetória se estende brilhantemente pelo século XX, de ponta a ponta, pois Nise nasceu em 1905 nas Alagoas e faleceu em 1994, no Rio de Janeiro. Seu pai era diretor do Jornal de Alagoas. Sua formação básica foi num colégio de freiras em Maceió; depois foi à Bahia e de 1921 a 1926 cursou a Faculdade de Medicina.

Sua vocação para a singularidade, exceção e luz própria já se manifesta aí onde é a única mulher numa turma de 157 estudantes. Está entre as primeiras mulheres a se formar em Medicina. Casou-se com o sanitarista, colega de turma, Mario Magalhães da Silveira. Em 1927, com a morte do pai, o casal muda-se para o Rio de Janeiro.

Nos primeiros anos na capital envolve-se com o meio artístico e literário da época. Seis anos depois estagia na clínica neurológica de Antonio Austregesilo. Ainda em 1933 é aprovada num concurso e passa a trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental do Hospital da Praia Vermelha.nise_da_silveira94278

Dois anos depois, no periodo da Intentona Comunista, é denunciada por uma enfermeira por posse de livros marxistas o que acaba a levando para a prisão por um ano e meio. Aqui podemos ver que se tratava de perseguição a uma mulher com ideais e ideias próprias. Só o fato de possuir os livros não seria motivo para ficar presa por um período de 18 meses! E assim, mesmo depois em liberdade, durante o período autoritário do Estado Novo, por motivos políticos foi afastada do serviço publico e passou a viver na semi-clandestinidade. Read More

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– DELEUZE: Obra completa para download

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Deleuze foi um dos maiores pensadores do século XX. Sua obra é repleta de conceitos inovadores que se entrecruzam para criar mais do que uma teoria, uma postura de vida. Através da releitura absolutamente original de autores como Bergson, Nietszche, Espinosa Proust, entre outros, Deleuze foi capaz de romper com o pensamento hegemônico e suas ideias atravessam as artes, a psicanálise, a filosofia, a psicologia, a literatura, o cinema. Não é à toa que Foucault disse que um dia o século será Deleuzeano.

Vasculhamos a internet em busca de seus livros e após algum esforço acreditamos ter conseguido reunir todos, inclusive um inédito. Compilamos a obra de Deleuze cronologicamente, visando facilitar a localização no seu conjunto. Eis o resultado, bom divertimento.

 

Empirismo e Subjetividade  (1953)

Instinto e Instituições (1955)

Nietzsche e a Filosofia (1962)

 A Filosofia Crítica de Kant (1963)

Proust e os signos (1964)

Nietzsche (1965)

Bergsonismo (1966)

Presentación de Sacher-Masoch (espanhol) (1967)

Espinosa e o Problema da Expressão (1968)

Diferença e repeticao (1968)

Lógica do Sentido (1969)

Espinosa – filosofia prática (1970)

O Anti-Édipo com Félix Guattari (1972)

Kafka – para_uma_literatura_menor com Félix Guattari (1975)

Diálogos com Claire Parnet (1977)

Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia, vol. 01 com Félix Guattari (1980)

Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia, vol. 02  com Félix Guattari (1980)

 Mil platôs – Capitalismo e Esquizofrenia, vol. 03 com Félix Guattari (1980)

 Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia vol. 04  com Félix Guattari (1980)

 Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia vol. 05 com Félix Guattari (1980)

Francis-Bacon-Logica-Da-Sensação (1981)

Cinema – imagem movimento (1983)

 Cinema 2 – Imagem e Tempo (1985)

Foucault (1986)

O ato de Criação (1987)

A dobra: Leibniz e o Barroco (francês) (1988)

Conversações (1990)

O que é a filosofia com Félix Guattari (1991)

L’Epuisé (inglês) (1992)

Crítica e Clínica (1993)

Derrames entre el capitalismo y la esquizofrenia: curso (espanhol)  (2005)

A Ilha Deserta e outros textos (2010)

 

Bruno Mangolini, Bruno Espósito e Tomás Bonomi

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– O bebê e a conquista do próprio corpo (por Talita Pryngler)

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Natureza, relação, movimento, gesto e palavra. São esses os caminhos que o bebê faz nos seus primeiros anos de vida. Esse desenrolar traz também ao adulto que se ocupa dele a possibilidade de se refazer com ele. Isso acontece toda vez que um bebê nasce e é colocado na posição de sujeito.

