Ideias para pensar o enquadre com pacientes-limite

por Camila Junqueira*

“Muitos anos depois de ter interrompido sua análise, ainda encontro Janaina nas ruas do
bairro em que, coincidentemente, moramos. E mais uma vez ela me pergunta: ‘e os
bebês, Camila? Quando vai ter bebês? Você precisa ter bebês!’
diz ela. Um, dois…
cinco, vários encontros e são sempre essas as suas falas quando me vê, de tempos em
tempos. Sinto que Janaina me perguntava sobre a minha capacidade de maternagem,
que estava muito apagada quando suas angústias e seus conflitos eram interpretados do
ponto de vista edípico e o enquadre clássico era imposto como o objetivo de suscitar
angústias ligadas à castração, buscando criar uma neurose de transferência, mas, na
realidade, encobrindo sua necessidade de Ser. Desorganizada e dividida entre
sentimentos, ora de gratidão pela escuta, ora de abandono pela falta de flexibilidade do
setting, que resistia a se adaptar às suas necessidades, Janaina foi deixando de vir,
deixando, deixando… até que passamos a nos encontrar apenas nas ruas do bairro…”
(Junqueira, C., 2019, Metapsicologia dos limites, Blucher)

Quando, como e por que flexibilizar o enquadre para certos pacientes?

Quando lidamos com as partes neuróticas do paciente, a abstinência (enquanto não
gratificação dos desejos), tal como sugerida por Freud, ainda é um elemento importante
para o estabelecimento da neurose de transferência e para que os conflitos inconscientes
deem um “salto na fala” (para usar uma expressão de André Green), tornando os
conteúdos inconscientes interpretáveis. Já quando lidamos com os sofrimentos
narcísicos, presentes nos pacientes-limite, teremos uma situação completamente
diferente. Com os pacientes-limite, a abstinência representada ora por uma pergunta
devolvida, ora pela fixidez do enquadre, reabre a cicatriz ainda viva de um ambiente
primário experimentado como pouco ou nada disponível, ao qual a paciente ainda bebê
teve se adaptar para sobreviver…
Você tem filhos? pergunta Janaina.
O que você imagina? responde a analista procurando projeções numa tela
supostamente em branco…:

Podemos trocar meu horário essa semana novamente? Tenho um as coisas para
resolver…
pergunta Janaina
esse é o seu horário, vindo ou não vindo… não temos como repor… insiste a
analista marcando a falta, situação que é vivida pela paciente como abandono…

A falta de flexibilidade do enquadre geralmente entra em ressonância com a falta de
esperança de que o paciente terá espaço para ser ele mesmo, e foi assim que Janaina
interrompeu seu primeiro tempo de análise. Ela levou mais de dez anos para retornar e
termos então uma segunda chance de deixá-la experimentar um enquadre construído em
conjunto, sob medida para suas necessidades, que variam de tempos em tempos, mas
ainda sim um enquadre suficientemente firme e estável para que reproduzisse um
encontro que sustentasse a ilusão de onipotência. Essa ilusão é base do paradoxo
achado/criado, onde o bebê pensa ter criado aquilo que encontrou no ambiente e sem o
qual, como nos ensina Winnicott, não será possível seguir adiante, viver a desilusão em
um ritmo adequado e sem se sentir retaliado pelo ambiente, o que vai permitir suportar a
alteridade do ambiente.

As relações de objeto primárias dos pacientes-limite foram de tal modo turbulentas e
precárias (a mãe morta de André Green é um modelo para compreendermos o que se
passa) que falta ao paciente uma rede de representações que funcionem como um
sistema de para-excitação das pulsões. Também falta a ele a construção de um limite
preciso entre eu/não-eu, o que prejudica sua relação com realidade externa, bem como
justifica suas angústias de perda e intrusão vividas de modo concomitante e avassalador.

A precariedade de um aparelho psíquico que processe a pulsão de forma simbólica
resulta no transbordamento da pulsão para o corpo e para os atos. Diferente do neurótico
que dá um ‘salto na fala’, o paciente-limite frequentemente dá um ‘salto no ato’! O
sofrimento-limite se expressa em atuações, compulsões, adições e nas manifestações
psicossomáticas. Sua apresentação mimo-gesto-postural (para usar uma expressão de
René Roussillon) e o formato de sua fala revelam, por vezes, muito mais do que seu
conteúdo.

Diante do endurecimento do ambiente em tempos de isolamento social imposto pela
pandemia de Covid-19, Janaina se angustia. Angustiada preenche as sessões

compulsivamente com um tsunami de palavras, passando de um assunto para outro, se
debatendo como alguém que se afoga. Para não me afogar junto preciso contê-la,
interrompendo sua fala, e reconstruindo o que acabara de narrar, amarrando seus
fragmentos soltos em um fio condutor, que mostra a ela um encadeamento possível
entre os fragmentos ligados por afetos de desamparo, impotência, abandono e vividos
por ela de forma insuportável. Afinal, muitas são as histórias passadas que não se
tornaram passado, pois a precariedade dos limites psíquicos também prejudica a relação
com a passagem do tempo, uma forma de realidade externa.

O trabalho de costura do fio condutor de sua fala a acalma, mas esse efeito nem sempre
dura até a próxima sessão. Os limites psíquicos que não foram constituídos nos
primeiros tempos do sujeito custam a serem cerzidos. Responder a uma pergunta,
marcando minha alteridade com suavidade, ou repor horários sustentando o tempo de
Janaina criar uma representação da ausência que a permita lidar com a falta, tem sido
um trabalho fundamental para que a paciente suporte o trabalho de análise que tem
como objetivo, no momento atual, adensar o limite eu/não-eu.

Convido o leitor interessado em pensar um pouco mais no ‘como, quando e porque
flexibilizar o enquadre com pacientes-limite’, e interessado em conhecer construtos
teóricos úteis (tais como transferência sobre o enquadre, enactment, suplência de objeto
primário, entre outros) a conhecer outros textos meus nos links:
linktr.ee/camilajunqueira.98 e
https://www.blucher.com.br/livro/detalhes/metapsicologia-dos-limites-1570

* Camila Junqueira é psicanalista, doutora e pós-doutora pela USP, membro do
Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professora e coordenadora
de curso de extensão sobre Problemáticas Alimentares.

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