– Pesquisa de Harvard examina do que dependem a saúde e a felicidade

As pesquisas de cunho positivista tendem a recortar uma problemática e avaliá-la em um curto espaço de tempo. Essas pesquisas são hegemônicas no mundo ocidental pois são metodologicamente acessíveis e não necessariamente custosas para serem financiadas. De quebra, tem ampla aceitação midiática. Uma revista lança uma reportagem: “a ciência finalmente descobre que o ovo é responsável por doenças graves” e, alguns meses depois uma nova reportagem “cientistas desvendam que o ovo é fundamental para uma vida saudável, ao contrário do que se imaginava”. Assim como nós, você deve ter tido vontade de comprar as duas revistas. No entanto, talvez essa metodologia científica não seja a mais indicada para responder a questões complexas como “o que faz bem à saúde” ou “o que de fato nos torna mais felizes”.

A Universidade de Harvard, através de várias gerações de pesquisadores, está produzindo uma pesquisa que já dura 75 anos com o objetivo de explorar todos os fatores possíveis associados à saúde mental e física. Foram selecionados dois grupos de centenas de pessoas, um deles de estudantes de Harvard da época próxima à eclosão da II Guerra Mundial, e outro de moradores suburbanos em situações de vulnerabilidade, todos eles sendo avaliados ano a ano. Como é de se imaginar, a pesquisa é extremamente complexa e cara, seus resultados levam um enorme tempo para serem obtidos (grande parte dos primeiros pesquisadores já faleceu sem ter ideia desses resultados, por exemplo), mas hoje já é possível um olhar retrospectivo para a vida dessas pessoas, atualmente na casa dos 90 anos de idade, e dizer quais os fatores que mais se destacaram para produzir uma vida e uma velhice mais saudável e realizada.

A novidade é que, embora tenham sido coletadas informações as mais variadas, como amostras de sangue, histórico familiar, sucesso profissional e financeiro, etc., a única conclusão obtida realmente confiável foi a de que bons relacionamentos nos mantém mais felizes e saudáveis. Nosso nível de colesterol, os números de nossa conta bancária, a quantidade de amigos que temos nas redes sociais, enfim, tudo isso sucumbe frente à constatação de que precisamos de bons relacionamentos interpessoais, sejam eles amorosos, de amizade ou familiares, para nos apoiarmos mutuamente, o que constitui a dimensão mais importante no enfrentamento das dificuldades físicas e psicológicas.

A solidão é em geral deteriorante, assim como relacionamentos distantes ou afetivamente conturbados, de modo que a qualidade da relação é o que mais vale. Em suma, é o amor o que mais importa, um dos sentimentos ao mesmo tempo mais básico e complexo de nossas vidas. Se superarmos o desafio de manter relacionamentos sólidos e afetivamente consistentes, tenderemos a viver uma vida melhor; no entanto, esbarramos o tempo todo diante da dificuldade que exige sustentar esses relacionamentos. Não é difícil de imaginar quantos empecilhos colocamos a nós mesmos frente a possibilidade de viver uma vida mais amorosa, mais conectada e interdependente –  hoje esta pesquisa de Harvard nos mostra a necessidade de atentarmos a isso. Nada além do que a filosofia, o saber popular ancestral e o próprio Freud (“precisamos amar para não adoecer“) haviam apontado anteriormente, mas trata-se também de uma questão que ganha relevo em nossa vida contemporânea – repleta de virtualidades, intensidades efêmeras e aplicativos todo-sabedores que dizem permanentemente o que você tem que ser e fazer.

Para saber mais da pesquisa de Harvard, assista o vídeo acima e/ou confira a reportagem a seguir: https://www.inc.com/melanie-curtin/want-a-life-of-fulfillment-a-75-year-harvard-study-says-to-prioritize-this-one-t.html.

 

Bruno Espósito, Bruno Mangolini e Tomás Bonomi.

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