– Psicanálise e neurociência

 

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Sigmund Freud era neurologista de formação. Extremamente dedicado, visava alcançar alguma descoberta de impacto no campo científico, conforme assinalam as biografias a seu respeito. Chegou a realizar alguns trabalhos importantes na sua área e até aventurou-se a pesquisar os efeitos terapêuticos da cocaína, da qual se sabia muito pouco na época, porém abandonou-a ao constatar os prejuízos de sua utilização. Mas foi somente ao redor dos 40 anos de idade que Freud revolucionou a ciência e a cultura através da psicanálise; para tanto, teve que extrapolar as barreiras da neurologia e seu método científico tradicional, já que o objeto de sua teoria e técnica eram o inconsciente humano e não haveria forma de alcançá-lo sem a contribuição da psicologia, antropologia, linguística, história, literatura, entre outras.

Tudo isso regado a uma boa dose de intuição e não somente verdade observável. Em termos de compreensão do funcionamento cerebral, se hoje ainda estamos engatinhando, é evidente que em 1900 neuro espelhoFreud não dispunha de quaisquer ferramentas para investigar o cérebro com profundidade. Além disso, suas pesquisas sempre foram voltadas para o interesse clínico – ele queria, em última instância, descobrir e tentar resolver a causa dos sintomas dos pacientes que lhe batiam à porta. Nesse contexto, Freud recorreu a muita observação (ou melhor, escuta afiada), seguido de construções de hipóteses sobre o funcionamento mental, o que ele chamou de metapsicologia.

Freud, portanto, escutava seus pacientes com afinco, e em seguida formulava sua teoria baseando-se no vasto conhecimento que dispunha e também criando modelos “virtuais” do funcionamento mental, sabendo que esses modelos atendiam muito mais aos desafios de sua clínica do que às exigências de comprovação científica objetiva. O curioso é que hoje, dispondo de melhores ferramentas, a neurociência está validando muito daquilo que Freud intuiu há mais de cem anos. Os modelos de funcionamento mental postulados por ele e aos quais não faltaram críticas por suposta “falta de comprovação científica”, são hoje relidos com espanto e admiração por neurocientistas que nunca antes foram próximos da psicanálise.

Hoje em dia, uma parcela importante da comunidade científica se arrepende por haver desvalorizado Freud e seus insights, algo que virou comum no final do século XX. Àquela época, havia uma enorme expectativa em justificar todo o funcionamento mental através da química cerebral, motivado pelo entusiasmo em torno das medicações psiquiátricas. Muito embora as medicações sejam aliados potentes no tratamento, sequer sabemos explicar precisamente como elas agem, quanto menos construir a partir disso um sólido modelo explicativo do funcionamento mental. Por isso, Mark Solms cita Eric Kandel (da Universidade de Columbia): “a psicanálise ainda é a visão da mente mais intelectualmente satisfatória e coerente”.

Separamos abaixo algumas notícias e artigos que dão conta dessa reaproximação entre neurociência e psicanálise. Quem sabe não conseguimos deixar as rusgas de lado e adentrar definitivamente em um período de mútuas contribuições entre consultório e laboratório, subjetividade e organicidade, psicologia e medicina. Mãos à obra!

Bruno Espósito, Bruno Mangolini e Tomás Bonomi.

 

“Depressão e culpa”

http://www.sciencedaily.com/releases/2012/06/120604181847.htm

“Freud está de volta” – Mark Solms

http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/freud_esta_de_volta.html

“Por que é o momento de olhar novamente à psicanálise” Revista Forbes

http://www.forbes.com/sites/toddessig/2015/02/23/why-its-time-to-take-a-new-look-at-psychoanalytic-psychotherapy/

 

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3 comments on “– Psicanálise e neurociência

  1. marcia el hage says:

    Amei o texto pq o “Projeto” sempre me intrigou e instigou a pensar na aproximação dessas duas ciências: psicanlise e neurociência. Parabéns pela reflexão.

  2. Estou engajada mente neste caminho apontado por vocês. Na continuação do meu trabalho sobre Spielrein pretendo estudar tambem a parceria que ela fez com Lúria que antes de ser o pioneiro do estudo do cérebro foi psicanalista pioneiro na Urss. Sou fã do Conexões

    • conexoesclinicas says:

      Prezada Renata Cromberg, é sempre um prazer ler seus comentários! Aguardamos ansiosos pelo seu próximo livro. Um grande abraço.