Sugestão de leitura: “Sapiens” e “Homo Deus”

 

Pode soar até pretensioso que um historiador de apenas 40 anos de idade tenha escrito praticamente em sequência dois livros best-sellers intitulados “Sapiens: uma breve história da humanidade” (L&PM, 2015) e “Homo Deus: uma breve história do amanhã” (Cia. das Letras, 2016). Mas basta algumas páginas de leitura para você lhe dar o crédito. O israelense Yuval Noah Harari parte de um tema profundamente instigante – as origens, evoluções e revoluções da espécie humana – e consegue discorrer a esse respeito de maneira bastante consistente, sem nunca perder a fluidez. A coerência com a qual o autor articula biologia, arqueologia, antropologia e história dá o tom de seu trabalho, muito valorizado pela sua capacidade de construir analogias e metáforas que ajudam a imaginar o passado e até o futuro próximo, em alguma medida.

De cara, “Sapiens” golpeia o ser humano com a humildade que lhe costuma faltar. Somos sim muito mais próximos aos primatas do que gostamos de pensar e durante milhares de anos fomos uma espécie absolutamente mediana na cadeia alimentar. Éramos somente alguns milhares em todo o planeta em busca de alguns pedaços de tutano – era o que sobrava de uma presa que um grande predador havia devorado e que outro médio havia limpado. Porém, através da seleção natural, alguns pequenos ajustes no nosso “sistema operacional” podem ter contribuído decisivamente na nossa capacidade de cooperação – e isso nos salvou da mediocridade. Um chimpanzé macho-alfa (que se estabelece como tal não por ser o mais forte, mas sim o mais carismático!) consegue manejar um grupo de no máximo 150 chimpanzés, número insuficiente para dominar a selva. Os sapiens, por sua vez, desenvolveram a habilidade de cooperar aos milhares ou milhões, estabelecendo impérios e desenvolvendo-se, ao mesmo tempo em que praticamente esgotaram a biodiversidade.

A capacidade de cooperar no humano estaria diretamente relacionada à criação de um campo imaginário, de ilusões suficientemente convincentes para que pessoas se aglutinem em torno delas. Daí porque milhares de egípcios deram suas vidas à construção de pirâmides que nunca viram finalizadas e outros tantos exemplos demonstram os sacrifícios individuais feitos em prol do grupo ou de uma liderança poderosa. Fato é que, enquanto espécie, isso levou-nos adiante, sem que possamos dizer se somos mais felizes hoje ou não. É de se imaginar que a religião tenha sido utilizada como ilusão de grupo inúmeras vezes, tema já abordado por Freud (lembre de “Psicologia das massas”, “O futuro de uma ilusão”, dentre outros textos).

O surgimento da escrita, do dinheiro, da ciência e do capitalismo são largamente explorados por Harari, ao passo que o surgimento do fogo e das ferramentas – aquilo que já estamos fartos de ouvir desde a escola – são temas tocados só tangencialmente. O livro mostra a força com que essas formas de existência e de organização social se impuseram no mundo, mas embora produzam realidades concretas, não deixam de ser ilusões. Se todos decidirem desacreditar no valor do dólar de um instante para outro, isso causará um rebuliço enorme, mas de fato a moeda perderá inteiramente seu valor. Isso já aconteceu incontáveis vezes na história e nada impede que aconteça com o próprio humanismo: nossa ideologia em vigor que coloca a democracia, o livre-arbítrio e os direitos humanos acima de tudo.

Neste ano, cientistas chineses clonaram pela primeira vez primatas. O esforço esbarrou no fato de que, quanto mais evoluída a espécie, mais ela tende à diversidade, portanto resistente à replicação

É justamente aí que entra a ideia central de “Homo Deus”: para Harari, a biotecnologia e a inteligência artificial estariam se desenvolvendo a tal ponto que, em breve, poderão colocar em xeque nossas formas de organização e até nossa própria existência enquanto espécie. Se carros pilotados por GPS ou diagnósticos feitos através de algorítimos alcançam melhores resultados que motoristas e médicos, estariam essas e outras tantas profissões sob risco? Qual é o impacto mundial se, mais do que desempregados, nos tornarmos inempregáveis? Se o Facebook, o Google e a Amazon nos conhecem melhor do que nós mesmos, até que ponto o estabelecimento do poder pela democracia e o direito ao livre-arbítrio se sustentam? E, no limite, se a tecnociência adentra nossos corpos não somente para curar nossas doenças, mas para aprimorar nossos atributos e remodelar nossa genética, não estaríamos criando uma nova espécie, um Homo Deus, que por ser melhor/mais adaptado poderá nos erradicar, da mesma maneira que nós Sapiens fizemos com os Neandertais?

Caso você tenha assistido Black Mirror, deve estar sabendo que várias das tecnologias demonstradas no seriado não são ilusões distantes, mas artefatos que já existem em versões iniciais, tal como o capacete que altera o processamento da visão dos soldados, os cães-robô e os dispositivos de controle biológico e social de seu filho remotamente pelo iPad. Como não estamos atônitos frente a isso, neste exato momento? Além de ser muito mais difícil apreender o presente, por estarmos excessivamente colados a ele, sabemos também que as mudanças costumam vir de início como notícias boas: quem não se lembra o sonho de praticidade que o telefone celular realizou quando se popularizou, mas hoje sofre com o lugar excessivo que ele ocupa em nossas vidas?

A intenção de Harari não é deprimi-lo em relação ao futuro, e sim alertá-lo de potenciais riscos aos quais incorremos a partir de um processo que está absolutamente em curso. Como podemos problematizar isso hoje? De que armas dispomos para lutar? O autor nos oferece uma pista interessante, especialmente instigante para nós psis: não há qualquer pista científica no horizonte a respeito de como funciona a consciência, de como se dão as experiências subjetivas. Sabe-se muito bem como influenciá-las e inclusive superar nossas habilidades cognitivas, mas esse buraco negro no conhecimento pode nos dar alguma margem de resistência criativa ao biopoder. Cabe a nós a escolha de aceitar o destino passivamente ou de inventar algo novo, nem que seja para entrarmos na história como um pequeno bug no sistema pós-humano…

Bruno Esposito, Tomás Bonomi e Bruno Mangolini.

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