Esse trajeto começa já na primeira mamada. O bebê tem fome, precisa mamar para sobreviver, e encontra no reflexo de sugar a possibilidade de fazer parar a intensidade que lhe acomete: a fome. Nesta primeira mamada, recebe leite (colostro), colo, pele, cheiro e a voz da mãe. Dali a algumas horas, quando novamente for tomado pela sensação de fome, ele buscará encontrar, através do seu choro, tudo aquilo que recebeu junto com o leite, o outro. Este outro faz marca, traz contorno e organiza as intensidades enlaçando esse bebê numa cadeia de sentidos.

Este pequeno corpo pode então, cada vez mais, vir a ser para além das manifestações biológicas, “subvertendo” o instinto, inaugurando um caminho pulsional. O corpo, enquanto natural, é transformado pela pulsão e isso só acontece se houverem trocas corporais entre o bebê e o adulto que dele se ocupa. Ele precisa ser tocado tátil, visual e olfativamente e, ao mesmo tempo, ser sonhado, amado e odiado por seus pais. Através dessas trocas haverá a passagem de um funcionamento da ordem da necessidade para a ordem da demanda. Estes intercâmbios farão marcas constituindo o mapa dos percursos pulsionais e suas manifestações. Podemos, então, pensar a constituição deste corpo para além do biológico, que será habitado por um sujeito. Read More

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– Precisamos falar sobre os nomes dos remédios psiquiátricos.

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Quem quer ter sucesso em vendas, sabe que uma das armas mais poderosas é dar ao seu produto um nome que gere o máximo de expectativas positivas no consumidor, criando a ideia de que algo se solucionará instantaneamente. Costuma funcionar assim com alimentos, produtos de limpeza, revistas de notícias e até com remédios.

O caso da indústria farmacêutica com relação às medicações psiquiátricas é particularmente curioso. Se por um lado essas empresas tentam revestir-se em um Exodusdiscurso de cientificidade, ou seja, de que estudos rigorosos atestam a eficácia desses remédios e isso seria per se a justificativa para sua prescrição e consumo, por outro lado parece ser o terreno onde mais se exploram as expectativas do consumidor ou das famílias em relação à medicação. Os nomes-fantasia (nomes que são dados pela Farmacêutica em cima do nome do princípio-ativo) mais do que nitidamente visam despertar fantasias de cura ou de potência no paciente (e quem sabe até nos próprios profissionais da saúde), algo que supera o efeito estritamente químico da medicação, mas que não deixa de ter um efeito direto na própria doença – mesmo que por um tempo determinado. Read More

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– Gloomy Sunday: A música mais triste do mundo

por Carolina Galvão de Oliveira*
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Há 47 anos, em 11 de janeiro de 1968, o pianista húngaro Rezsõ Seress se atirava de uma janela em direção à morte. Seu misterioso suicídio passou a integrar a lista de mais de 100 casos de mortes relacionadas à música Gloomy Sunday, ironicamente composta pelo próprio Seress em 1933.

Com o título de “Vége a világnak”, ou “O mundo está acabando”, a música foi lançada na Hungria da década de 1930 em meio à Grande Depressão, que assolava de fome e pobreza o país. A letra original é uma referência ao desespero da população nesse período de guerra. No entanto, a versão que se tornaria ainda mais famosa é a do poeta Lászlo Jávor, que a reescreveu em 1936, supostamente após o término de um tórrido relacionamento.

Nessa versão, intitulada “Szomorú vasárnap”, ou “Triste domingo”, Jávor canta um triste lamento em torno da morte da pessoa amada e faz um suplício desesperado para reencontrá-la em outro mundo. Foi na voz de Billie Holiday que, em 1941, a música se popularizou internacionalmente, rebatizada de “Gloomy Sunday” ou

foto: John Eskey

“Domingo sombrio”. O primeiro caso de morte associada à Gloomy Sunday que se tem notícia aconteceu em 1936, quando Joseph Keller, de Budapeste, cometeu suicídio e deixou uma carta escrita a próprio punho que continha frases da música. Após este primeiro caso, outros 17 se seguiram e, embora nunca tenha sido possível confirmar que os casos de suicídio registrados realmente foram influenciados pelas mensagens melancólicas de Gloomy Sunday, a música passou a ser conhecida mundialmente como “A música húngara do suicídio”.

