O papel do olfato no desenvolvimento da civilização.

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De todos os sentidos, o olfato provavelmente seja o menos falado, discutido e retratado, tanto no meio científico quanto no literário. Sim, é verdade que existem grandes produções dedicadas ao tema como o célebre livro “O perfume” (1985), do escritor alemão  Patrick Süskind, adaptado ao cinema em (2006) e a produção nacional “O cheiro do ralo” (2007).

Para muitos, os cheiros não tem grande destaque em suas vidas, a não ser pelas escolhas de produtos cosméticos ou associações ao paladar e, sobretudo, pelo incômodo provocado pelos maus cheiros (suor, lixo, excrementos, esgoto e etc).

Algumas pessoas associam os cheiros à memórias; dessa forma, ao sentirem um determinado cheiro, relembram de episódios que pareciam estar há muito esquecidos. Seria como se o cheiro possuísse alguma forma de inscrição arcaica na subjetividade.

Sobre o papel arcaico do olfato, pensamos ser interessante destacar dois dos significados da palavra essência, que designa tanto um odor, geralmente proveniente de óleos vegetais, como também a própria constituição da natureza dos seres, das coisas e das substâncias.

Freud foi um dos pensadores que se detiveram ao tema. O olfato aparece em sua obra associado à sexualidade infantil, ao fetiche (cropofilia), à desordens sensoriais na histeria e aos estágios ontológicos da evolução do homem.evolução do homem

No texto “Mal estar na civilização” (1914), Freud constrói uma espécie de genealogia da raça humana que teria como um dos momentos chaves a evolução da postura quadrúpede para a bípede. Uma decorrência direta desta nova postura refere-se à desvalorização do olfato – enquanto instinto sexual – devido o isolamento do contato direto do nariz com os odores provenientes do período menstrual.

Ao adotar a postura ereta, o homem estaria iniciando o importante processo de transformação da meta sexual, uma vez que tal atividade não mais corresponderia exclusivamente à reprodução. Neste momento, de acordo com o autor, surgiria no homem a experiência do prazer que estaria no cerne da diferenciação subjetiva entre a espécie humana e os animais.

Concomitantemente a esta passagem, quando o olfato perde sua função sexual reprodutiva, para Freud, inicia-se a constituição da noção de limpeza, pois os maus cheiros provenientes dos excrementos, que anteriormente estavam ligados aos impulsos sexuais, passam a ser recriminados e punidos. Desta forma, são associados à vergonha e, consequentemente, a limpeza passa a habitar a cultura como um dos principais valores em qualquer forma de educação.

olfato e sexualidadeContudo, Freud faz uma ressalva, pois apesar do valor civilizatório da limpeza, os excrementos permanecem valiosos para as crianças pequenas, sobretudo na ideia de que são partes destacáveis de seus próprios corpos. Neste sentido,  os primeiros objetos produzidos pelos bebês guardariam em sua essência aspectos reminescentes da função sexual do olfato.

Expusemos sinteticamente algumas reflexões de Freud acerca do papel do olfato no desenvolvimento da civilização. Se for do interesse do leitor explorar mais sobre a função dos cheiros na constituição subjetiva do homem e na formação dos sintomas, sugerirmos a leitura da tese de mestrado: “O Mau cheiro: Sobre as bases da sustentação psíquica”, de autoria de Tomás Bonomi.

 

Tomás Bonomi, Bruno Espósito e Bruno Mangolini.

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