– Não brigue (muito) por causa da crise.

Desde 2014, ano de um período eleitoral pra lá de tenso e início de uma das mais graves crises político-econômicas brasileiras, tem sido muito comum nos consultórios e nas ruas escutar as pessoas dizendo de conflitos relacionais nos quais se meteram, desencadeados fundamentalmente por discussões políticas.

Algumas dessas brigas se dão no ringue da internet, sob condições de um relativo anonimato, onde sabemos que as pessoas se sentem mais confiantes e utilizam-se de uma postura e linguagem que não sustentariam em uma discussão tête-a-tête. Mas o fato digno é que a maior parte dessas confusões se dão entre aqueles com quem se tem um vínculo mais profundo: familiares, amigos de longa data e colegas de trabalho, com quem costuma-se encontrar todos os dias.

O tamanho do vínculo é proporcional ao tamanho do enrosco em que a confusão nos lança. A discussão política passa rapidamente das ideias às vísceras, os ataques se tornam cada vez mais pessoais e quem está envolvido na briga sente efeitos psicofísicos bem claros como hipertensão, taquicardia, tremores, enfim, o “sangue sobe” pra valer, fazendo lembrar aquelas brigas com irmãos e pais que você tinha lá atrás, quando tudo parecia ser questão de vida ou morte.

Para além das discussões, digamos, contornáveis, o que mais preocupa são as formas primitivas com as quais se tem reagido quando se impõe a diferença política com o outro. Basta alguma palavra mal colocada, algum tom de voz no áudio do Whatsapp e tudo descarrilha completamente: esse teu amigo, conhecido ou familiar converteu-se em uma ameaça para sua existência e a sensação é a de que se não partirmos para o ataque, seremos engolidos!

Ora, já há algum tempo sabemos que ninguém precisa ser um completo maluco para ter seus momentos paranoicos. Em tempos de crise, ou seja, de fragilização da confiança que estabelecemos com o mundo à nossa volta, é amplamente possível que pessoas aparentemente tranquilas e conscientes “batam em retirada”, rumo à posições muito primitivas do funcionamento mental. O psiquiatra e psicanalista britânico Wilfred Bion chamou esse funcionamento nos contextos grupais de “luta e fuga”, como se, diante da desconfiança com o ambiente em volta e o temor à destruição, assumimos essa postura radical como estratégia de sobrevivência.

Ocorre que, quando estamos no modo bater e correr, simplesmente nós já não estamos enxergando o outro. Toda a energia está concentrada no seu próprio corpo, como combustível para a explosão, toda sua libido deixou de investir o mundo e detém-se no próprio eu. Essa virada é fundamental, pois a partir de um certo momento não se briga mais com o outro e sim com um objeto imaginário, com um inimigo mentalmente construído. A argumentação na discussão que se segue pode ser super racional, fundamentada em argumentos cheios de lógica, mas não nos esqueçamos que o delírio paranoico costuma ser exatamente assim: bem pensado, argumentativo, no entanto narcísico, no qual o outro só comparece como perseguidor imaginário.

Crises políticas, econômicas e institucionais ameaçam certas ilusões que são importantes nos projetos de vida individuais e no próprio laço social. Imaginar que o amanhã será melhor tem um papel fundamental no hoje, fazendo com que as pessoas tolerem o desconforto que envolve conviver com o outro; quando a ilusão é quebrada, emerge toda a experiência de fragilidade, de frustração, de temor ao fracasso, ou seja, há uma nítida ameaça narcísica. Como é muito duro conseguir suportar essa fragilidade (e especialmente conseguir fazer do instável um terreno criativo), o que acaba ocorrendo é que falhas na comunicação tornam-se gatilhos para pretensamente “resolver” o mal-estar: o outro é o errado, o culpado, “se eu fracassar foi por conta dele”. Melhor um inimigo íntimo do que o desamparo absoluto, inominável. Psiquicamente, essa equação resolve o problema por alguns instantes, mas na sequência ele tende a voltar de maneira distorcida e intensificada: seu ataque ao outro será retaliado, impulsionando um novo ataque e um incremento da culpabilidade, e assim por diante.

Não é garantia de nada, mas pode ajudar a acalmar alguns ânimos se pensarmos que os ataques odiosos em discussões políticas, trocados entre sujeitos geralmente pacíficos e civilizados, e que podem possuir um grande afeto entre si, tem como pano de fundo uma sensação coletiva de risco e fragilidade. No fundo, estamos todos bem preocupados e isso deveria motivar mais união, mas nosso psiquismo é traiçoeiro, dotado de mecanismos de defesa que podem ter funcionado como estratégias de sobrevivência milhares de anos atrás – talvez em um dia de vacas magras, transformar um parente em um inimigo pode ter sido eficaz para que só um permanecesse vivo, com comida o suficiente. Sob ideais democráticos, na medida do possível, parece ser fundamental buscar estratégias mais eficazes de lidar com o outro nas dificuldades.

 

Bruno Espósito, Bruno Mangolini e Tomás Bonomi.

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