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– A Ritalina e o “doping” dos vestibulandos

Quem convive ou atende adolescentes em fase de vestibular já sabe bem o clima que se estabelece nesta época do ano em que estamos. A ansiedade toma conta do vestibulando e da própria família, a expectativa das provas e dos resultados corroem a paciência e a sensação de estar sendo testado toma conta de tudo.

A lógica da competitividade, dos perdedores e vencedores, vem impondo-se de tal maneira na vida dos vestibulandosadolescentes premio que a analogia mais pertinente a ela talvez seja com as Olimpíadas esportivas: treinos descomunais, sacrifício dos prazeres da vida, imagem mundial de êxito ou fracasso e… doping.

Para atingirem um “a mais” no desempenho e eliminarem os mal-estares de uma rotina atlética de estudos, os vestibulandos vem gradativamente aumentando o uso de psicofármacos, em especial os da classe do metilfenidato (Ritalina, Concerta, etc.). São substâncias estimulantes que geram um aumento da atenção e diminuem a sensação de cansaço, fazendo com que o jovem sinta-se produtivo por um período significativamente maior de tempo. Read More

6 nov 2015
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– Vida clandestina (por Lia Novaes Serra)

enfermeira silencio

Hoje temos a honra de ceder nosso espaço para Lia Novaes Serra. Lia é psicanalista, mestre e doutoranda pelo Instituto de Psicologia/USP.

***

Valorizar a vida, legalizar o aborto. De início, nossa petição pode parecer contraditória. Afinal, compreendemos habitualmente que aborto significa a expulsão voluntária ou involuntária de um feto antes do tempo. Ou seja, nessa acepção, socialmente partilhada, aborto significa o fim da vida. Mas, e se invertêssemos a proposição, e se afirmássemos que defender a legalização do aborto significa não a interrupção, mas a continuidade da vida.

É a vida que num curto espaço de tempo, com o susto da gravidez indesejada, e num completo estado de desorganização psíquica, encontra na clandestinidade a única saída. É a vida que encara o submundo das clínicas abortivas; introduz objetos perfurantes em seu próprio corpo; provoca hemorragias; faz uso de medicações sem prescrição; e, o mais grave: coloca em risco à própria vida para cessar uma gestação. Ainda assim, ela tem inúmeros motivos para realizar o aborto. É a vida, pela continuidade da vida.

Sem apoio ou proteção do Estado, a vida se torna irresponsável, puta, assassina. Se rica, tem, provavelmente, um aborto mais “seguro”. Paga à vista o procedimento em alguma clínica de alto padrão. Se pobre, a situação é radicalmente diferente. A cada nove minutos perdemos uma vida, pelo mundo afora, por consequência de um aborto induzido e mal sucedido. São feitos com agulhas, chás ou misoprostol – ainda vendido no mercado paralelo por diversas indústrias farmacêuticas. A diferença de classe aqui se faz presente. É a desvalorização da vida da Jandira, da Tatiana, da Elisângela e de tantas outras.

Contudo, se sobrevive e, por sorte, o dano físico for insignificante, ainda sim, a vida precisa conviver com o trauma psíquico. E o pior tratamento ao trauma é silenciá-lo. É preciso declarar com todas as letras: a aprovação do PL 5069 é um atentado contra a vida. Além de aumentar exponencialmente o número de mortes, de danos físicos e psíquicos, quer manter calado o sofrimento já existente de tantas vidas. Por isso, a luta pela não aprovação desse projeto de lei e, sobretudo, a luta pela legalização do aborto. Em favor da vida.

Obrigada pelo espaço carinhosamente oferecido, Conexões Clinicas. #agoraéquesãoelas.

 

 

4 nov 2015
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– 25 anos da Declaração de Caracas: um marco histórico para a Saúde Mental

declaração caracas

Neste ano comemoram-se 25 anos da Declaração de Caracas. Foi através dela que as organizações internacionais legitimaram e deram sustentação institucional para os movimentos reformistas em Saúde Mental, que no Brasil teve início com o Encontro dos Trabalhadores da Saúde Mental de Bauru, em 1987, dando origem à Luta Antimanicomial.

A Declaração de Caracas é considerada um marco histórico para a saúde mental pois apontou para a necessidade de redirecionamento dos tratamentos psicopatológicos e propôs uma mudança no financiamento em saúde mental.

