L’âme do capitalismo: dinheiro, ambivalência e pulsão de morte

*Por Carla Corte

Refletir sobre o dinheiro significa pensar diversas determinações; seu surgimento enquanto construção cultural e nas transformações que acarreta na estrutura da sociedade, como elemento de união e separação, da suposta liberdade associada, inexoravelmente, à jaula de ferro, do seu impacto na conduta e no comportamento, que vai do prazer do gasto à obsessão da posse, do desejo que enseja uma transmutação de meio em fim, mas fim último em que tudo conflui e de todos os valores que nele se anulam e que se estende à consubstanciação de uma entidade, de caráter metafísico, que com sua potência fictícia é capaz de obsidiar toda uma civilização.

A dimensão simbólica que associa dinheiro à transcendência está inscrita em uma esfera subjetiva do comportamento humano. Existiria assim uma semelhança psicológica da noção de Deus com a representação do dinheiro: o tertium comparationis é o sentimento de paz e segurança que a posse do dinheiro justamente garante, em contraste com todas as outras formas de posse e que, de um ponto de vista psicológico, corresponde àquilo que o homem devoto encontra no seu Deus; em ambos os casos a elevação acima do singular por nós encontrada no objeto desejado, a confiança na onipotência do princípio supremo, é que nos oferece esta coisa singular e mais humilde e nos permite, por assim dizer, transferir-nos para ela. Tal como Deus na forma de fé, também o dinheiro, na forma de concreto, é a máxima abstração que se alçou a razão prática (Georg Simmel, 2009, p. 17).

O homem é um ser que estabelece fins. Como decorrência, não vive na imediatidade do desejar e se constrói em um vetor de temporalidade. No agir teleológico do homem não haveria nenhum traço psicológico da transformação do meio em fim que fosse capaz de surgir de modo mais puro, como se faz representar na transformação de meio em fim do dinheiro.

Do ponto de vista da contribuição de Marx, tal fato ocorre porque o dinheiro se consubstancia em forma verdadeiramente social do valor, capaz de se autonomizar da forma valor de uso e funcionar apenas como valor, per si. Ora, é o sistema capitalista de produção produtor de valor. Nesse processo, todo as relações sociais se estabelecem para esse fim. O que surge como meio de acesso a uma “coleção imensa de mercadorias” torna-se fim em si mesmo.

O desenvolvimento do modo de produção capitalista, constituído sob o signo de contradições e antíteses, acaba por constituir um poder de liga social ao dinheiro e cuja centralidade caracteriza uma “dependência recíproca e multilateral dos indivíduos, de resto indiferentes uns relativamente aos outros, que constitui sua conexão social que se exprime no valor de troca [no dinheiro] (Marx, 2011, p. 92).

Se, por um lado, o dinheiro é o amálgama social que une indivíduos em um processo de trocas em que o trabalho está socialmente dividido, por outro lado, constitui também o seu oposto, o distanciamento, o isolamento e o desinteresse pelos outros. A indissociabilidade dos indivíduos no sistema capitalista de divisão do trabalho é o que permite a objetivação das relações trabalhistas porque os homens trabalham mediante pagamento, em dinheiro, pelo tempo de trabalho. O dinheiro se coloca, então, paradoxalmente, como elemento de união e de separação, de comunicação e acercamento, mormente através de comércio que, à medida que se torna global, confere a aproximação entre os indivíduos uma tonalidade tão-só instrumental, um caráter anônimo e sem vínculos que perdurem, ao mesmo tempo que tudo nivela e reduz a simples relação mercantil (Simmel, 2009, p. 11)

Assim, o caráter impessoal do dinheiro tem uma consequência psicológica que se difunde graças a sua impessoalidade e que permite reduzir todos os valores a dinheiro: a atitude blasé perante a existência. Na medida em que o dinheiro contrapesa uniformemente toda a pluralidade das coisas, exprime todas as distinções qualitativas entre elas mediante as diferenças do quanto; na medida em que o dinheiro, com sua ausência de cor e a sua indiferença, se eleva a denominador comum de todos os valores e se torna o mais terrível nivelador, corrói irremediavelmente o cerne das coisas, a sua peculiaridade, o seu valor especifico, a sua incomparabilidade (Simmel, 2009, p. 85)

Esse distanciamento mediado pelo dinheiro tende a desaguar na objetivação da vida: “as pessoas conferem a uma coisa (dinheiro) a confiança que elas não conferem umas às outras. Mas por que elas confiam? Obviamente porque esta coisa é uma relação entre pessoas objetivada; porque é valor de troca objetivos, e valor de troca não é nada mais que uma relação entre as atividades produtivas das pessoas” (Marx, 1977, p. 160, apud Carvalho, 1994). No processo de reificação das relações sociais, vale até apagar as estrelas se não rendem dividendos, como lamentou Keynes.

Toda a marca desse vínculo social está atravessada pela angústia da incerteza que encontra no obscuro mercado o receio de todo o esforço produzido ter sido em vão. Marx demonstra que o dinheiro, enquanto “escolha” para o exprimir o valor de todas as outras mercadorias, coloca-se como o símbolo do êxito ou do fracasso porque todas as mercadorias não podem circular sem exprimir o seu valor na mercadoria universal e tais mercadorias perdem a condição de valores caso fracassem no momento de sua conversão em dinheiro. O mercado, entendido como processo incessante de totalização das relações sociais, ao mesmo tempo que permite, também pune. E a permissividade ou punição só se concretiza a posteriori, tecendo um tempo de expectativas e inquietações.

O amor ao dinheiro, que os homens estabelecem como um projeto de liberdade e que acaba por lhes colocar grilhões, aparenta, assim, estar imantado por uma nesga de irracionalidade. Mas trata-se de uma enganosa crosta interpretativa porque a ação do homem está conduzida por determinações mais profundas que habitam o mundo subterrâneo e Freud, a partir da Interpretação dos Sonhos, demonstra existir uma racionalidade no inconsciente que está submergida, mas capaz de vir à tona (acheronta movebo).

como pode ser que um animal a si mesmo se reprima? E omitir a natureza da doença humana significa também omitir a natureza da cura. Se a causa do transtorno fosse a força, “expropriar os expropriadores” seria o suficiente. Mas se a força não estabeleceu o domínio do senhor, nesse caso talvez o escravo esteja de algum modo gostando dos seus grilhões. Se existe moléstia psicológica tão profunda, então faz-se necessária uma regeneração psicológica mais profunda (Brown, 1972, p. 292).

Para o discurso freudiano, o psiquismo constitutivo do sujeito está implicado em duas ordens de funcionamento concomitantes. A ordem do funcionamento interno e a dos acontecimentos externos. O psiquismo é “antes de mais nada diálogo com o Outro, encontrando na ordem da linguagem o campo para a sua produção e para a sua reprodução como fenômeno”. Outrossim, a cultura se estabelece como “ordem simbólica e condição de possibilidade do sujeito. Enquanto ser dialógico o sujeito é alteritário na sua estrutura, pois o sujeito do inconsciente é constituído pelo Outro. Está pois estabelecida uma dívida simbólica entre o sujeito e o Outro, capaz de estabelecer um pacto simbólico permissivo ao reconhecimento dos laços sociais. Seria, pois, nesse contexto de dívida simbólica, juntamente com o processo de reconhecimento que o dinheiro, enquanto espaço privilegiado, se inscreve na subjetividade dos homens. O psiquismo do sujeito está marcado por uma divisão estrutural constitutiva da subjetividade. Em suas palavras, “a subjetividade é concebida como sendo estruturalmente clivada (Spaltung), de maneira que o sujeito na psicanálise é figurado como sendo marcado por uma desarmonia fundamental, que não é um acidente patológico no seu percurso histórico, mas a sua forma originária de constituição” (Birman, 1994, p. 165).

No campo das relações sociais o dinheiro “realiza encontros”, fortuitos e sob a máscara de equivalente geral, na maioria das vezes. Não obstante, essa aparente só funcionalidade do dinheiro está intrincada em uma rede de representações que perpassa e em muito a dimensão utilitarista, porque atravessada pelo desejo. Do ponto de vista da linguagem psicanalítica, haveria uma regressão do uso do dinheiro como signo (meio de troca) para uma utilização simbólica (reserva de valor). O desejo de manter dinheiro como reserva de riqueza é um estado doentio que o homem se coloca com o intuito de construir uma “imortalidade ilusória”, um desejo ligado a anteposição da angústia de morte que, em termos freudianos, é ilusório porque o fetiche, substituto do poder, existe justamente para negar uma realidade que é, ela também, ameaçadora.

As ideias de possessão e riqueza insistem, obsessivamente, em se associar aos conceitos de dinheiro e ouro. O desenvolvimento mental do humano resulta em uma cadeia de transferências de interesses, de ideias simples e primitivas para outras mais complexas, que simbolizam as primeiras: ocorre uma regressão de um alto nível de significância para um nível mais primitivo e o significado real de uma ideia é perdido e essa passa a ser utilizada para representar ou transmitir o significado de uma ideia mais primitiva da qual foi o equivalente simbólico. Seria, portanto, um deslocamento no interior do aparelho psíquico a nomeação de dinheiro enquanto representação de riqueza (Jones, 1951, p. 127).

E “nunca é só dinheiro”. O dinheiro, ao encerrar determinações e questionamentos das mais diversas ordens, tal como o assunto sexo, está associado a hipocrisia e dissimulações, comporta dimensões que não se limitam ao racional e, do ponto de vista da psicanálise, está implicado em uma dimensão libidinal, inconsciente e que deita raízes na infância. Dentre outras determinações, haveria uma associação entre o valor do dinheiro e o valor dos excrementos para as crianças na fase anal do desenvolvimento psicossocial, definido pelo primado das pulsões parciais e caracterizado pelas pulsões de controle (Morano, 2003).

Freud (1908), em um artigo intitulado Caráter e Erotismo Anal estabelece uma relação entre fezes e dinheiro: o erotismo anal oriundo da ecoprese e da incontinência fecal na primeira infância do sujeito guarda equivalência simbólica com o dinheiro; uma forma sublimada de superação do erotismo anal.

“Na realidade, onde quer que tenham predominado ou ainda persistam as formas arcaicas do pensamento – nas antigas civilizações, nos mitos, nos contos de fadas e superstições, no pensamento inconsciente, nos sonhos e nas neuroses – o dinheiro é intimamente relacionado com a sujeira. Sabemos que o ouro entregue pelo diabo a seus bem-amados converte-se em excremento após sua partida, e o diabo nada mais é do que a personificação da vida instintual inconsciente reprimida. Também conhecemos a superstição que liga a descoberta de um tesouro com a defecação, e todos estão familiarizados com a figura do ‘cagador de ducados’ [Dukatenscheisser]’. Na verdade, segundo as antigas doutrinas da Babilônia, o ouro são ‘as fezes do Inferno’ (Mammon = ilu manman). Assim, aqui como em outras ocasiões, a neurose, acompanhando os usos da linguagem, toma as palavras no seu sentido original e significativo; parecendo utilizá-las em seu sentido figurado, está na realidade simplesmente devolvendo a elas seu sentido primitivo”.

Ferenczi (2011), retomando esse conteúdo, em um artigo intitulado “Sobre a Ontogenia do Interesse pelo Dinheiro”, argumenta ser o desenvolvimento do dinheiro um símbolo que ingressa em uma extensa cadeia de sublimações do conteúdo anal (fezes, terra, areia, pedras, dinheiro) até se afastar da aparência de sua origem: o prazer no conteúdo intestinal é o gozo do dinheiro, que é visto como nada mais do que uma sujeira desidratada e inodora que foi feita para brilhar. Pecunia não olet. O instinto capitalista repousa, assim, em componentes egoístas e anal-eróticos e a posse do dinheiro representa a substituição simbólica da formação reativa do anal-erótico reprimido.

A representação utilitária e social do dinheiro está imersa em uma intrincada rede de violência. Evidente que enquanto representação social de poder, se associa irremediável e miseravelmente a violência constituinte do homem.

Nos estudos de economia política as funções que o dinheiro exerce, valor de uso e valor de troca, é o que o permite assumir a centralidade no processo de acumulação capitalista. Esse duplo papel do dinheiro também encontra eco no saber da psicanálise. Enquanto valor de uso, o dinheiro se apresenta como bem supremo e evidencia o caráter perverso do gozo fetichista, de forma que a posse da riqueza em si impõe ao Outro o seu poder, de modo inclusive a negá-lo e imputar uma autossuficiência de forma tal que o sujeito supõe que é o detentor do seu ideal, regulando-se apenas pelo ego ideal e não se submetendo a qualquer ideal que o transcenda. Foi nesse registro libidinal que o discurso freudiano caracterizou o prazer da analidade e o erotismo presente no caráter anal. Enquanto valor de troca, há a necessidade de o sujeito saldar sua dívida simbólica e o Outro agora se torna necessário para o seu reconhecimento, uma vez que este se legitima pelo que o sujeito é e não pelo que tem. Nesse processo, o sujeito se submete a um ideal transcendente ao eu, não sendo, pois, o detentor do seu próprio ideal, mas regulando-se pelo ideal do ego. Enfim, o prazer sine qua non que se impõe ao sujeito é o reconhecimento do seu lugar como sujeito. Assim, “na economia psíquica do valor de troca, o sujeito está submetido à lei simbólica que regula as relações inter-humanas e funda a ética da polis. Porém, na economia libidinal do valor de uso, a subjetividade não reconhece qualquer lei simbólica, pois acredita ser a fonte da lei e quer impor de forma absoluta as suas exigências ao Outro em todas as circunstâncias (Birman, 1994, pags. 166 e 172).

