– Sobre Grupos Terapêuticos.

 

cadeiras-grupo-psiSem um grupo de pertencimento, ou alguns grupos, não somos literalmente ninguém. Tal como inúmeras disciplinas nos ensinam, o bebê humano nasce muito mais despreparado do que outras espécies e, portanto, precisa de antemão de um grupo que o receba, assuma seus cuidados e participe ativamente de sua constituição. De certa maneira é possível dizer que “assina-se um contrato” com o grupo social, no qual o grupo reserva um lugar para este novo sujeito, cuidando-o e protegendo-o, e este assume em troca o compromisso de respeitar algumas normas fundamentais, por exemplo renunciando a seus impulsos de satisfação mais individualistas. Crianças ou adultos, estamos todos às voltas com isso, pois a dependência em relação aos grupos não se extingue ao longo de nossas vidas, embora se transforme.

Pensar em grupos é, para nós, uma maneira de não sucumbir à leituras familiaristas, nas quais pai e mãe seriam os responsáveis por tudo que somos, nem organicistas, nas quais o que somos já estaria inscrito em nossos genes e órgãos de antemão, nem tampouco à leituras exclusivamente sociais do problema, nas quais seríamos produzidos pela sociedade. Evidentemente, tudo isto e mais outros tantos fenômenos têm sua parcela de contribuição, mas é possível pensar que o âmbito dos grupos situa-se em uma posição estratégica, um ponto nodal em que todas essas vertentes da nossa constituição se encontram.

adolescentes_0

A famosa crise da adolescência, por exemplo, diz respeito muitas vezes ao sofrimento e instabilidade causado por um gigantesco conflito: de um lado, os ditames dos grupos primordiais, principalmente o familiar, muito arraigados e internalizados até então, e do outro lado os discursos e desejos que os outros grupos trazem à tona – dos amigos, mídia, etc. O descompasso entre os mundos que o adolescente circula e tem de enfrentar são difíceis de serem assimilados, provocando nele reações muito polarizadas: ora quer recuar do conflito, voltando à infância e à segurança de seus primeiros grupos, ora quer “desfiliar-se”, renegar tudo que viveu e acreditou até então, para entregar-se a um mundo completamente novo.

Mais além das amplas discussões que se abrem à partir disto, cabe abordarmos um assunto que é para nós da maior importância: os grupos enquanto alvo de tratamento, ou seja, os denominados “grupos terapêuticos”.

Em nossos trabalhos em instituições, principalmente na saúde pública, temos lançado mão deste recurso, grupo teraPêuticocoordenando grupos que têm como principal objetivo o tratamento psíquico. Não estamos sozinhos nessa empreitada, já que diversas experiências de grupos terapêuticos podem ser identificadas nos quatro cantos da cidade; no entanto, ao contrário das psicoterapias individuais – que já foram amplamente debatidas -, o debate com relação às psicoterapias de grupo ainda permanece obscuro, pouco teorizado e divulgado. Do nosso ponto de vista, isso se deve principalmente ao preconceito dentro do próprio campo teórico-científico, que tende a sobrevalorizar o tratamento individual em detrimento do grupal, sendo este uma maneira somente de “atender mais em menos tempo”; do mesmo modo, a população passa a crer que sempre “seria melhor se tivesse um espaço de atendimento individual”, sendo o grupo uma segunda opção. Além disso, quem trabalha com grupos já sentiu na pele a dificuldade que é processar tudo o que acontece neles, compreender e teorizar cada sessão, sendo necessário vencer este obstáculo no intuito de construir fundamentações teóricas para as experiências grupais e potencializá-las.

Apesar das dificuldades, a vivência prática com grupos terapêuticos traz demonstrações de uma eficácia digna de muito respeito – desde que a terapêutica grupal esteja bem implementada e fundamentada teoricamente. Através da psicoterapia em grupo, observa-se grande melhora psíquica dos participantes, no que concerne à ampliação da consciência, ganho de autonomia, melhor relacionamento interpessoal (dentro e fora do grupo terapêutico) e na construção de estratégias para lidar com ansiedades/angústia.

grupo-playmobilAlém da fundamentação teórico-técnica, a indicação terapêutica é uma questão relevante, já que existem pessoas e momentos específicos de vida para os quais a estratégia de grupo se mostra especialmente eficaz: crianças com graves comprometimentos psíquicos e/ou problemas de conduta, que precisam de mediação para relacionar-se com outros; adolescentes com aspectos borderline ou em momentos de maior crise de identidade; adultos com transtornos psicóticos ou dependentes químicos; todas estas situações possuem, a princípio, indicações de psicoterapia em grupo.

O processo grupal que favorece e incrementa a potência terapêutica tem a ver com a maior possibilidade de identificação entre os participantes, a construção de um ideal em comum, a instauração de regras a serem compartilhadas e a possibilidade de cada membro oferecer seu pensamento quando o processo reflexivo do outro paralisou. Tudo isso diz respeito ao complexo e específico campo da psicoterapia em grupo, e abordaremos suas minúcias em novos posts adiante. Além de praticá-los, falar sobre grupos é, para nós, um compromisso com um recurso terapêutico muito potente e que foi muitas vezes relegado a segundo plano, principalmente quando contrapostas à terapias individuais ou farmacológicas.

Vivemos em uma época que incita a um individualismo desenfreado, como se pudéssemos desprender-nos e superar nossa vocação gregária de ser humano; uma época em que milhares vivem às margens da dignidade, onde os pactos sociais e a potência coletiva são permanentemente ameaçados pelas variadas formas de violência e pela omissão do Estado. Nesse cenário, os grupos não só correspondem a uma estratégia terapêutica, mas também a um compromisso ético-político com a reconstrução dos âmbitos grupais, aos quais dependemos inevitavelmente.

Bruno Mangolini, Bruno Espósito e Tomás Bonomi

Deixe uma resposta