Relatos de uma iniciante na prática do Acompanhamento Terapêutico

por Roberta Veloso de Matos*

No primeiro encontro com Marlene, como iniciante na prática do AT[1] (Acompanhamento Terapêutico), choro diante da sua fala da dificuldade de estar com sua família. Marlene traz junto de si, como diz Drummond, “ombros que suportam o mundo” junto a uma fragilidade que parecia que o vento daquela tarde fria de sábado a levaria.

Minha emoção estampada poderia ter respondido uma demanda – até então desconhecida – de Marlene ser colocada no colo? Encaro como o início da construção do vínculo entre a at[2] (acompanhante terapêutica) e a paciente:

“[…]o acompanhante terapêutico vai se situar necessariamente em um lugar diferente do lugar do terapeuta ou do psicanalista. Isso é um ponto importante a destacar, não só pelo tipo de atividades, o tipo de instruções que se estabelecem geralmente como objetivos de sua intervenção, mas porque uma das chaves de sua eficácia consiste em que o acompanhante terapêutico possa se oferecer prevalentemente como semelhante, diferente da disparidade essencial à função do analista.” (PULICE, 2012).

O pedido de AT para Marlene, professora aposentada da rede pública de ensino, na casa dos 60 anos, veio de seu analista em que ela está em tratamento há alguns anos. Logo no primeiro encontro entre o analista, a at e Marlene pensou-se, tendo como ponto de partida a fala da paciente de uma angústia de ir ao encontro do Outro em que a única possibilidade era se isolar, que o encontro entre a at e Marlene, despontasse novos encontros, novas formas de se relacionar, de estar com o Outro não só pela via da angústia, mas também pela via do prazer.

O projeto terapêutico pensado para Marlene era então, por um deslocamento em seu cotidiano, ajudá-la a deslocar do lugar de eterna órfã, da que está à espera que o Outro, como a figura materna, lhe diga do que se trata seu choro, de saber sobre si, questionando a partir da escuta da at sua apatia e dificuldade de se relacionar seu desejo frente a uma união de contingências – abandono materno, vulnerabilidade social –  que produziu uma marca tão forte em que todas as suas interações são encaradas e encarnadas com grande sofrimento e que a deixavam no limbo da angústia em saber o que o Outro queria dela.

A necessidade do Outro Primordial, encarnado pela mãe, é a trama oculta que permeia todos os encontros de Marlene com o Outro, uma tentativa de reviver a necessidade de amor impossibilitada quando, aos dois anos de idade, Marlene é deixada por sua mãe em um orfanato e, 10 anos depois, é resgatada pela mesma.

Marlene conta em nossos encontros que a mãe visitava ela e os irmãos esporadicamente no lar, como ela chama o orfanato localizado no interior de São Paulo, e que a cada despedida da mãe ela “esperneava” dando muito trabalho para as “tias” do lar, o que acarretava em uma série de castigos pela “má-criação”. Esperar que a mãe voltasse para levá-la de volta para casa parece ser um importante fator para entender a espera de Marlene pelo Outro, um Outro que possa ampará-la em suas angústias e acompanhar seus passos, assim como uma mãe que ajuda o filho a se manter em pé nas primeiras tentativas de andar, que vai ao seu encontro quando ele se machuca, desobedece a professora ou se sente mal, consolando-o em seus desencontros no laço social e contingências da vida.

“aquele cuja necessidade de amor não é completamente satisfeita pela realidade se voltará para toda pessoa nova com expectativas libidinais e é bem provável que as duas porções de sua libido, tanto a capaz de consciência quanto a inconsciente, tenham participação nessa atitude” (FREUD, 1912).

Assim, o desejo de Marlene é que o Outro vá ao seu encontro e dê conta de sua angústia, de seu desamparo e impotência e a fantasia era de que esse Outro não se unia à ela, pois sua apatia, “sem-gracisse”, e falta de conteúdo afastava todos e sem nada a oferecer ninguém queria estar com ela. Isso desresponsabilizava-a perante seu desejo de ir ao encontro do Outro, afinal se nada tenho a oferecer a ele, logo ele não me quer, logo perpétuo meu lugar de abandonada.

Posto isso, voltemos ao projeto terapêutico pensado a partir da escuta da at diante do desejo de Marlene. Tendo em vista que a demanda partiu do analista o desafio era também, no estabelecimento dos primeiros laços transferenciais entre a paciente e a at, não construir uma demanda do sujeito, já que ela – demanda – estava posta e preconizando a ética da psicanálise, não seria atendida. O que estava em jogo era a sutileza da at para emprestar seu corpo para o corpo de Marlene e, a partir dessa presença, produzir novos movimentos em seu território, físico e existencial, para que ela pudesse fazer suas próprias incursões no laço.

No primeiro encontro esse movimento já se dá. Na hora de nosso encontro, quarta-feira às 10h, Marlene propõe de ir junto com a at buscar um remédio que havia mandado fazer há dois meses. Destaco o tempo, pois Marlene fala de uma paralisia para dar conta do afazeres do dia a dia e penso que esse pequeno movimento já evidencia a implicação subjetiva da acompanhada no espaço do AT e em sua própria disposição de lidar com seu espaço/tempo.

No percurso até a farmácia ela encontra uma ex-colega de trabalho que, como ela, também está aposentada e lhe pergunta: “como está a vida de aposentada?” Marlene responde um categórico: “tudo bem”, ao passo que a colega imprime grande alegria ao chegar ao fim de uma vida de trabalho: “agora sou uma vagabunda, saio a hora que quiser, faço compras, como fora e volto quando bem entender”. As duas riem e quando a colega vai embora, Marlene se questiona dizendo que gostaria de ficar feliz assim por pequenas coisas. Digo então que ela poderia ficar, afinal hoje fez algo que relatou no início do encontro: não conseguir resolver coisas básicas do cotidiano.

“Neste contexto, não podemos deixar de considerar que essas ocasiões são propícias para a emersão de certa dimensão do subjetivo, que supõe o aparecimento de uma espacialidade e uma temporalidade psíquica que justamente a situação de passear permitem que se manifestem”. (PULICE, 2012).

No desenrolar dos encontros Marlene vai me contando sua história de vida, como se deu a ida para o orfanato e suas tristezas por carregar o estigma de uma criança do “lar”, as peripécias para driblar o desencontro com a mãe no encontro com outras pessoas que representavam um traço do amor materno, por ora perdido, o retorno da mãe com novos irmãos e a convivência com ela depois de estarem juntas novamente. A trajetória como professora de história e, novamente, sua dificuldade se relacionar, dessa vez com os alunos, a militância em um partido de esquerda, seus relacionamentos afetivos, o tempo que ficou afastada de todos por se dedicar somente ao trabalho e a fonte de suas angústias: a dificuldade de estabelecer vínculos e ir ao encontro do Outro.

“Temos que entender que, de algum modo, os pacientes com que costumamos trabalhar em acompanhamento terapêutico são como crianças que quebraram ou perderam todos seus ursinhos – e em alguns casos, nunca os tiveram – e uma das chaves na direção da cura é descobrir qual é a trama oculta dessa cena, que o precipita à perda de seus vínculos afetivos, ou aborta toda possibilidade de estabelecê-los.” (PULICE, 2012).

Minha presença como at têm se dado então não para atender essa demanda de Marlene pelo Outro que apazigue sua tristeza e preencha sua solidão, mas uma aposta para que ela possa tecer, a partir de sua fala fantasiosa de um repertório escasso de conteúdos culturais, novas possibilidades de estar com o Outro em atividades que são do seu  interesse como teatro, cinema, exposições, debates contemporâneos e, nessas incursões pelo cotidiano, sua posição subjetiva possa ser redirecionada causando efeitos em seu processo de análise, como já tem se mostrado: questionando sua necessidade de aprovação das pessoas, uma nova percepção sobre sua vida ter uma história, de sofrimento, mas que há história sim, as implicações que seu posicionamento causa no Outro e, até mesmo, uma tentativa de fazer as pazes com sua mãe, que penso ser a porta de entrada para que seu desejo se articule.

Na singularidade de Marlene e a partir de sua história de vida o dispositivo do AT busca tecer, pelo vínculo transferencial, novas possibilidades dela estar no laço social  produzindo efeitos em sua vida a partir da escuta clínica da at e da dinâmica que um outro produz ao participar do cotidiano de sujeitos que se encontram em momentos de extremo empobrecimento social e afetivo.

“Resta colocar, por último, outro aspecto positivo do estabelecimento de um vínculo de características amistosas: o efeito de “bálsamo” – vamos chamá-lo assim- gerado, muitas vezes, pela presença de um semelhante, de alguém que possa simplesmente se oferecer ao diálogo, a estar ali presente em um momento em que o sujeito se encontra vencido pela ansiedade, pela angústia ou outros modos de expressão de sua crise. Comprovamos com frequência que essa simples presença gera uma substancial sensação de alívio, permitindo que esse mal estar que acossa o paciente nesses momentos possa ter, pela via da palavra, alguma tramitação” (PULICE, 2012).

Roberta Veloso de Matos é acompanhante terapêutica e psicanalista.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

FREUD, Sigmund. Obras completas Volume 10. São Paulo, Companhia das Letras, 2010

PULICE, Gabriel. Fundamentos Clínicos do Acompanhamento Terapêutico. São Paulo, Zagodoni, 2012


[1] Para a prática do Acompanhamento Terapêutico adotou-se o uso das palavras em maiúsculo

[2] Para a função exercida pela profissional usaremos a nomeação de acompanhante terapêutica em minúscula

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