Covid-19: quem segura os adolescentes em quarentena?

Diante da pandemia do Coronavírus, a televisão e as mídias sociais propagam à exaustão a conduta a ser praticada para frear o avanço da contaminação: isolamento social extremo. Com o passar dos dias, as escolas vão sendo fechadas, junto a todos os outros espaços que agreguem pessoas e não sejam essenciais (como hospitais e supermercados).

A orientação é geral, mas impõe desafios específicos a determinados grupos e faixas etárias. Ora, convencer um adulto já habituado ao home-office ou um idoso que se vê diretamente ameaçado pelos possíveis efeitos do vírus são situações muito diferentes do que persuadir um adolescente a não sair de sua casa.

Em primeiro lugar, isso se deve às características intrínsecas da adolescência: uma devoção social absoluta, pois o adolescente não existe sozinho, ele na maioria das vezes se reconhece na presença de um grupo de semelhantes. Tendo abandonado aquela idolatria aos pais, tão presente na infância, o jovem praticamente só quer saber de conviver com seus amigos, pois quer “aprender” a se comportar, descobrir quem é seu verdadeiro eu, ou seja, quer rechear sua personalidade que agora tem uma nova pele, um novo corpo, que procura se separar e diferenciar do seu eu de quando criança.

Em segundo lugar, a questão da obrigação: farto de receber ordens da sociedade e querendo confrontá-las todas, o adolescente recebe da família a ordem de não sair de casa, não encontrar-se com seus pares, sob o risco de trazer o vírus para casa ou espalhá-lo por aí. A psicologia evolutiva costuma dizer que o adolescente é ousado e impulsivo graças também a uma seleção genética: eram alguns “sem noção” que iam enfrentar um perigo, como um animal ameaçador, e eventualmente venciam, ajudando a perpetuar a espécie. Portanto, nada mais convidativo do que enfrentar um suposto “medo exagerado” em torno de um vírus microscópico.

Em terceiro lugar, e totalmente relacionado ao segundo ponto, está a onipotência: o corpo adolescente demonstra a ele próprio um desempenho impressionante, fazendo-o crer que a morte, a finitude, não lhe dizem respeito. Do ponto de vista subjetivo, como o adolescente costumeiramente se sente muito inseguro em seu âmago, a onipotência desponta como uma estratégia defensiva fabulosa, revestindo-o de uma sensação de “imunidade completa”.

Em quarto, está a questão do tempo: quatro semanas, na vivência psíquica de um adolescente, deve equivaler a uns quatro anos na vivência de um adulto. Postergar o prazer de sair, encontrar pessoas, fazer coisas que para ele são novidade, não é tarefa fácil, muito diferente daquele que já se cansou de sair e explorar o mundo – se não fosse pelas questões econômicas e do trabalho, muitos adultos certamente veriam com bons olhos algum tipo de quarentena em sua casa.

Isto não significa relativizar a quarentena para os jovens, pelo contrário. Trata-se somente de compreender por que eles sofrem, questionam e eventualmente podem até transgredir essas orientações – o que é muito diferente de legitimar a livre circulação, sob o pretexto de compreender (excessivamente) os adolescentes, fruto da permissividade dos adultos. As próximas semanas ou meses prometem boas discussões e brigas entre essas duas gerações, mas isso precisa ser vivido.

É nesse tensionamento que, eventualmente, algumas arestas podem ser aparadas e aí sim emerge o que há de melhor nos adolescentes: uma capacidade criativa, altruísta, um senso comunitário belo e forte, bem mais interessante do que nos adultos, diga-se de passagem. Estes recaem facilmente em uma postura medrosa, neurotizante, recolhendo-se às próprias fantasias que paralisam as ações colaborativas em relação ao próximo.

Bruno Esposito, Tomás Bonomi e Bruno Mangolini

5 Comments

  1. Renata Udler Cromberg on março 18, 2020 at 1:42 pm

    Sensacional! Lidando com leveza e precisão um conhecimento dificil da diferença é especificidade desta fase. Adorei a brincadeira seria com a neurose do adulto. Senti um orgulho danado de vocês! Espero que compreendamAgora vou ajudar a viralizar!beijos e abraços virtuais.

    • conexoesclinicas_super on março 19, 2020 at 3:07 pm

      Obrigado, querida Renata!

  2. Renata M Abreu on março 19, 2020 at 6:02 pm

    Ou, sou outra Renata, Renata Abreu. Adorei o artigo; tenho 65 anos e é mto difícil me colocar na posição de um adolescente. Me identifiquei com “uma postura medrosa, neurotizante, recolhendo-se às próprias fantasias que paralisam as ações colaborativas em relação ao próximo.” Mas acho que vcs poderiam mais duros em relação ao adolescente. Eles tb têm que sair do próprio umbigo, ver o que está acontecendo e se colocar na situação dos idosos; e do risco que eles apresentam ao ficar circulando. Tendo dito isso, parabéns pelo artigo que é esclarecedor e me fez pensar em coisas novas.

    • conexoesclinicas_super on abril 2, 2020 at 5:49 pm

      Comentário interessante, Renata! Obrigado.

  3. Bárbara Virgínia Lessa on abril 2, 2020 at 9:52 pm

    Penso que é inevitável o choque entre.geracoes quando a sociedade está enfrentando uma Pandemia.Por mais segura que sejam o adultos sempre o novo, o desconhecido gera insegurança em qualquer faixa de idade.E uma característica do jovem ser audacioso,desafiar a realidade, aí mora o perigo deles.nao acreditarem nos perigos que estão por vir e lançarem a.propria sorte.Muitos terão como meta o enfrentamento e não o isolamento Social.E muito difícil achar o equilíbrio nestas.horas.O que é temeroso para uns é desafiador para outros,não existe.formula mágica de.como os.pais vão agir nesta hora.Porto Alegre, 02 de abril de 2020.

Leave a Comment





%d blogueiros gostam disto: