Explorando o delírio: breve história de um caso clínico

O delírio é um dos temas mais enigmáticos da existência humana. Não é necessário ser psicólogo para se questionar sobre esse complexo fenômeno, que altera drasticamente a relação da pessoa com o mundo. Se, por um lado, uma conversa informal pode ser descontraída e divertida (além de recomendável), por outro, ser responsável pelo tratamento desta pessoa pode ser absolutamente perturbador.

Quem já teve a oportunidade de acompanhar alguém com algum tipo de delírio, sabe do que estou dizendo. O delírio é, por natureza, impenetrável, e as referências de linguagem utilizadas no delírio não são as mesmas que compartilhamos. Sem a mediação eficiente da linguagem é fácil nos sentirmos “sem chão”, sem qualquer meio para compreender o que nos é dito. E, geralmente, nos dizem muitas coisas, pois há um grande investimento na linguagem. Mas é como se o delirante usasse outra linguagem, fragmentada, desconexa, em que não há um sentido aparente que articule o discurso.

Quando eu atuava em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), tive a oportunidade de acompanhar um caso de um paciente com delírio crônico e sistematizado. Foi um caso que me despertou muito interesse – e muitas dúvidas também. Isso me levou a fazer uma dissertação de mestrado para entender melhor os mistérios do delírio. Faço aqui uma breve introdução da pesquisa, e quem tiver interesse há o link ao final para acessar o trabalho completo.

W., que é o sujeito da pesquisa, foi acompanhado por mim por pouco mais de um ano. Ele demorou bastante tempo pra se vincular comigo, foram quase cinco meses tentando trazê-lo para o CAPS, agendando consultas, às vezes ele vinha, muitas vezes não, muitos telefonemas foram realizados, que era algo que funcionava surpreendentemente bem com ele. Ele já havia sido avaliado por um psiquiatra, que fez o encaminhamento ao CAPS, pois ele apresentava um delírio curioso: dizia que o padre Marcelo tinha trocado a família, falava que estava com a mente perturbada, entre outras coisas.

Depois de muita tentativa, ele finalmente começou a vir às consultas, e aí não parou mais. Logo ele queria conversar comigo quase todo dia, dentro da sala, em uma consulta mesmo. E eu passei a escutá-lo. Notei que ele fazia um uso muito específico da linguagem, falava com um misto de entusiasmo e desespero, com muita vivacidade sobre coisas que pareciam absurdas. Isso começou a chamar a minha atenção. Nossas conversas não eram longas, mas ele preenchia esses vinte, trinta minutos de um jeito bem intenso, falava muitas coisas. Depois de algum tempo, eu, que já estava interessado pelo caso dele, pensei que poderia estudar melhor o caso no futuro, e pedi para gravar os atendimentos.

E foi assim que eu coletei os dados da minha pesquisa. Quando eu entrei no mestrado, já sabia que queria estudar o caso dele e o primeiro passo foi transcrever os 59 atendimentos que tinham sido gravados. Eram 14 horas de conversa, que viraram mais de quatrocentas páginas transcritas.

O primeiro desafio foi organizar esse material todo, que era extenso e de difícil análise. As falas de W. não seguiam a lógica que estamos acostumados, tinham mudanças bruscas de sentido, palavras desconexas, frases desarticuladas, e que mostravam um grande investimento na linguagem feito por W.

Minha vontade inicial era pensar o caso através da esquizoanálise, que é a abordagem que eu me identifico mais. Mas não queria fazer uma pesquisa para defender uma abordagem, ou que distorcesse o caso pra encaixá-lo numa teoria. E esse foi outro desafio: pensar o caso sem fechar minha leitura em uma perspectiva, sem adotar o referencial todo, seja da esquizoanálise ou da psicanálise, mas utilizar essas abordagens como ferramentas para pensar o caso. Portanto, o caso é que deveria me conduzir às questões teóricas, à medida que ele avançasse. E não me parecia razoável começar pela esquizoanálise: antes disso, eu teria que passar pela psiquiatria e pela psicanálise, construir minimamente um corpo teórico, para poder desconstruí-lo depois.

E a primeira questão remetia a como o caso chegou até mim. Ele veio encaminhado com um diagnóstico inicial de esquizofrenia paranoide, que é um grande guarda-chuvas para casos de psicose. Então o primeiro capítulo teórico do trabalho, “Esquizofrenia, ou o olhar da psiquiatria?” – com interrogação mesmo, para enfatizar como o termo é indissociável da visão psiquiátrica – faz uma retomada histórica da nomenclatura usada na psiquiatria e como as definições ainda hoje são confusas e marcadas por definições que enaltecem o déficit, uma alteração em relação a padrões de subjetividade que se tornaram normativos.

