Função dos sonhos, pesadelos e sonhos traumáticos para Freud.

 

Você já deve ter acordado com a sensação, “Meu deus por que eu sonhei com isso?”. Os sonhos, em geral, carregam muitos enigmas; mas o que dizer dos pesadelos e daqueles sonhos que se repetem muitas vezes ao longo de nossas vidas?

Se este tema lhe desperta a curiosidade, pretendo a seguir fazer uma breve discussão (utilizando a obra de Freud) sobre a função dos sonhos, pesadelos e sonhos traumáticos.

O guardião do sono:

Freud, no livro “A interpretação dos sonhos” (1900), propõe que a primeira função dos sonhos consistiria em ser o guardião do sono. Segundo o autor, ao sonharmos ocorre uma regressão libidinal do aparelho psíquico que nos permite desligar-nos dos estímulos externos e nos recolher em uma espécie de estado narcísico primordial. Em outras palavras, ao permitirem que o aparelho psíquico opere de forma reduzida, os sonhos criam as condições necessárias para o adormecimento e descanso do corpo. Segundo o autor:

“O sonhar tomou a si a tarefa de recolocar sob controle do pré consciente a excitação do inconsciente, que ficou livre; ao fazê-lo, ele descarrega a excitação do inconsciente, serve-lhe de válvula de escape e, ao mesmo tempo, preserva o sono do pré-consciente, em troca de pequenos dispêndios da atividade de vigília” (p.607, 1900).

Para Freud o sonhar, além de nos proteger dos estímulos externos, funcionaria como uma projeção no sentido de uma externalização de um processo interno pois ao sonharmos não haveria um total desligamento da atividade psíquica.

Sobre essa atividade psíquica Freud desenvolve a importante hipótese de que os sonhos seriam realizações alucinadas de desejos inconscientes. Essa realização só é possível através do trabalho do sono em que os conteúdos inconscientes são deformados (condensação, deslocamento e figurabilidade), tornando-se assim passíveis de habitar a consciência.

Pesadelos:

Para Freud, os pesadelos falhariam na função onírica de guardar o sono, mas estariam de acordo com a função da realização alucinada dos desejos inconscientes. O que se passaria de diferente nos pesadelos, seria justamente uma falha no processo de trabalho do sono, ou seja, um conteúdo inconsciente não teria sido suficientemente deformado ao ponto de poder habitar a consciência. Sendo assim, o pesadelo tomaria vantagem da diminuição da censura para fazer existir na consciência um conteúdo recalcado, o qual no estado de vigília não estaria “autorizado” a estar lá. Mesmo com o despertar, Freud diz que os pesadelos ainda funcionariam como protetor do psiquismo pois, frente à presença de fortes estímulos angustiantes, o pesadelo despertaria o sonhador. Segundo ele:

“O processo onírico tem a permissão para começar como a realização de um desejo inconsciente, mas, quando essa tentativa de realização de desejo fere o pré-consciente com tanta violência que ele não consegue continuar dormindo, o sonho rompe o compromisso e deixa de cumprir a segunda parte de sua tarefa. Nesse caso, ele é imediatamente interrompido e substituído por um estado de completa vigília. Mas aqui também não é culpa do sonho que ele apareça agora no papel de perturbador do sono, e não em seu papel normal de guardião do sono; e não é necessário que isso nos predisponha contra o fato dele ter uma finalidade útil. (…) Já não há nada de contraditório para nós na ideia de que um processo psíquico gerador de angustia possa, ainda assim, constituir a realização de um desejo. Sabemos que isso pode ser explicado pelo fato de o desejo pertencer ao sistema Ics, ao passo que foi repudiado e suprimido pelo outro sistema o Pcs.” (p.608-609, 1900).

Para o sistema psíquico, a realização do desejo (no pesadelo) funciona nos moldes da solução de compromisso do sintoma. Se por um lado, o conteúdo do sonho desperta o sonhador e traz um afeto de angústia ao consciente, por outro, há um ganho econômico catexial quando deixa de gastar um quantum importante de energia no processo de recalque.

