– Jovens que se cortam.

É cada vez mais frequente a procura por ajuda profissional, geralmente solicitada pelos familiares, para o atendimento de casos em que jovens têm deliberadamente provocado cortes em seus pulsos, braços e até nos rostos. Geralmente são meninas, adolescentes, trazidas pelos pais, que ficam aterrorizados com a cena e não sabem o que fazer.

jovens que se cortamAlém dos cortes, a presença de sintomas como anorexia e bulimia são comuns, além de algumas características subjetivas, como o isolamento, a necessidade de chamar a atenção e a sensação de ser incompreendida. É comum não haver ânimo para ir à escola, não ter apetite e não ter vontade de sair de casa. Questões muito presentes e pertinentes na adolescência, mas que nestes casos aparecem de forma exacerbada e é muitas vezes percebida como uma depressão.

Os cortes geralmente são “a gota d’água”, o estopim que sinaliza à família que é preciso ajuda. É importante não perdermos de vista que alguma mensagem está contida nestas ações; podemos considera-las como a expressão de conflitos inconscientes. É interessante notar como, em muitos casos, as ações parecem ser dirigidas às mães, como uma tentativa de atacá-las, assustá-las e, assim, envolvê-las. 

A insensibilidade corporal é algo notável nestes casos, e está ligada a um bloqueio, em termos psicanalíticos, da circulação da libido. Isto fica claro quando, durante os atendimentos, o discurso da paciente se volta a um passado impossível e circular, marcado pelo sentimento de autorrecriminação e culpa (esta situação é bem ilustrada pelo relato de uma paciente, que se sente culpada pela separação dos pais, quando tinha 3 anos de idade).

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Uma abordagem psicanalítica da questão pode nos conduzir a uma possível compreensão do que está em jogo nestes casos. Geralmente as críticas a si mesma, ao seu ego, disfarçam um ataque a uma pessoa amada que foi perdida. O que bloqueia a libido é que a energia contida na relação com esta pessoa, ao invés de ser gradualmente investida em outra (o que seria considerado um luto), esta energia é direcionada ao próprio ego, sem ter nenhuma função, realizando apenas uma identificação com a perda. Neste momento, ocorre uma divisão (clivagem) no ego, e ele passa a ser criticado pelo superego como se representasse a pessoa perdida. Desta forma, os cortes podem ser compreendidos como uma ação que é capaz de fazer um duplo ataque: ao próprio ego, que está identificado com a perda da pessoa, e à própria pessoa perdida, como mensagem indireta.

Em outras palavras, quando perdemos alguém de muita importância em nossas vidas, seja por morte, separação ou outra razão, tendemos a incorporar alguns aspectos, trejeitos e características da pessoa perdida. É comum, por exemplo, uma pessoa que tenha perdido um familiar querido, vestir roupas do falecido. Na situação de luto, ou seja, não patológica, fazemos isso de forma transitória, e pouco a pouco voltamos à vida, criamos novos laços, novos vínculos emocionais. Em alguns casos, essa situação se cronifica, é como se não nos separássemos da pessoa que perdemos, internalizamos ela e “brigamos” internamente com ela por “ter nos abandonado”. Ou seja, o que parece uma auto agressão, é muitas vezes a agressão a esse outro que já se foi e não aceitamos perder.

Mais do que entrar em pormenores teóricos, tentamos aqui explicitar um dos sentidos que o ato de se cortar pode possuir. Neste caso, o jovem que se corta estaria passando por um estado de melancolia de forma que não consegue ligar-se em nada, pois toda sua energia está investida em si mesmo. Com este hiperinvestimento de libido sem ligação no ego, cria-se um estado de angústia permanente, trazendo a sensação de vazio e de não possuir valor algum.

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Outro aspecto importante tem haver com os limites: limites do si-próprio, limites do corpo. Quando alguns jovens cortam suas próprias peles, ainda que o ato envolva dor, permite a eles sentirem seus contornos, seus limites, sua unidade corporal. Quem olha de fora, os vê como uma pessoa inteira, mas a experiência desses jovens com relação à si próprio é muitas vezes de fragmentação ou indiferenciação. Os cortes  permitem a eles “sentir na pele”  que estão vivos. Uma fala comum destes adolescentes é: “Eu me corto, pois é a única forma de sentir algo”. 

