– Open Dialogue approach: um novo modelo de tratamento para a psicose

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Desde os anos 1940 e 50, o tratamento a pacientes em grave sofrimento psíquico, em especial psicóticos, vem desenvolvendo-se em pelo menos dois grandes eixos: o da humanização e o da psicofarmacologia.

A vertente da humanização, na qual se incluem as estratégias de reabilitação psicossocial, a garantia dos direitos humanos, a psicanálise e as demais curas pela palavra, bem como aportes sociológicos e antropológicos, advém do contexto europeu pós-segunda guerra mundial, quando se constatou que a situação dos manicômios era praticamente idêntica àquilo que acabara de envergonhar o mundo: os campos de concentração, que retinham as pessoas em condições degradadas, sob violência institucional, impossibilitando a vida material e subjetiva.

No contexto sul-americano, as mudanças começaram a ser empreendidas a partir dos anos 1970 e 80. As ditaduras militares haviam aprofundado o sofrimento dos pacientes psiquiátricos, diante do descaso com os direitos mais fundamentais, e muitos militantes políticos foram “presos” nesses hospitais, conhecendo de perto o que era essa realidade. Com a redemocratização, tornou-se fundamental intervir em prol de um cuidado humanizado.

Pouco a pouco a realidade institucional foi se transformando através da garantia de direitos, reinserção social, da reconstrução dos espaços terapêuticos e de suas estratégias.

Por outro lado, as medicações psiquiátricas foram surgindo e consolidando-se como modalidade de tratamento prioritária. No mundo ocidental, é extremamente difícil encontrar um esquizofrênico, em tratamento, para o qual não tenham sido prescritas uma ou mais medicações. E isso vale inclusive para a realidade brasileira: uma pesquisa recente da UNICAMP mostrou que nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) de Campinas, por exemplo, mais de 98% dos pacientes em tratamento tomam remédios.

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Embora com uma série de efeitos colaterais nada negligenciáveis, o potencial dos psicofármacos na contenção dos sintomas psicóticos é nítida e na prática clínica poucos se arriscam a prescindir dessa ferramenta. As pesquisas científicas foram consolidando esse pensamento, fazendo da psicose e dos medicamentos antipsicóticos um casal quase perfeito. O que ocorre é que boa parte dessa produção científica talvez tenha tirado conclusões apressadas a respeito do tema, pois são pesquisas que avaliam o paciente em um curto espaço de tempo (algo entre 1 ou 2 anos). Aos poucos novas pesquisas, com recortes muito maiores de tempo, vem questionando a eficácia dos antipsicóticos, perguntando inclusive se eles não seriam a própria razão da cronificação da doença e dos prejuízos que frequentemente se associam a ela: a perpetuação do diagnóstico, a dependência ao tratamento, as perdas na vida laboral e familiar, entre outros fatores.

Dois anos atrás, o psiquiatra norteamericano Daniel Mackler foi até a pequena cidade de Western Lapland, no noroeste da gelada Finlândia, tentar entender que sistema de saúde é esse que tem os melhores resultados no tratamento da psicose em todo o mundo. As pesquisas que vem sendo divulgadas em revistas internacionais trazem resultados expressivos no que se refere à reinserção laboral dos pacientes, à qualidade de vida e ao próprio fato de que, com o passar dos anos, muitos deles deixam de preencher critérios para o diagnóstico de esquizofrenia: algo impensável no mainstream da psiquiatra, que define a doença como crônica, incurável e cujos prejuízos na vida vão se consolidando com o passar das décadas.

O que causa mais espanto no modelo de Lapland, no entanto, é o (não) uso da medicação psiquiátrica. Apenas 1/6 dos pacientes lá fazem uso de antipsicóticos, o que é algo absolutamente subversivo se compararmos com o tão difundido modelo norteamericano, por exemplo. Nos EUA, se o médico não receitar um antipsicótico nesse tipo de situação, está desrespeitando o protocolo e muitas vezes se arrisca a perder seu próprio título.

Até existe uma unidade de internação psiquiátrica em Lapland, mas por lá todos estão acostumados a vê-la vazia. Diante de um chamado da população para um possível caso novo, as equipes iniciam visitas intensivas à casa do paciente e organizam rodas de conversa envolvendo toda a família e outros pertencentes à rede de relações. Esses atendimentos, intitulados Open Dialogue approach, visam movimentar a questão emergente no paciente, que se supõe estar articulada com os outros à sua volta. Algumas medicações são usadas pontualmente e, como dissemos, evita-se ao máximo o uso de antipsicóticos. Ou seja, a terapêutica em Lapland é muito mais pela palavra e por uma articulação sociofamiliar do que pela química.

A partir de sua viagem à Finlândia, Daniel Mackler produziu um documentário no qual destrincha o funcionamento desse sistema de saúde mental, entrevistando diversos trabalhadores e pacientes. A seguir você pode ver o documentário completo e, mais abaixo, parte da literatura científica produzida em cima dessa prática. A estratégia do Open Dialogue vem ganhando reconhecimento e há tentativas de replicá-lo em outros lugares, como no Reino Unido e nos EUA. O trabalho com a psicose é muito complexo e talvez precisemos de muitos estudos e tempo para avaliar a efetividade desse trabalho, mas só de aparecer algo diferente e promissor, num terreno cujas práticas estão tão arraigadas, já nos deixa interessados e otimistas.

Bruno Espósito, Bruno Mangolini e Tomás Bonomi.

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