Sobre a Declaração:

Em 1990, a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) realizaram a Conferência Regional para a Reestruturação da Atenção Psiquiátrica na América Latina no contexto dos Sistemas Locais de Saúde (SILOS). Na ocasião, debateram sobre a insuficiência do modelo psiquiátrico tradicional, que não permitia uma atenção descentralizada, comunitária, participativa, contínua e preventiva.
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15 out 2015
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– Quando parei de fumar (por Luisa Destri)

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Passei algum tempo me perguntando quando eu poderia dizer que parei de fumar. Só me atrevia a contar que estava sem fumar, ou estava parando. A sensação de fragilidade era imensa: a qualquer momento eu poderia escorregar, ceder a uma tragada – e então, no encontro seguinte com aquela pessoa a quem eu havia contado a novidade, seria o caso de admitir, cabisbaixa, com um cigarro na mão, Pois é, eu tinha parado, mas agora voltei. Nessa mesma altura, porém, quando eu estava em um grupo de amigos fumantes, ficava ansiosa para que percebessem espontaneamente a mudança. Na minha fantasia, diriam, surpresos, Nossa! Você não está fumando! Nos encontros reais, jamais suportei a espera, e infalivelmente me adiantei, Vocês não repararam que eu não estou fumando?

O primeiro sinal do limite que eu procurava veio de um ex-fumante, Quando você parar de contar os dias em que está sem cigarro, aí acredito que você parou, ele disse. Fiquei um pouco enfurecida com a falta de confiança em mim, e quis me justificar: Isso não quer dizer nada!, você sabe que sempre fui assim, de marcar as datas, e infelizmente sou uma pessoa que sabe fazer contas. No meu mais fundo, porém, uma delicada intuição nascia, querendo lembrar a data da minha primeira paixão. Estava certa de sabê-la… (Tão boa com o calendário, eu no entanto não lembrei.) Read More

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– O papel do olfato no desenvolvimento da civilização.

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De todos os sentidos, o olfato provavelmente seja o menos falado, discutido e retratado, tanto no meio científico quanto no literário. Sim, é verdade que existem grandes produções dedicadas ao tema como o célebre livro “O perfume” (1985), do escritor alemão  Patrick Süskind, adaptado ao cinema em (2006) e a produção nacional “O cheiro do ralo” (2007).

Para muitos, os cheiros não tem grande destaque em suas vidas, a não ser pelas escolhas de produtos cosméticos ou associações ao paladar e, sobretudo, pelo incômodo provocado pelos maus cheiros (suor, lixo, excrementos, esgoto e etc).

Algumas pessoas associam os cheiros à memórias; dessa forma, ao sentirem um determinado cheiro, relembram de episódios que pareciam estar há muito esquecidos. Seria como se o cheiro possuísse alguma forma de inscrição arcaica na subjetividade. Read More

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– “Memórias de um Doente dos Nervos” (livro)

No início do séc XX, sujeitos excêntricos eram constantemente vigiados pelos olhos de uma sociedade altamente moralista e tradicional. Muitas vezes, comportamentos que desviassem do padrão eram sinônimo de ameaça para o sujeito que os praticava, com chances de viver até o fim da vida em um hospício e cair no absoluto anonimato. Antes de Freud, de qualquer modalidade de talking cure e da psicofarmacologia, quem conseguisse escapar ao poder asilar e produzir uma marca interessante no meio social e cultural era um sujeito raro.

Daniel Paul Schreber definitivamente foi uma dessas raridades. Até os 51 anos, Schreber era um renomado juiz em Leipzig (Alemanha), extremamente culto e pai de família, quando foi nomeado ao cargo de juiz-presidente da corte de apelação. Poucos dias depois começa a apresentar sinais de angústia e intensa insônia, e em seguida vivências alucinatórias, hipocondria, ideias de morte, culminando em uma longa internação (9 anos) na qual é diagnosticado com dementia paranoides.Livro Schreber

O momento a partir do qual Schreber “vira o jogo” é quando toda a vivência esquizofrênica que atravessava seu corpo dá lugar a um complexo delírio à respeito de que seria mulher de Deus. Embora o delírio seja de um conteúdo absurdo, ele deixa de tomar conta de toda a existência de Schreber, concentrando-se em um núcleo delirante e possibilitando assim o resgate de suas aptidões intelectuais, com as quais construiu uma autobiografia que é um verdadeiro tratado sobre a loucura de produção autoral: “Memórias de um doente de nervos”. Com as ideias contidas neste livro, Schreber sustentou perante um rigoroso tribunal que teria condições de gozar novamente de seu lugar social, sem a internação e a curatela do Estado. E teve êxito, pelo menos por alguns anos. Read More

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– Paixões alegres e tristes de Espinosa: um indício terapêutico?