E esse Outro é concomitante modelo e rival. O desejo pelo Outro é o núcleo da constituição do homem. Eis o desejo mimético, a base fundamental pela qual tudo surge: a imitação cria a cultura, a linguagem e também a violência. A violência mimética estrutura e confere estabilidade às relações mercantis: o dinheiro é simultaneamente o fruto da violência e a regra de socialização

O desejo está imerso em uma triangulariedade: na relação entre o sujeito e o objeto sempre se insere um mediador: toda relação é medida por um Outro e entremeada pelo desejo: o sujeito deseja o objeto de um outro sujeito e não o objeto em si, e o desejo do outro o valoriza. Surge, pois, a rivalidade mimética se apresenta não porque ambos os sujeitos desejam o mesmo objeto, mas em função da imitação do desejo do outro. Está posta, então, a possibilidade da crise mimética: a construção tensa entre desejo, objeto e violência. Tal crise pode acarretar uma situação de violência generalizada que coloca em risco a civilização. Importa, pois, buscar uma vitima para apaziguar a crise: Do “todos contra todos” (indiferenciação), o grupo se dirige para o “todos contra um” (diferenciação). O bode expiatório está escolhido e se canaliza assim esse vetor de violência em uma única vítima, porque se assim não o fosse, a comunidade se autodestruiria. A crise mimética é uma força cega e caótica que busca sair do domínio da indiferenciação. Essa projeção coletiva da violência dirige-se, de forma claramente inconsciente, em direção a um único ponto e o bode expiatório sofre uma descarga de energia agressiva, mas convergente. Restabelece-se, assim, uma nova ordem provisória até que novamente se reproduza outro ato de violência e sacrifício (Girard, 2008).

A introjeção da violência no próprio sujeito, por outro lado, se faz por intermédio da culpa. E essa carga permite afirmar que a psicologia do fato econômico é a psicologia da culpa: o dar é auto-sacrificante e o auto-sacrifício é autopunição. Pode-se inferir, portanto, que se a culpa é o lastro inconsciente do dinheiro. Isto permite entender que o complexo do dinheiro é uma neurose e, nesse sentido, todo dinheiro é neurótico.

Ora, na instituição arcaica do presente, o que o doador quer perder é a culpa. Chegamos assim a um nível adiante do significado do paradoxo psicanalítico do caráter anal do dinheiro. O dinheiro é riqueza condensada; a riqueza condensada é a culpa. Mas a culpa é essencialmente impura. “Os monges comem o excremento do mundo, isto é, os pecados”, diz Rabelais. O dinheiro é a culpa humana com a escória retirada até que seja puro cristal do auto-castigo; mas permanece imundo porque permanece culpado” (Brown, 1972, p. 308 ).

A natureza ambivalente do dinheiro permite remeter, em linguagem psicanalítica, também ao conceito de Tabu, que ao lado da noção de Totem faz Freud, em 1912, construir o que denominou um “mito científico” do nascimento da cultura.

Para Freud, o Tabu evidencia a ambivalência dos sentimentos (atração e repulsão, desejo e contra desejo). O termo, de origem polinésica, traduzido como algo próximo a “sagrado- proibido”, corresponde à palavra sacer nos antigos romanos. O significado de tabu está, portanto, associado a ideias aparentemente opostas: (a) santo, consagrado e (b) proibido, impuro. Qualquer ação contrária à restrição do tabu vale por sim própria: o tabu vinga-se a si mesmo. A compreensão do tabu pode, outrossim, lançar luzes sobre a natureza e a gênese da consciência moral: após a transgressão do tabu, torna-se possível falar em consciência do tabu e uma consciência de culpa do tabu. A luta se trava agora no interior do sujeito.