No texto “Suplemento metapsicológico à teoria dos sonhos”, o autor afirma que quanto mais força o aparelho psíquico estiver fazendo para recalcar algum conteúdo/afeto, mais instável será o sono desse sujeito. Neste momento de sua obra, Freud já se aproxima à formulação da segunda tópica (que de fato está no texto “O Ego e o Id.” de 1923) e, portanto, já começa a se utilizar das novas noções de conflitos intrapsíquicos. Tendo em vista estes conflitos, Freud afirma: “Estamos familiarizados também com o caso extremo em que o ego desiste do desejo de dormir, por que se sente incapaz de inibir os impulsos reprimidos liberados durante o sono – em outras palavras, em que renuncia ao sono por temer seus sonhos”. (p.232, 1917).

Sonhos traumáticos:

Foi somente em 1920 no congresso de Haia que Freud admite a existência de um conjunto de sonhos que não confirmaria sua tese dos sonhos enquanto realização alucinada de desejos inconscientes. Nesta comunicação, afirma que encontrou um novo grupo de sonhos (sonhos traumáticos) que ocorreriam normalmente em pessoas que sofreram acidentes de guerra (no contexto do pós primeira guerra mundial), mas também em neuróticos.

O sonho traumático corresponderia à pura repetição de um trauma vivido que não foi elaborado. No âmbito das catexias psíquicas, o sonho traumático funcionaria como uma simples descarga pulsional.

Se pensarmos o aparelho psíquico como um aparelho de representação, o sonho traumático evidencia seu fracasso pois o trauma, em sua essência, diz respeito a uma situação que não pôde ser representada, não encontrou possibilidades de simbolização na psique. Para se constituir um trauma, Freud elenca o elemento “susto” como fator diferencial em sua gênese.

Sobre o lugar que o trauma e o sonho traumático ocupam no psiquismo, Talles afirma:

“O sonho que não realiza desejo, mas repete situações desprazerosas, na tentativa de faze-las ganhar elaboração e articulação com a vida mais ampla do psiquismo, é um sonho que, ao contrário de manter o sono, o rompe, como os sonhos das neuroses traumáticas mostram. Parece tratar-se, até, de uma antimatéria psíquica que, enquanto não for totalmente envolvida pelas pulsões eróticas, mantêm-se como corpo estranho ao psiquismo, repetitivo não elaborado, que impede mesmo a expansão das forças vitais do desejo. (…) Estes sonhos não operariam como falas do reprimido, mas como repetições do ainda não elaborado, ainda não pensado, coisa em sí psíquica tentando ser dominada e rompendo o continente psíquico Freudiano no mesmo movimento,”. (p. 286, 2005).

Um ponto importante ressaltado por Talles refere-se à tópica do trauma pois, como não encontra representação no psiquismo (não se inscreve), ele não pode ser recalcado. Segundo Knobloch, o trauma é o lugar do irrepresentável; de acordo com a autora: “O trauma não coincide mais com o recalcado, mas será o que não pôde entrar no psiquismo inconsciente por ausência de ligação, devido à ação da pulsão de morte.” (p.41, 1998).

Desta forma, nos sonhos traumáticos, o espaço do sonho enquanto lugar da realização de desejos recalcados não se constitui justamente pela falta de ligação do elemento traumático. No texto “Mais além do princípio do prazer”, Freud afirma que os sonhos traumáticos não poderiam corresponder à sua teoria inicial dos sonhos e, portanto, hipotetiza que deveria haver uma função psíquica mais primitiva que os princípios de obtenção do prazer e evitação do desprazer. Esta função estaria em obediência da compulsão à repetição, característica fundamental do conceito de pulsão de morte que inaugura uma nova fase na obra freudiana.

Tomás Bonomi

 

Bibliografia:

 ABSÁBER, T. O sonhar restaurado: formas de sonhar em Bion, Winnicott e Freud. São Paulo: Editora 34, 2005.

FREUD, S. (1900). Interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. IV. (Edição Standard Brasileira das Obras Completas).

__________ (1900). Interpretação dos sonhos II. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. V. (Edição Standard Brasileira das Obras Completas).

__________(1917). Suplemento metapsicológico à teoria dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XIV. (Edição Standard Brasileira das Obras Completas).

 _________ (1920). Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XVIII. (Edição Standard Brasileira das Obras Completas).

KNOBLOCH, F. O tempo do traumático. São Paulo: EDUC, 1998.

 

 

 

 

 

2 Comments

  1. ROSIMEREY on fevereiro 6, 2019 at 11:44 pm

    Adorei!

    Como estudante gosto de todas as matérias que leio.

  2. Renata Udler Cromberg on fevereiro 7, 2019 at 9:55 am

    Excelente texto conciso e fluente e que transmite o essencial!

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