– É carnaval – e daí?

confete

O Carnaval coloca para a sociedade uma espécie de imperativo: é o momento de ser feliz, de não trabalhar, de ir viajar ou de ficar em casa, ter algum tempo digno em quantidade.

Quer você goste ou não de Carnaval, seu acontecimento é algo que modifica o estrato social, que faz com que ele se dobre e se rebata sobre ele mesmo, de modo mais intenso. Essa dobra permite passar outros fluxos, promover encontros dos mais potentes, incitar ideias novas, paixões, amores. Permite também que, por um certo período, consigamos ser um pouco mais tolerantes – apesar de ainda vermos muita violência, pelos mais diversos motivos, desde pessoas que talvez não suportem tanta diferença, ou que tenham dificuldades em compartilhar o palco, ou por não conseguirem conviver com limites mais alargados.

Temos muita libertação no Carnaval – e isso é maravilhoso. Mas é importante lembrar das minorias que gritam o quemCarnaval nas ruas: as minorias que gritam e chacoalham o Carnaval: as mulheres, os negros, os pobres, a comunidade LGBT, os loucos que frequentam e os que não frequentam os serviços de saúde mental. Esse parcela enorme da sociedade, é aquela que pode agora gritar, mas, como já disseram, passar o ano amargando sofrimento. Que nossa memória, que já é curta historicamente, possa nesse momento de amnésia se lembrar de pelo menos disso, do respeito à alteridades que constitui a verdadeira alegria coletiva.coringa bizarro

Nesse período em que os limites são afrouxados, em que a lei parece atenuar sua força em escala social, é justamente o cidadão comum  quem assume mais responsabilidade. Com as barreiras sociais mais sutis, o que se pode fazer? Como sermos menos machistas e violentos? Até onde se pode ir quando não se tem ninguém olhando?  Vimos recentemente o caso no Espírito Santo sobre como podemos nos comportar em tais situações.

Ao mesmo tempo, é uma oportunidade de se conectar socialmente, se permitir outra temporalidade, acessar outras camadas da existência; entrar em devires, ser outros. Em 1985, o autor Hakim Bei criou o conceito de “Zonas Autônomas Temporárias”, uma espécie de lugar transitório revolucionário, que cria suas próprias condições para se libertar, que não aguarda a grande revolução, mas que é capaz de criar um outro modo de se relacionar com o outro, com o tempo e o espaço. Um “lugar” sempre movente, que se fixa apenas à medida que seus membros podem ter ali encontros potentes. Ora, um bloco de Carnaval pode muito bem ser uma zona autônoma temporária. Mas esperamos que não precisemos confinar nossa liberdade à uma semana no ano. Que nossas vivências de respeito ao outro, de rupturas do padrão e a experimentação de outras intensidades possam nos acompanhar o ano inteiro!

Bruno Mangolini, Tomas Bonomi e Bruno Espósito

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One comment on “– É carnaval – e daí?

  1. rose says:

    Verdade…. Muita exagera no Carnaval o que não tem coragem de fazer o resto do ano