Em Totem e Tabu, Freud busca evidenciar o quanto os atos dos homens que compõe a historia estão atravessados pela “culpa trágica” por meio de uma interiorização do poder simbólico de um crime primordial. O autor, ao longo do texto, defende ser esse “mito cientifico” capaz de evidenciar a relação que se estabelece entre a dimensão individual e social. O recalque primário se instala e define os laços sociais com base na violência, remorso, arrependimento e sentimento de culpa. Esse manto de violência, constitutiva do humano, se estende para a sociedade. Nas palavras de Freud (1921), a psicologia individual é também, desde o inicio, psicologia social … e o que teve inicio com o pai se completa na massa.

No correspondente da segunda tópica freudiana, na ambivalência do humano, habita duas pulsões: ao lado de Eros, surge um instinto de morte e os fenômenos da vida se esclareceriam pela atuação conjunta ou antagônica dos dois (Freud, 1930, p. 55).

O sujeito, comandado pela violência, vai buscar o fim das tensões, a quietude, o retorno ao estado inorgânico que estão representados na pulsão de morte. Tal conceito se associa a busca pelo fim do sofrimento do ser humano que se vê em constante conflito entre a energia vital da sexualidade e a repressão, decisiva para que ocorra civilização. A cada nova renúncia se internaliza a satisfação agressiva sob a forma de culpa (Freud, 2010).

Essas renúncias são, em parte, impostas pela autoridade externa e, em parte, pela ação da autoridade externa introjetada, o superego: as pulsões sexuais são parcialmente sublimadas, transformando-se em ideais coletivos, e as agressivas, recalcadas, são transferidas ao superego que as dirige ao próprio individuo, sob a forma de sentimento de culpa. A culpa aumenta, portanto, com cada sacrifício da pulsão agressiva, ao invés de diminuir. Eis o mal-estar: frustração e culpa (Rouanet, 2003, p. 138).

Do ponto de vista da constituição do aparelho psíquico, o sujeito está sempre buscando o equilíbrio das forças que o determina. E esse desejo de equilíbrio, que pertence ao capitalismo, sempre presente, mas sempre rejeitado no crescimento, não é senão uma pulsão de morte. Destruir, depois se destruir e morrer também é o espírito do capitalismo: Nos mercados circulam bens cristalizando o tempo de trabalho dos homens, mas também sofrimento, culpa e ódio. O mercado, o complemento do capitalismo, é uma fonte terrível de igualdade teórica e, portanto, de mimetismo e ressentimento, bem como um incrível catalisador para o instinto de morte em ação na acumulação (Dostaler e Maris, 2009, p. 8, tradução livre).

Há, pois, uma intrincada rede de interesses que se faz representar pelo dinheiro, apreendido este como instituição social complexa e sujeita a mudança histórica, que pauta desejos de seus possuidores que se estendem para muito além do acesso ao conjunto de mercadorias. Responde a anseios das mais diversas ordens e deixa exprimir sua ambivalência quando concomitante se apresenta como vínculo social geral e expressão da violência coletiva. O dinheiro deve ser entendido como um tipo especial de relação entre os homens, fundador da ordem social e que se explica pela hipótese da violência social. No capitalismo, se desvela em uma forma especial, a violência das relações econômicas.

Carla Corte, graduada em Ciências Econômicas pela UNICAMP. Fez mestrado e doutorado em Teoria Econômica na mesma instituição. Atualmente, professora visitante na UNIFESP, campus Osasco. O tema é objeto de estudo de pós-doutoramento de caráter multidisciplinar (Economia e Psicanálise).

 

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2 Comments

  1. Pedro Quintiliano Paiva on agosto 30, 2018 at 1:13 am

    Agradeço enormemente por ter compartilhado este texto. Sem dúvidas umas das leituras mais lindas e incríveis que pude desfrutar

    Indubitavelmente se trata do tipo de leitura disruptiva, que muda completamente toda a sua visão de mundo, não só no que concerne a economia, mas principalmente em como a economia se articula com outras esferas sociais, individuais e psíquicas que compreendem a nossa existência.

    Agradeço mais uma vez por ampliar minha visão de mundo, agora diante de um horizonte ainda mais amplo e profundo.

  2. Lucas Madeira Bortoletto on agosto 30, 2018 at 10:42 am

    Sou formado em economia e Relações Internacionais, mas nunca havia lido um texto que mesclava minha formação acadêmica com conceitos de psicanalise. Achei muito interessante, pois me mostrou uma visão sobre a economia que eu jamais teria conhecimento apenas pelos textos que leio rotineiramente. Grande texto e parabenizo ao “Conexões Clinicas” por trazer um texto dessa natureza e de tal nível de complexidade que conseguiu abrir minha mente para novos panoramas de analises econômicas. Parabéns.

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