– Quando acaba um Acompanhamento Terapêutico ?

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O acompanhamento terapêutico (A.T.) surge como dispositivo clínico no Brasil na esteira da reforma psiquiátrica. De início chamados de “auxiliares psiquiátricos”, tratavam majoritariamente de pacientes psicóticos crônicos, e foram figuras importantes no processo do fechamento das instituições psiquiátricas e na criação de um novo sistema básico de atenção em saúde mental.

Passados quase 40 anos, muito se modificou na área, sendo que as as demandas por A.T.s aumentaram significativamente. Atualmente, essa modalidade de tratamento é solicitada para atender, além de uma multiplicidade de casos de psicopatologias graves, pacientes idosos com questões afetivas significativas (muitas vezes atreladas à algum tipo de demência), passando por acompanhamentos específicos com dependentes químicos, até uma inserção já bastante difundida no processo de inclusão escolar com crianças e adolescentes.at Apesar deste aumento significativo do escopo do A.T, algo bastante comum e definidor deste trabalho refere-se à uma clínica sempre bastante complexa e desafiadora. Ao toparmos um trabalho deste,  sabemos que as possibilidades de transformações importantes ou até mesmo pequenos ganhos são discretos. Qualquer coisa diferente disso acaba sempre causando frustração nos terapeutas. Além disso, pensamos que ao aceitar acompanhar uma pessoa nesta situação, muitas vezes estamos fazendo uma escolha radical de iniciar um atendimento que realmente nunca teria um fim ou um resultado final.

Podemos nos indagar: até quando vai o atendimento de um menino com espectro autista grave na inserção escolar? São trabalhos extremamente difíceis, que beiram o heroísmo, em que o A.T. realiza um verdadeiro malabarismo entre a família, a escola e a criança. Tal cenário permitiria um trabalho de anos, ou mesmo décadas; no fundo seria um trabalho sem fim. Na prática, ele dura o tempo que a instituição escolar ou a família conseguem sustentar as diferenças destas crianças e adolescentes com seus colegas de classe.

Nos casos de psicoses graves, quando a pessoa se encontra em uma situação de extrema fragilidade afetiva (e justamente por isso possui praticamente nenhum vínculo), o A.T., quando consegue desenvolver um laço significativo, passa a ser uma figura fundamental na vida dessa pessoa. Então, poderíamos pensar qual seria o momento adequado para o fim deste atendimento?

Idealmente (e algumas vezes é isso mesmo que ocorre), tal vínculo com o A.T pode funcionar comoat 2 ajuda ou mesmo ponte para que alguns pacientes consigam criam novas situações de pertencimento a grupos sociais – trabalho, lazer, escola, esporte, cultura e etc – de forma que prescindam da função do A.T. como base fundamental de seu equilíbrio psíquico. Contudo, por mais que surjam novos cenários e pessoas para o paciente, o mais comum é que a figura do A.T. continue a ter um papel fundamental em suas vidas.

Voltando a pergunta, até onde vai esse A.T.? Muitas vezes esbarramos no limite do paciente quando acaba entrando em uma crise grave ou vindo a falecer, ou nos próprios limites e disposição do terapeuta quando não consegue mais atendê-lo.

Pode-se perguntar de que valia tem um atendimento com finais tão pouco claros e satisfatórios, a nosso ver tal trabalho se verifica e apresenta toda sua beleza em situações do cotidiano que muitas vezes precisam de uma lupa para serem percebidas. O que representa para um menino psicótico grave fazer um primeiro amigo? O que significa para uma senhora de idade com algum grau de demência conseguir rememorar uma importante lembrança enquanto toma café com bolo? O que significa para um adolescente que não consegue sair do quarto há dois anos ter alguém para conversar sobre seus assuntos prediletos?

Parece que nesses cenários o processo é mais importante que o fim, não?

 

Tomás Bonomi, Bruno Mangolini, Bruno Espósito.

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2 comments on “– Quando acaba um Acompanhamento Terapêutico ?

  1. Lidia says:

    Muito interessante esse artigo.

  2. Renata Udler Cromberg says:

    Muito bom. Claro realista e vital. Todos os fins são precários. O que vale está nos meios é neles que está o sentido da vida, as pequenas grandezas cotidianas e singulares que o AT constrói da sua abertura ao outro sempre singular.