– Devir, equidade e o SUS

devir

Devir é um conceito filosófico, que significa “tornar-se, vir a ser”. Segundo Heráclito, a essência do Ser é o Devir, resultado das tensões e conflitos que envolvem o ser humano. Deleuze e Guattari abordaram o tema do devir em sua obra, compreendendo-o como o conteúdo próprio do desejo, sua variação intensiva, a afirmação da diferença. Para eles, os devires sempre ocorrem no sentido da diferenciação de um padrão, deslocando-se de um modelo majoritariamente aceito e difundido. Portanto, os devires são sempre minoritários; não há devir de um padrão masculino, adulto, racional, ocidental. O devir poderia envolver  a infância, a loucura, os índios, os homossexuais, para citar alguns exemplos.

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Em nossa sociedade, muitos grupos encarnam esta diferença em relação ao padrão. São pessoas que expressam uma subjetividade que escapa ao convencional, que utilizam-se de outros referenciais estéticos, corporais, linguísticos, temporais, políticos, que expressam a singularidade de cada ser ou coletivo. Em tempos de intolerância às diferenças, muitos desses grupos são perseguidos, atacados, pelo simples fato de serem diferentes.

A equidade é um dos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). A origem da palavra provém do latim aequitas, que significa igualdade, simetria, retidão, imparcialidade, conformidade. Paradoxalmente, para atingir a igualdade é necessário afirmar as diferenças. No contexto da área da equidadesaúde, uma condição para a equidade é compreender que cada pessoa ou território possuem necessidades diferentes. Para as ações de saúde serem efetivas,
não basta oferecer o mesmo tratamento a todos, nem dar as mesmas orientações, nem considerar que todos devem atingir o mesmo patamar ou índice de saúde. Para os que mais necessitam, é necessário oferecer mais.

À medida que os profissionais conhecem seu território e sua população, fica mais fácil de se prever os possíveis agravos à saúde que eles podem apresentar. A população em situação de rua, por exemplo, tem maior chance de desenvolver alcoolismo, abuso de substâncias, transtornos mentais, tuberculose e doenças dermatológicas. Neste caso, a abordagem do profissional deve levar em consideração que se está diante de uma pessoa que sofreu perdas significativas na esfera familiar, profissional e social, que se refletirá em um modo especialmente restrito de vinculação.

Sabemos que a realidade do SUS ainda está longe de efetivar e garantir este princípio. No entanto, como todo princípio, ele deve ser um norteador das ações, algo que se busca cotidianamente.

Em respeito às diferenças e visando à diminuição das desigualdades de condições, o princípio da equidade pode ser um bom parâmetro para se agir eticamente em um mundo tão plural como o nosso. E você, consegue perceber as forças que te levam ao padrão, à repetição? É capaz de criar uma sensibilidade inclusiva à diferença?

 

Bruno Mangolini, Tomás Bonomi e Bruno Espósito

 

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