– Epigenética! A influência do ambiente nos seus genes.

Não é raro que em qualquer conversa de amigos, a certa altura, alguém faça menção à genética como maneira de justificar aquilo que está muito arraigado em nós mesmos ou outrem. E isso vale tanto para doenças físicas, as quais estaríamos fadados a herdar, como também para atributos relativos à alma, inclusive traços de personalidade. Não é verdade?

Os ganhos com os conhecimentos relativos à genética, seja para o campo da biologia ou para a ciência como um todo, são amplamente sabidos e
reconhecidos, inclusive por romper com certos “tabús” como o criacionismo proposto pelas religiões ocidentais. Mendel, Darwin e outros tantos pesquisadores inovaram nesse campo, mas Lamarck, aquele cuja teoria já tinha sido superada de acordo com o que aprendemos na escola, passa a ser visto com outros olhos hoje. Não, as girafas não são pescoçudas de tanto se esticarem… porém o recente campo da epigenética nos faz ter outra percepção daquilo que é herdado e daquilo que é adquirido em vida, no sentido de que as vivências ambientais podem ser de tal ordem que a expressão gênica se modifica e se transmite para outras gerações.

dna

Como assim?!

Embora a epigenética ainda não tenha caído na boca do povo, quem pesquisar na internet o vocábulo poderá perceber o quanto se tem considerado o fator epigenético em variados campos da saúde e biologia. Etimologicamente, o termo refere-se a além ou acima da genética, ou seja, aquilo que se soma à transmissão hereditária habitual, por exemplo em função da alimentação, do estresse, enfim, fatores ambientais relevantes ao organismo e que podem ser transmitidos às gerações futuras, ainda que não ocorra alteração na cadeia do DNA.

Ou seja, aquelas dicotomias do tipo “isso é genético ou ambiental?” dão lugar a um campo de pesquisa mais rico, porém mais complexo e incipiente. Para nós, cabe refletir qual é o impacto disso nas ciências que se ocupam da vida psíquica das pessoas, ou, mais precisamente: como as experiências subjetivas, sejam elas aprazíveis ou traumáticas, podem “ligar” ou “desligar” genes, alterando não só nossas vidas como as de nossos filhos.

Até o momento as pesquisas científicas indicam duas formas pelo qual o ambiente pode afetar geneticamente as pessoas. Um trauma, por exemplo, de uma pessoa que presenciou de perto o atentado às torres gêmeas, poderia acarretar no desenvolvimento de estresse pós traumático, cujo impacto poderia induzir alterações gênicas durante sua vida – levando-a a adoecimentos, inclusive físicos, que não estavam no script. A segunda forma ocorreria no âmbito transgeracional, como por exemplo no holocausto. De acordo com as pesquisas de Rachel Yehuda,  observou-se na segunda e terceira gerações que descendem das vítimas uma prevalência acentuada de transtornos depressivos e de ansiedade, embora eles não tivessem passado pela experiência traumática propriamente dita.

caveiraDiscute-se se essa transmissão se daria somente via intrauterina ou se a própria relação familiar, em que os pais relatam repetitivamente aos filhos os eventos traumáticos, produziriam mudanças gênicas. De qualquer forma, finalmente passa-se a reconhecer a importância do ambiente nas nossas raízes biológicas mais profundas.

Alguns epigeneticistas e psicanalistas tem se aproximado no sentido de colaborar mutuamente com suas pesquisas. Isso porque, para a psicanálise, as transmissões inter e transgeracionais tem um papel fundamental em sua teoria desde Freud, pois dizem respeito àquilo que se transmite inconscientemente e produz efeitos nas gerações subsequentes, especialmente os conteúdos de carga traumática que não puderam ser processados simbolicamente.

Se pudéssemos unir psicanálise e epigenética, mesmo em caráter experimental, poderíamos dizer que os genes carregam as experiências vividas por nossos antepassados e fazem sentir seus efeitos. Instigante, não? Até que ponto você acha que a genética é capaz de absorver e transmitir o que acontece no ambiente?

A seguir um vídeo que discute sobre a influência do ambiente na formação de diferenças epigenéticas em gêmeos idênticos.

 

PARA SABER MAIS…

http://saude.ig.com.br/minhasaude/como+o+seu+estilo+de+vida+pode+afetar+seus+descendentes/n1597020700062.html

http://www.epigenetica.org/rachel-yehuda-johnatan-seckl-holocausto-y-11-s/

http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDR87034-7943,00.html

http://veja.abril.com.br/220409/p_086.shtml

 

Bruno Espósito, Bruno Mangolini e Tomás Bonomi

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