Gloomy Sunday: A música mais triste do mundo

por Carolina Galvão de Oliveira*
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Há 47 anos, em 11 de janeiro de 1968, o pianista húngaro Rezsõ Seress se atirava de uma janela em direção à morte. Seu misterioso suicídio passou a integrar a lista de mais de 100 casos de mortes relacionadas à música Gloomy Sunday, ironicamente composta pelo próprio Seress em 1933.

Com o título de “Vége a világnak”, ou “O mundo está acabando”, a música foi lançada na Hungria da década de 1930 em meio à Grande Depressão, que assolava de fome e pobreza o país. A letra original é uma referência ao desespero da população nesse período de guerra. No entanto, a versão que se tornaria ainda mais famosa é a do poeta Lászlo Jávor, que a reescreveu em 1936, supostamente após o término de um tórrido relacionamento.

Nessa versão, intitulada “Szomorú vasárnap”, ou “Triste domingo”, Jávor canta um triste lamento em torno da morte da pessoa amada e faz um suplício desesperado para reencontrá-la em outro mundo. Foi na voz de Billie Holiday que, em 1941, a música se popularizou internacionalmente, rebatizada de “Gloomy Sunday” ou

foto: John Eskey

“Domingo sombrio”. O primeiro caso de morte associada à Gloomy Sunday que se tem notícia aconteceu em 1936, quando Joseph Keller, de Budapeste, cometeu suicídio e deixou uma carta escrita a próprio punho que continha frases da música. Após este primeiro caso, outros 17 se seguiram e, embora nunca tenha sido possível confirmar que os casos de suicídio registrados realmente foram influenciados pelas mensagens melancólicas de Gloomy Sunday, a música passou a ser conhecida mundialmente como “A música húngara do suicídio”.

Com o aumento nos casos de suicídio registrados na década de 1940 e associados de algum modo à música, muitas rádios a proibiram em seu repertório. A BBC de Londres permitia apenas a reprodução da versão instrumental e voltou a tocá-la apenas em 2002. Tal proibição, no entanto, não impediu sua reinterpretação ao longo dos anos nas vozes de muitos artistas como Sarah Vaughan, Ray Charles e Elvis Costello. A música é tocada também em várias cenas da obra de Steven Spielberg, “A Lista de Schindler”, de 1993 – possivelmente uma referência à Seress, preso em um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

São inúmeras as lendas em torno de pessoas que cometeram suicídio enquanto escutavam sua sombria melodia. Existem outras tantas histórias, verdadeiras ou não, em que as letras da música são mencionadas em cartas de suicídio, numa clara alusão aos efeitos lúgubres de Gloomy Sunday. Flertando com a morte, seja devido à devastação da guerra, ou pela dor do amor, Seress deixou um legado sombrio e nem por isso menos belo. Seguem duas versões devidamente traduzidas de Gloomy Sunday, a primeira na composição fúnebre de Rezsõ Seress, a segunda interpretada lindamente por Billie Holiday:

 

 

* Carolina Galvão de Oliveira é psicóloga, mestre em Psicologia Social (PUC-SP).

 

Fontes:

http://dangerousminds.net/comments/chillstep_hour_of_sadness_heartbreaking_comments

https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_songs_banned_by_the_BBC

http://nocmoon.com/2010/04/gloomy-sunday-a-musica-do-suicidio/

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