– Quebrando o viés “Made in USA” (por Flavia Cerruti)

pombas

Viver em Nairóbi (Quênia) me fez sentir pela primeira vez a responsabilidade que carregamos com a nossa imagem. Sou latina e sempre me identifiquei com a cultura do hemisfério Sul. Eu passei um pouco mais de um ano viajando em bicicleta pela América do Sul e, sempre que me deparava com alguém adaptado à cultura do hemisfério Norte, tentando compreender o caos latino, era um prazer para mim explicar que não nos comportamos desta maneira sem motivo. Podendo, compartilhava um pouco da nossa História: período de colonização, neocolonização, etc. Sempre me aborreceu seguir padrões exteriores e não construir nossa própria História.

Então, eu vim para África e uou! Aquela latina descolada se deu conta do quanto seus padrões são muito mais atados à cultura do hemisfério Norte do que ela imaginava.

Em Nairóbi, a população original é 99% negra, então, se você é branca, automaticamente você é enquadrada na categoria muzungo (gringos), não importando se é da Alemanha, do Brasil ou dos EUA. A princípio, era uma faca no peito: “Como assim você pode me colocar no mesmo balaio que um francês?!? Eu sou do Brasil, um dos países com maior nível de desigualdade do mundo! A gente também foi colônia! 

Eu ando na rua e me gritam: “Muzungo! Muzungo! Muzungo!” (E, muito curiosamente, tenho uma amiga carioca negra que está feliz da vida, pois, pela primeira vez, não está sentindo-se discriminada). Mesmo que eu morasse aqui há cinco anos, ainda assim me diriam “welcome, muzungo!”.

Trabalho numa média empresa que produz mel e produtos naturais. No escritório, solicitaram que eu participasse das reuniões semanais da gerência. Eu era a única muzungo e não entendia mais de metade do que falavam. Não pelo inglês misturado com kiswahili (idioma local) ou pelo contexto, mas pelo tom de voz tão baixo, quase inaudível. Eu ficava metade da reunião: “Ahnn? Quêee?? Can you speak louder, please?!”.

Conversando com amigas daqui percebi como sempre foi normal para elas, e ainda é entre grande parte dos adolescentes, respeitarem uma hierarquia. Não se sentem dignos para expressar suas opiniões e crescem evitando qualquer tipo de conflito. É um nível de obediência análogo ao das condições de escravidão. Um dos propósitos mais comuns entre os projetos sociais daqui é desenvolver autoconfiança e habilidades cognitivas, como a comunicação, entre os jovens. Nunca vi tantas pessoas que executam programas de motivação para jovens.

O fato de ser branca já é suficiente para intimidá-los, mesmo que você seja latina. Durante minha viagem em bicicleta, conheci um estadunidense que viajava em moto. Branco, bonito e jovem, ele me contou como, muitas vezes, ao chegar em pequenas vilas, achavam que ele era Jesus!

Outro dia assisti ao documentário God loves Uganda (dirigido por Roger Ross Williams) que trata como os missionários evangélicos estadunidenses estão modificando a cultura africana impondo seus valores cristãos. Um dos pontos principais é a questão da homossexualidade, sendo demonizada por cristãos, que realizam tamanha lavagem cerebral, a ponto de ter sido permitido por Lei a perseguição e exterminação LGBT em Uganda até 2012!

Tirando o absurdo, que deveria ser óbvio, retratado no documentário, fico me perguntando quantos outros padrões sociais mais, tão absurdos, já nos parecem certos. As igrejas em todas as esquinas, os estereótipos de beleza, as músicas, os filmes, as franquias, as marcas, as comidas, a dependência de celular, o crescimento atrelado a padrões econômicos…. Como diria Galeano, se Alice renascesse hoje, nem necessitaria atravessar um espelho.

E não são apenas referências, eu me comporto assim, eu sinto empatia por essas tendências e nunca me dediquei a mudar, pensando que “Sou latina, sou diferente”. Minhas escolhas estão muito mais próximas a padrões globalizados do que eu desejava. Eu precisei estar fora da América Latina para sentir esse incômodo.

Dada esta percepção, há um desafio ainda maior: como treinar para romper com estes comportamentos e empatias, inconscientemente impostos? Há uma intenção genuína de simpatizar por coisas conhecidas, portanto, como podemos forçar o racional a mudar comportamentos emocionais adquiridos?

Fez parte do meu programa de estudos no Amani Institute uma jornada pessoal de autoconhecimento. Uma vez que o Instituto visa desenvolver profissionais que criem impacto social, não há melhor protótipo do que você mesma. Não necessitamos apenas de habilidades técnicas, mas também de habilidades espirituais.

Neste processo, li o livro Let your Life Speak. Nele, o autor Parker J. Palmer compartilha insights de sua depressão com todos que buscam o verdadeiro propósito de suas vidas. De acordo com Palmer, o capitalismo construiu um legado em que a crença no poder de fatores externos é muito maior do que no nosso poder interior (quantos já não trabalharam em sistemas baseados na crença de que as únicas mudanças que importam são as que podem ser mensuradas? Quantas vezes viu pessoas matarem sua criatividade por políticas e práticas tradicionais acerca do que podem fazer?).

palmerSeguindo, o autor cita cinco “monstros” que encarou durante sua depressão, que tratam de comportamentos e crenças socialmente notados:

  1. A insegurança acerca de nossa identidade e a necessidade de nos mostrarmos para o mundo, faz que com que nossa real identidade dependa mais de uma performance ou algum papel social que assumimos, podendo nos levar à depressão.

  2. Muitos de nós acredita que o universo é um campo de batalha, um binomial em que só se pode ganhar ou morrer, como se não houvesse consenso e cooperação. O que nos leva a temer, pois, se não ganharmos, morreremos.

  3. A convicção inconsciente de que não há o acaso; de que tudo que vier a acontecer, somente acontecerá porque nós o realizaremos. Como se não existisse a possibilidade de outros atos, inclusive melhores que os nossos. Uma patologia em que temos que impor nossas vontades e, caso contrário, nos estressamos, desesperamos, etc.

  4. Queremos organizar e orquestrar as coisas, como se o caos não fosse condição inerente da criatividade.

  5. Negamos a morte. Perpetuamos atos e projetos que já deveriam ter morrido; logo, tememos falhar. Tampouco compreendemos a morte associada ao nascimento de algo novo.

O mundo é injusto, mas, principalmente, porque nós o fazemos assim. A partir da conscientização dos aspectos históricos e sociais que marcam a desigualdade mundial, criamos empatia com o outro. No entanto, acredito que este processo se inicia mergulhando dentro das nossas próprias vidas: questionando nossas referências, expondo nossas dores e nos unindo para quebrar vieses.

Durante minha passagem por São Paulo, entre a viagem de bicicleta e a vinda para Nairóbi, me chamou a atenção como, neste um ano fora, apesar de toda crise política, as comunidades feministas, negras e LGBT fortaleceram-se. As sociedades que valorizam a diversidade são muito mais interessantes. Não há a agonia de uma sociedade desigual, esse sentimento de sermos enquadrados e de nos enquadrarmos na imagem que nos foi atribuída.

Este texto inspirou os músicos Marília Calderón, Marcio Policastro e Sander Mecca a comporem a música Muzungo:

* Flavia Cerruti é administradora, estudante de inovação social no Amani Institute e trainee de Gestão Pública no Vetor Brasil.

Deixe uma resposta