Sonhos: dos xamãs a Freud e Jung.

Desde que o homem é homem, os sonhos são matéria de grande deslumbramento e mistério. Ao longo da história já lhe foram atribuídos inúmeras significações: místicas, religiosas, premonitórias, ligadas aos movimentos da natureza, aos povos ou à vida pessoal do sonhador.http://earthstation1.simplenet.com

Em diversas civilizações antigas os sonhos eram considerados um contato direto com o divino. Os sonhos continham mensagens que eram entendidas como avisos premonitórios de entidades sagradas e podiam significar desde um bom augúrio para as plantações vindouras, como uma punição através da chegada de um povo inimigo ou doenças. Geralmente um ancião ou um xamã era encarregado de decifrar tais mensagens; vestígios arqueológicos no formato de inscrições, pinturas e esculturas retratando o momento da interpretação dos sonhos foram encontrados em diversas partes do planeta, desde civilizações
asiáticas como o povo Kmer, os Maias nas Américas e os egípcios na África.

 

sonho medievalNa idade média, com a evolução da tradição cristã nos povos ocidentais, os sonhos passaram a se associar a ideia de pecado e de incorporações demoníacas. No início da idade moderna surgem os primeiros dicionários de sonhos que funcionam como um manual em que um conteúdo sonhado teria um significado fixo independente do sonhador.

As diferentes formas de compreender os sonhos seguem coexistindo, mesmo hoje em dia. Práticas religiosas e espirituais bastante difundidas utilizam os sonhos como forma de comunicação com os mortos e entidades divinas, ainda hoje, além de ser bastante fácil encontrar dicionários de sonhos sendo vendidos em bancas de jornal.

No campo da ciência atual, o advento de técnicas avançadas de neuroimagem permitem localizar no cérebro as áreas que são mais estimuladas durante o sono. Estudos atuais indicam que os sonhos apresentam relações com a fixação das memórias, as percepções e as emoções (veja aqui matéria da Revista Mente & Cerébro que aborda a questão).

No célebre livro “A Interpretação dos sonhos” (1900), Freud postula que o sonho realiza desejos inconscientes. O conteúdo do sonho tem como matéria prima nossos impulsos mais primitivos relacionados principalmente à sexualidade e agressividade; estes conteúdos são articulados de maneira complexa (condensação e deslocamento) com memórias de nossa vida e eventos recentes (restos diurnos), resultando no próprio sonho, que se manifesta através de imagens e discursos cifrados. Os sonhos seriam portanto uma via privilegiada de acesso ao inconsciente. Neste sentido os sonhos sempre carregariam algo de bastante particular da história da vida do sonhador e, somente ele, conteria as chaves – mesmo que inconscientes – para decifrá-lo.

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Outra característica do sonho é ser o “guardião do sono”.  Isto porque ao fecharmos os olhos, nos desligamos dos estímulos externos recebidos ao longo do dia e, enquanto o corpo recompõe-se, permanece a atividade mental que é responsável pela ligação das excitações internas; sem este trabalho de ligação, as excitações permaneceriam de forma pulsante e caótica no psiquismo, o que acabaria por despertar o sonhador. Portanto, o sonho seria justamente a operação de encontrar um destino para esta incessante fonte de excitações.   

Contrariamente aos sonhos, os pesadelos falham na função de deformação dospesadelo
conteúdos oníricos e, consequentemente, perturbam o sono, já que o sonhador acaba despertando pela irrupção das excitações. Apesar deste despertar, Freud diz que os pesadelos ainda funcionariam como protetor do psiquismo, pois diante da presença de fortes estímulos angustiantes inconscientes o pesadelo despertaria o sonhador como medida protetora.

Já o sonho traumático, que é tema central do texto freudiano: “Além do princípio do prazer” (1920), corresponde à pura repetição de um trauma vivido na realidade, por exemplo, um assalto à mão armada, que se traduz em sonhos repetitivos e de conteúdo praticamente idêntico. Estes sonhos servem como descarga das excitações e, em última instância, visa integrar o trauma e assim superá-lo.

C. G. Jung, o renomado discípulo de Freud, também fez dos sonhos um valioso objeto de investigação. Jung tinha um pensamento dialético, de modo que os símbolos produzidos pelos sonhos tinham ao mesmo tempo um significado individual e coletivo; este último representa a dimensão arquetípica. Jung encontrou na repetição de símbolos em povos com grandes diferenças culturais e que não coexistiram no mesmo período histórico, as bases para a ideia de que  haveria uma camada psíquica impessoal (inconsciente coletivo), na qual existiriam símbolos queportariam condições históricas gerais. Desta forma, o conteúdo dos sonhos na psicologia analítica pode representar tanto aspectos da vida pessoal, como também pode trazer significados que extrapolam a vida individual do sonhador através de símbolos coletivosMandala 2. Para conhecer mais, explore o livro O Homem e seus Símbolos (1964).

Jung também supunha que os sonhos, além de sua causalidade (por que) tem também uma finalidade (para que). Ou seja, os sonhos também apontariam para o futuro.

Hoje em dia, é possível que estejamos subvalorizando nossos sonhos? Em tempos de um excessivo apelo à realidade e objetividade, onde qualquer dúvida é remetida ao “Deus Google”, talvez hesitemos em dar a devida atenção aos nossos sonhos… Apesar de sua aparência ficcional, eles podem nos ensinar muitas verdades sobre nós mesmos. Pergunte a quem já fez psicoterapia!

 

 Tomás Bonomi, Bruno Mangolini e Bruno Espósito.

 

3 Comments

  1. Vilma Santos on abril 18, 2015 at 11:48 pm

    Simplesmente amei o blog de vocês! Parabéns

    • Silvana on abril 28, 2015 at 11:52 pm

      Bom tema este dos sonhos!!! GOSTEI!

  2. renata on maio 19, 2015 at 11:42 pm

    Estou achando bem interessante este diálogo multiplicar que inclui Freud e Jung. Estou vendo isso acontecer em outros lugares também. Muito bom

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