Eu questionava o diagnóstico de esquizofrenia, principalmente pela questão da autonomia de W., que era significativamente melhor do que os casos considerados como esquizofrenia que eu acompanhei.

Pesquisando sobre delírio, descobri que no início do século XX já havia uma discussão sobre os diagnósticos, em que dois autores franceses, Serieux e Capgras, criticavam a nosografia de Kraeplin, que dava o mesmo nome para quadros clínicos bem diferentes. Esses quadros apresentavam delírios crônicos e sistematizados e não tinham prejuízo intelectual acentuado, diferentemente dos quadros de esquizofrenia. Essa crítica levou a uma revisão de Kraeplin, que depois incorporou os delírios crônicos ao quadro das paranoias.

Mas, apesar de ter encontrado essa referência que indicava que o caso de W. possivelmente não se tratava de uma esquizofrenia, isso não me ajudava tanto a entender sobre o funcionamento psíquico dele e tampouco apontava um direcionamento clínico.

Falando em clínica, uma parte difícil da pesquisa foi me deparar com as minhas intervenções no caso. Muitas vezes eu ficava bastante insatisfeito com o que eu encontrava, com as minhas falas mesmo. Mas mostrava também o quanto é difícil atuar em casos marcados pelo delírio, que de algum modo tiram o seu chão. Não seria exagero dizer que a sensação que eu tinha era a de estar diante de alguém preso em uma história dramática e surreal, criada por ele mesmo, e que o perturbava incessantemente.

A perturbação vivenciada por W. era tanta, que ele começou a fazer ligações para a polícia por achar que seus vizinhos estavam o ofendendo, além de fazer diversas ligações ao SAMU, se queixando de estar muito perturbado.

Esta situação foi bem delicada pra mim, que senti que precisava ser mais ativo em minhas intervenções, pois não podia apenas assistir tudo isso acontecer. Passei a tentar que ele fizesse uma distinção entre realidade e imaginação, uma abordagem um tanto ingênua e talvez até inadequada com psicóticos. Mas foi o que eu pude fazer, e o que tentei durante alguns atendimentos.

Voltando à minha busca por referências, fui pesquisar o que a psicanálise dizia sobre psicose e delírio. O amplo referencial teórico da psicanálise sobre o tema me ajudou bastante a pensar o caso, a encontrar algumas respostas, a me dar uma base mais sólida para discutir possíveis causas e apontar uma direção clínica. Questões como o delírio ser uma tentativa de cura para uma fragmentação psíquica generalizada, do delírio servir de referência para outros significantes, além de constituir uma saída da esquizofrenia para a paranoia me ajudaram a entender um pouco mais sobre o funcionamento psíquico de W.

Mas como eu disse anteriormente, não acho que o valor da pesquisa seja o de achar uma teoria e se fechar nela, por mais tentador que isso seja. E para usar um chavão da esquizoanálise, as coisas não são boas ou ruins em si, depende do uso que fazemos delas. Isso também serve para a psicanálise, e acredito que um dos piores usos é considerá-la como uma verdade que desvendou os mistérios da loucura e que encontrou o caminho necessário que a loucura percorre, como alguns autores apontam.

Por isso, no último capítulo teórico, faço um contraponto com a esquizoanálise, que traz outros conceitos pra pensar a psicose, situando o delírio no campo social e político. É a busca pela dimensão das intensidades, antes de se tornarem uma forma ou um signo, e um interesse em liberar a potência de uma organização dominante, seja ela um corpo ou um conjunto social.

Por fim, o caso tem suas reviravoltas. W. chega a se internar, andando, por vontade própria. Poucos dias depois de sair, quer voltar a trabalhar, e o médico perito considera ele apto a voltar.

Dentre as poucas conclusões que eu pude tirar desta pesquisa, é que não se pode subestimar a potência de uma relação e a força de um vínculo, que são a base da clínica. Sobre W., ainda tenho contato com ele, que de vez em quando me liga pra contar sobre coisas triviais, como o que comeu e sobre o resultado do último jogo do São Paulo, além de me contar como anda seu acompanhamento, que ainda é realizado no mesmo CAPS.

 

Para acessar a pesquisa completa, clique aqui.

 

Bruno Mangolini

2 Comments

  1. Fernanda Costa Rios on outubro 3, 2018 at 3:21 pm

    Parabéns pela pesquisa e obrigada por compartilhar, Bruno! Os casos mobilizam tanto a ponto de realizarmos longos percursos em decorrência de suas afetações. É um prazer acompanhar o caminho que trilhou. Abçs. Fernanda.

  2. Renata Udler Cromberg on outubro 15, 2018 at 2:57 pm

    Que beleza de trabalho Bruno! Enfrentamento da difícil clínica da psicose e sobretudo do delírio!
    Parabéns! Beijos

Leave a Comment





%d blogueiros gostam disto: