Hannah Arendt e os valores de público e privado entre os adolescentes da geração Z (por Joana de Arruda Elkis).

Quando falamos de geração Z, nos referimos às pessoas nascidas entre 1990 e 2014. Nesta nomenclatura, o termo Geração X  é utilizado para nomear as pessoas nascidas após o chamado “Baby Boom”, que foi um aumento importante na taxa de natalidade dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial e corresponde às pessoas nascidas entre início dos anos 1960 até o final dos anos 1970, podendo alcançar o início dos anos 1980. A Geração Y, abrange os nascidos entre 1980 e 1990 e também é chamada Millennium, sendo sucedida pela Geração Z.

Numa publicação de maio de 2013, a revista Time[1], apresentou uma matéria interessante sobre a Geração Y, que também nomeou como Geração Me Me Me. Como o próprio título da matéria deixa claro, esta é a tese: a geração dos autocentrados.

Independente da nomenclatura usada – Millennials, Y, Geração Me Me Me – o fundamental neste caso é pensar nestes sujeitos e nessa cultura em que estão imersos os adolescentes, tão marcada pelo narcisismo, pela autorreferência e pelo individualismo. Valores esses que, na Geração Z, são potencializados pelos novos recursos tecnológicos. O melhor exemplo para traduzir esta ideia é o que vemos a todo momento: selfies. As autofotos que colocam o euselfie como interesse maior em toda e qualquer situação. Se pararmos para olhar o comportamento social de adolescentes entre 11 e 14, por exemplo, veremos como as redes sociais estão presentes em suas vidas e, neste contexto, como a autorreferência orienta suas publicações. Desde a foto em si que, independente do lugar onde foi tirada, tem em sua maioria o autor dela como protagonista; até a exigência absoluta de que todos estejam bonitos. A partir disso, a repercussão da publicação também é definida nos mesmo termos: quem (me) curte. Isto é, a validação da publicação – ou do que ela representa – é dada em função do número de pessoas que curte o post. O objetivo fundamental é ter sua imagem aprovada pelo outro.

Tendo em vista este perfil da geração de adolescentes atual, somado a interferência da tecnologia na constituição destes sujeitos, temos como resultado um universo baseado, predominantemente, em valores individualistas. Ou seja, a maioria dos vetores que compõe a identidade destes adolescentes aponta para questões do eu e pouco resta para a dimensão do grupo, da coletividade. A convivência com o outro acontece, portanto, sob a tônica do egocentrismo e não de uma alteridade, efetivamente. Neste sentido, a esfera privada vai engolindo a dimensão pública.

Contribui com esta análise o pensamento de Hannah Arendt[2], que encara a sociedade moderna, de massas – e cabe aqui dizer, a sociedade contemporânea – como tendo suprimido a esfera que ela denomina pública. Segundo a autora, o mundo comum e os homens passaram a se resumir a seres privados. Neste sentido, não seriam capazes de ouvir o outro e reconhecer a diversidade do seu olhar. Isso ocorreria, pois deixa de haver um objeto comum entre eles, um laço social capaz de compor, de fato, uma coletividade. E, se não há este horizonte comum, passa a haver uma infinidade de horizontes privados, de forma que os olhares não podem mais convergir para um mesmo ponto.

3 macacos

 

“Nas circunstâncias modernas, essa privação de relações objetivas com os outros e de uma realidade garantida por intermédio destes últimos tornou-se o fenômeno de massa da solidão, no qual assumiu sua forma mais extrema e mais anti-humana” (ARENDT, 2001: 68)

 

Caberia, então, refletir sobre o papel do educador neste processo. De que forma ele contribui para a construção das esferas coletiva e individual no ambiente da escola? Como isso reflete os valores de público e privado presentes no repertório desses adolescentes?

interrogados

Reside aí o papel educacional do professor, que transcende seu fazer pedagógico. Está impregnada em seu trabalho a necessidade de insistir na construção da coletividade como um valor, de fomentar a dimensão coletiva na convivência entre os alunos na sala de aula e para muito além dela. Esta é a tarefa do educador: sustentar a composição de uma esfera social para que a construção de conhecimento reflita também a elaboração de valores subjetivos e políticos. Daí a importância da escola em promover  situações constantes de reflexão sobre o coletivo, como as assembleias de classe que possibilitam aos alunos a vivência de uma assembleia escolasituação concreta de debate sobre temas de interesse comum. Da mesma forma se justificam as reflexões sobre direitos e deveres, a exploração e discussão sobre o regimento escolar e todos os encaminhamentos em torno dos conflitos vividos na escola, que são baseados na premissa de se colocar e ouvir o outro.

Desta forma, entendemos o espaço da escola não como uma comunidade isolada dos fluxos sociais e políticos que a circundam, tampouco como um mero ensaio de cidadania, mas sim como um ambiente político e social, efetivamente. Esperamos que os alunos percebam o espaço da escola como público, no sentido de um campo de vivência coletiva e responsabilidade compartilhada.

 

[1] STEIN, Joel. Millennials, the Me Me Me Generation. Revista Time. Califórnia, maio de 2013

[2] ARENDT, Hannah. A crise na educação: III e IV. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 1972. p. 247

ARENDT, Hannah. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

 

Joana de Arruda Elkis é psicóloga e orientadora educacional da Escola da Vila (SP).

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