Vale ressaltar que esta interpretação não é uma regra e cada caso pode apresentar variações e sutilezas infindáveis. No entanto, como esquema genérico de compreensão, pode nos dar algumas pistas na tentativa de compreender este aparente enigmático ato de se cortar.

Sabemos que é muito ruim sofrer e não saber o  motivo.  Sempre que conseguimos uma explicação para nosso sofrimento a tendência é que tenhamos um alívio, começamos a entender do que se trata e a visualizar saídas. O que acontece com esses jovens, muitas vezes, é que o sofrimento está descolado de qualquer significado ou narrativa que dê um contorno à dor; e os cortes na pele, embora tragam dor, ajudam a “lembrá-los” quais são os contornos de seu corpo. O trabalho psicoterapêutico ajuda, num primeiro momento, a construir contornos psíquicos, explicações subjetivas para um sofrimento que não está podendo ser colocado em palavras. Portanto, pensamos que no momento em que este jovem passe a falar e elaborar algo sobre seu sofrimento, provavelmente haverá uma diminuição gradual da necessidade de se cortar.    

Nestes casos a indicação de medicações pode ser bastante útil ao ajudar a aliviar sentimentos de angústia, tristeza e ansiedade; no entanto, os remédios não atingem a raiz principal da questão, tornando  necessário um profundo trabalho analítico, que irá percorrer os motivos inconscientes e as identificações realizadas, buscando a liberação da libido e a retomada da potência vital.

Exibimos abaixo o documentário “Prazer, meu nome é automutilação”, por apresentar relatos de  jovens que realizam cortes em si mesmas; além disto, há opiniões de outros profissionais, que utilizam outras abordagens.

 Bruno Mangolini, Bruno Espósito e Tomás Bonomi

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5 comments on “– Jovens que se cortam.

  1. Cadu disse:

    Matéria interessante e de importância para representar uma atitude frequente. Mas a idéia de que se pode explicar e compreender o ato como representação de um outro sendo cortado no próprio corpo ou que o superego “critica” o ego é uma leitura um tanto tendenciosa e parcial, que desconsidera a singularidade da possibilidade de cada um representar por si o que ocorre e da dimensão inconsciente do desejo.

    • conexoesclinicas disse:

      Olá Carlos Eduardo! Que bom que você deixou seu comentário! Vamos lá… Concordamos que nossa leitura é parcial (afinal, não pretendemos esgotar o assunto em poucas linhas); mas não acreditamos que seja tendenciosa. O corte como representação de “um outro sendo cortado” foi uma maneira que encontramos para tornar o texto mais compreensível para todos. Conceitualmente, são representações psíquicas que estão em jogo; no caso, a identificação com a sombra do objeto (perdido) é o que é atacado. Em relação ao Superego, ele tem sim a função de criticar e julgar o ego; no entanto, cada um faz isto à sua maneira, e existem infinitas possibilidades da relação Ego-Superego se constituir, o que comporta toda singularidade. Sobre a dimensão inconsciente do desejo, jamais deixamos de considerá-la, justamente porque consideramos estes processos como manifestações inconscientes, pois as identificações e a posição subjetiva nunca são conscientes.

      Se quiser ver um artigo interessante sobre o tema:

      http://www.uva.br/trivium/edicoes/edicao-i-ano-ii/artigos-tematicos/ar-tem6-oralidade-melancolia.pdf

      Obrigado!

  2. Luciana Becker Sander disse:

    Transtorno de personalidade borderline

  3. Ketlen Silva Costa disse:

    E um assunto que ainda e muito ignorado e não discutido na sociedade cada vez mais vemos casos de adolescentes que se cortam se queimam se dopam isso pode ser apenas uma fase mas também pode se tornar uma depressão e alguns jovens já estão sofrendo a depressão minha filha já se cortou no inicio não me preocupei muito mais cada vez mais ela se cortava mais fundo e aparecia cortes em diferentes lugares do corpo não era mais só nas pernas era nos pulsos, barriga. Eu acho que deviam voltar mais atenção para este assunto porque tem pessoas que começam nos cortes mas podem acabar até si matando.

  4. Ingrit disse:

    Eu também me cortei mas não faço mais isso.isso com o passar do tempo ficou como um fato sem importância pra mim.