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Espinosa definia paixões como a afeccção que um corpo sofre por outro corpo. Mais precisamente, a modificação que um corpo tem em sua potência, sua capacidade de existir. O filósofo distingue paixão de ação pela causa: na primeira, quem determina a mudança de potência é o outro, há um outro corpo que causa uma modificação em mim; já na ação, eu é que determino a mudança na minha capacidade de existir.

Ele chamou de paixões tristes aqueles encontros que diminuem a potência, enfraquecem a capacidade de existir de algum corpo. Já as paixões alegres seriam as que aumentam a potência, que promovem um ganho existencial ao corpo. Estes conceitos de Espinosa levantam duas questões fundamentais: o que seria a potência de existir? E a segunda – e mais complexa -, o que faz sua potência aumentar ou diminuir?

Potência de existir, para Espinosa, é a capacidade de um corpo afetar e ser afetado sem alterar a sua natureza, ou seja, preservando as suas características essenciais. Um corpo capaz de ser afetado pelos encontros com outros corpos, capaz de transformar os outros, sem deixar de existir enquanto tal. No caso do ser humano, esta potência resume-se a três capacidades: sentir, pensar e agir.
frioJá  o aumento ou a diminuição da potência é absolutamente singular; o que para um corpo é nocivo, para outro pode ser benéfico. Inclusive não há uma regra geral para o mesmo corpo: um alimento pode fazer bem um dia, mas não significa que será sempre assim. Nosso corpo e nossa mente estão em constante mutação, fazendo com que o resultado de nossos encontros seja sempre potencialmente variável. Read More

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– Sugestão de site: theviennapsychoanalyst.at

logo_vienna

 

Há mais ou menos dois meses o pessoal do site austríaco  www.theviennapsychoanalyst.at nos escreveu perguntando se poderiam adicionar um link do conexões clínicas a sua página. Foi assim que tomamos conhecimento desse interessante portal de psicanálise.

A leitura do site vienense pode ser realizado em alemão ou inglês. Com design agradável e comunicação moderna, pretendem agregar diversas funções tais como: publicação de artigos, canal de rádio,  fórum, livraria, filmes, catálogo de jornais psicanalíticos e até mesmo um curioso antiquário com relíquias da história da psicanálise.

Uma vez por mês, publicam (na revista online) textos originais de psicanalistas ainda não consagrados, além de uma entrevista com o autor. Em julho de 2015 um dos texto publicados foi de nossa autoria: “O papel da pele na formação da subjetividade”.  Em novembro do mesmo ano acaba de publicar: Violências contemporâneas: de súbito, o ato. Convidamos os nossos leitores para conhecerem o site e lerem nosso artigo.

Tomás Bonomi, Bruno Espósito e Bruno Mangolini.

 

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– Psicanálise e neurociência

 

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Sigmund Freud era neurologista de formação. Extremamente dedicado, visava alcançar alguma descoberta de impacto no campo científico, conforme assinalam as biografias a seu respeito. Chegou a realizar alguns trabalhos importantes na sua área e até aventurou-se a pesquisar os efeitos terapêuticos da cocaína, da qual se sabia muito pouco na época, porém abandonou-a ao constatar os prejuízos de sua utilização. Mas foi somente ao redor dos 40 anos de idade que Freud revolucionou a ciência e a cultura através da psicanálise; para tanto, teve que extrapolar as barreiras da neurologia e seu método científico tradicional, já que o objeto de sua teoria e técnica eram o inconsciente humano e não haveria forma de alcançá-lo sem a contribuição da psicologia, antropologia, linguística, história, literatura, entre outras.

Tudo isso regado a uma boa dose de intuição e não somente verdade observável. Em termos de compreensão do funcionamento cerebral, se hoje ainda estamos engatinhando, é evidente que em 1900 neuro espelhoFreud não dispunha de quaisquer ferramentas para investigar o cérebro com profundidade. Além disso, suas pesquisas sempre foram voltadas para o interesse clínico – ele queria, em última instância, descobrir e tentar resolver a causa dos sintomas dos pacientes que lhe batiam à porta. Nesse contexto, Freud recorreu a muita observação (ou melhor, escuta afiada), seguido de construções de hipóteses sobre o funcionamento mental, o que ele chamou de metapsicologia. Read More