– Precisamos falar sobre os nomes dos remédios psiquiátricos.

prozac

Quem quer ter sucesso em vendas, sabe que uma das armas mais poderosas é dar ao seu produto um nome que gere o máximo de expectativas positivas no consumidor, criando a ideia de que algo se solucionará instantaneamente. Costuma funcionar assim com alimentos, produtos de limpeza, revistas de notícias e até com remédios.

O caso da indústria farmacêutica com relação às medicações psiquiátricas é particularmente curioso. Se por um lado essas empresas tentam revestir-se em um Exodusdiscurso de cientificidade, ou seja, de que estudos rigorosos atestam a eficácia desses remédios e isso seria per se a justificativa para sua prescrição e consumo, por outro lado parece ser o terreno onde mais se exploram as expectativas do consumidor ou das famílias em relação à medicação. Os nomes-fantasia (nomes que são dados pela Farmacêutica em cima do nome do princípio-ativo) mais do que nitidamente visam despertar fantasias de cura ou de potência no paciente (e quem sabe até nos próprios profissionais da saúde), algo que supera o efeito estritamente químico da medicação, mas que não deixa de ter um efeito direto na própria doença – mesmo que por um tempo determinado.

Eis que estamos mais uma vez diante do efeito placebo. Pergunte ao pesquisador mais cético e ele o confirmará: em testes de medicações no qual o grupo experimental recebe o remédio verdadeiro e o grupo controle recebe uma pílula inócua, ao cabo de algumas semanas um número expressivo de pacientes deste segundo grupo sente a melhora de seus sintomas. Na prática clínica, qualquer que seja o enfoque, os profissionais tendem a considerar o efeito placebo em jogo no tratamento, por exemplo quando o paciente refere melhora de sintomas mais básicos no extremo início de umaritalina psicoterapia.

 

Mas isso tudo, a nosso ver, coloca uma questão técnica e ética de primeira ordem. Sabemos que o efeito placebo existe, mas até que ponto temos o direito de explorá-lo, alimentá-lo e até iludir consumidores que estão desesperadamente procurando alívio para seus sofrimentos? A quem caberia regulamentar os nomes fantasia, assegurando que as pessoas não serão levadas a comprar apenas pelo jogo de palavras e significados envolvidos no nome do medicamento? Enquanto pensamos nisso, vale ver um pequeno dicionário politicamente incorreto de motivações fantasiosas dos remédios psiquiátricos, que criamos abaixo:

Ansilive® (diazepan, ansiolítico): alívio na ansiedade.

Menostress® (diazepan, ansiolítico): menos estresse.

Menotensil® (clordiazepóxido, ansiolítico): menos tensão.

Pondera® (paroxetina, antidepressivo): para ponderar.

Digassim® (fluoxetina, antidepressivo): saia da negatividade da depressão e diga sim!

Concerta® (metilfenidato): para consertar crianças que não aprendem e se comportam mal.

Exodus® (escitalopram, antidepressivo): fuja da tristeza e encontre o sentido da vida.

Abilify® (aripiprazol, antipsicótico): I Believe na cura.

Socian® (amissulprida, antipsicótico): pra socializar.

Helleva® (lodenafila, disfunção erétil*): eleva qualquer defunto.

* não é propriamente psiquiátrico, mas vale a menção!

 

Bruno Espósito, Tomás Bonomi e Bruno Mangolini

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One comment on “– Precisamos falar sobre os nomes dos remédios psiquiátricos.

  1. germán says:

    ¡sigan medicando por cualquier cosa, se pasan cual niños terribles!