– Drogas e trabalho: perguntas que devemos fazer “de braços abertos”

por Carolina Galvão de Oliveira

Você pode ter um emprego que é um trabalho, mas você também pode ter um trabalho sem emprego. No emprego você assina contrato, tem holerite e FGTS; usa gravata, terno ou avental; tem crachá, catraca ou recepção. No trabalho você faz amigos, acha o café sem graça, compra flores para enfeitar a mesa, num dia você acredita e no outro quer desistir. O emprego tem nas suas estruturas uma garantia de segurança. O trabalho tem em cada um de nós uma garantia para o desejo; possui uma dimensão subjetiva, põe em movimento conflitos e escolhas que ajudam a dar sentido à atividade que realizamos, seja ela qual for.

 

Cena da Cidade ex morador de rua faz da Praça da Sé seu Salão

Seu Agenor, ex-morador de rua, trabalha há 20 anos na praça da Sé (foto: Mariana Topfstedt)

O tema do trabalho é muito presente no contexto de tratamento do uso abusivo ou dependência de drogas, aparecendo em relatos de histórias de vida: são pessoas que perderam seus empregos, pessoas que fazem “bicos”, pessoas que estão afastadas. Pessoas que escrevem poemas, pessoas com diploma universitário e desempregadas; pessoas que trabalham dia e noite lavando vidros de carros no farol, pessoas com registro ativo e pessoas que não podem arrumar emprego, pois têm que trabalhar na criação dos filhos.

Muitos estabelecimentos de internação para dependentes químicos (Comunidades Terapêuticas, clínicas, entre outros) têm o trabalho como um norte de seus princípios autodenominados terapêuticos. Nesses lugares o tratamento se dá pela via da atividade laboral impositiva dentro da própria instituição como condição para a permanência no local. De forma parecida com o que acontecia nos grandes hospícios, os internos passam a realizar tarefas de limpeza, cozinha, capinagem entre outras, de maneira obrigatória, sujeitos inclusive a punições e castigos físicos caso descumpram as regras do “tratamento”. Nesses casos, não há a participação das pessoas na gestão do próprio cuidado em saúde e nem o reconhecimento de que cada um possui um saber sobre si e é capaz de fazer escolhas; não existem as contrapartidas financeiras, sociais ou terapêuticas para aquele que ali buscou ajuda. Ou seja, o trabalho em sua dimensão política, como um direito, como processo de reinserção social e produção de subjetividade perde seu sentido.

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Região da Luz, centro de São Paulo (foto: Myro Rolim)

Em espaços de tratamento comprometidos com o modelo psicossocial o trabalho tem sido abordado como um espaço possível para o exercício da cidadania; remunerado ou não, há a preocupação em incluir o sujeito na gestão do que deseja realizar, na construção de um sentido para a atividade. Nessa abordagem o próprio tratamento é considerado também um trabalho, dos mais difíceis de realizar: pegar dois ônibus para ir, dois para voltar, passar pela biqueira e seguir em frente, entrar em um grupo terapêutico com pessoas desconhecidas para falar de si, é um trabalho que exige não apenas um esforço físico, como também psíquico. No entanto, existem as contrapartidas de poder ser escutado, ter ajuda para reconhecer suas escolhas e decidir como deseja planejar a própria vida, mesmo que esse plano inclua a droga.

Mas tem sido a partir de uma recente iniciativa na cidade de São Paulo, que o trabalho como via para o cuidado em saúde ganhou renovada visibilidade. No inicio de 2014 a Prefeitura Municipal de São Paulo lançou o Programa “De Braços Abertos”, hoje reconhecido internacionalmente por suas intervenções na famigerada região da Luz, institucionalizada pela mídia como “cracolândia”. Durante todo o ano, o programa foi avaliado publicamente, recuou em algumas iniciativas, mas nunca retrocedeu em seu principal mote: o trabalho como possibilidade de garantia de uma moradia e um pagamento, sem o imperativo da abstinência, seguindo a lógica da Redução de Danos. O último balanço do programa divulgado em janeiro pela Prefeitura traz números expressivos: 453 beneficiários cadastrados e 54 mil atendimentos de saúde realizados (http://www.capital.sp.gov.br/portal/noticia/5240#ad-image-0).

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Fluxo de pessoas na região da Luz (foto: Mariana Topfstedt)

Passando pela região, é possível ver algumas áreas revitalizadas e pessoas trabalhando, umas de jaleco ou crachá, outras de vassoura e chinelo, muitas usando crack. E ao olhar mais de perto, é possível escutar conversas e testemunhar abraços, pois o que está sendo oferecido não é simplesmente um emprego, mas a circulação de novos afetos, possibilidades de outros vínculos e apoio aos projetos de vida.  É importante ressaltar que o programa não é o primeiro dispositivo de cuidado a atuar na região, que há muitos anos conta com as ações de ONGs como o Centro de Convivência É de Lei, o Projeto Quixote, além de agentes comunitários de saúde e de assistência social. No entanto, alavancou a entrada de outros projetos, alinhados com a proposta de reinserção social pela lógica da Redução de Danos.

Muitos profissionais que estão comprometidos em algum projeto de Reinserção Social no campo de álcool e drogas acreditam que oferecer um trabalho ou um emprego poderia solucionar todos os problemas e se sentem desapontados quando isso não acontece. Mas a frustração é uma conclusão muito apressada: começar um trabalho pode significar a abertura de um novo espaço para que a vida continue seguindo seus fluxos, entre aprendizados e recaídas. Para acompanhar esses processos e continuar acreditando que eles podem transformar pessoas e lugares, é preciso incluir o desejo do outro e tentar responder algumas perguntas que serão apenas pistas para essa trilha: “Para quem esse trabalho irá servir?”, “Quem dará sentido para esse trabalho?” e ainda, “De quem é esse projeto?”.

 

Carolina Galvão de Oliveira é psicóloga, atua na área de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas, mestranda em Psicologia Social (PUC-SP).

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