– Suicídio: dados, fatores de risco e manejo.

O suicídio é um tema delicado para todos nós, profissionais de saúde mental ou para qualquer pessoa.  Tirar a  própria vida traz consigo questões de natureza filosófica, existencial, religiosa, ética, que remete ao próprio direito à vida; além disso, quando ocorre um suicídio de alguém próximo, a questão central é “o que fizemos para ajudar?” ou “o que fizemos de errado?”.

Quem não conhece alguém ou uma história de alguém que se suicidou? Para quem já viveu isto de perto, sabe que o suicídio nos toca de maneira aterrorizadora, colocando em xeque nossas atitudes e nossos valores. Além das questões morais inerentes ao suicídio, este tema ganha cada vez mais relevância para a saúde pública. Nem sempre isso é tarefa fácil, tratando-se de um tema tabu, frequentemente negligenciado ethe-suicide subnotificado.

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que nos últimos 45 anos a taxa de suicídio cresceu 60%. Em escala mundial, estima-se que a taxa de suicídio seja de 16 para cada 100.000 habitantes. Atualmente é a 3a causa de morte mais frequente no grupo etário entre 15 e 34 anos, e a 2a entre jovens de 15 a 19 anos.

Estima-se que a cada 40 segundos, uma pessoa comete suicídio; ocorrem cerca de 3000 suicídios diariamente em todo o mundo. Por ano, quase um milhão de pessoas se suicidam, o equivalente a quase 50% de todas as mortes violentas registradas no mundo.

É importante falar sobre suicídio. Quanto menos conhecermos, mais veremos ele acontecer, muitas vezes por não sabermos como lidar e por não perceber sinais de alerta.

Seguem algumas considerações que podem guiar tanto leigos quanto profissionais na compreensão dos fatores associados ao suicídio.

ASPECTOS PSICOLÓGICOS:

Um ato suicida é um comportamento complexo, resultado de múltiplas variáveis. Pode ocorrer tanto de maneira gradual, em que a ideia de morte ganha força, como também de maneira abrupta e impulsiva. Existem três características psicológicas que são típicas de pessoas sob o risco de suicídio.

Ambivalência

É uma atitude conflitante que oscila entre o desejo de morrer e o de viver. Geralmente as pessoas em sofrimento psíquico lutam para sair da situação que estão, mas muitas vezes sentem que não há mais forças e que a morte é o melhor caminho. Nesses casos, o apoio emocional é fundamental para que o desejo de viver prevaleça.

Impulsividade

É a característica de agir por impulso. Muitos suicídios são cometidos deste modo, quando eventos negativos levam a um desmoronamento do sujeito, que toma uma atitude sem pensar nas consequências. São estados psíquicos que duram minutos ou horas, em que é importante haver apoio para que a crise passe e a pessoa possa refletir melhor.

Rigidez

É quando o pensamento torna-se rígido, com dificuldades para pensar em alternativas. Pessoas com esta característica percebem o seu problema como sem solução, adotando uma única saída: a morte. Nesses casos, o exercício de refletir junto com a pessoa, ampliando as maneiras de lidar com seu sofrimento, é um caminho interessante (e árduo) para o terapeuta.

Os 4 D´s

Depressão, Desesperança, Desamparo, Desespero. Esses sentimentos costumam ser comuns em pacientes com risco de suicídio. É importante ficar atento, pois geralmente eles comunicam, verbalmente ou não, suas intenções suicidas. Frases como “eu não aguento mais”, “eu preferia estar morto”, “eu sou só um peso para os outros”, e outras similares, são sinais de alerta na tentativa de prevenção dos suicídios.

Fatores de Risco

Diversos estudos têm mostrado que, na quase totalidade dos suicídios, os indivíduos sofriam de algum transtorno mental.

 

Suicídio e transtorno mental  (1)-page-001

Fonte:Bertolote, J.M.; Fleischmann, A (2002). Suicide and psychiatric diagnosis: a worldwide perspective. World Psychiatry I (3): 191-185

 

TRANSTORNOS E ABORDAGENS:

DEPRESSÃO

Caracteriza-se por um conjunto de sintomas que envolvem um importante sentimento de tristeza, a perda de prazer em atividades que antes lhe eram gratificantes, alteração no sono e apetite, ansiedade, desesperança, sentir-se um peso para os outros e pensamentos de morte.

É importante que o círculo social de uma pessoa deprimida não a abandone (o que é muito comum), o que pode agravar seus sentimentos negativos. Uma atitude acolhedora é sempre bem vinda, pois pode ser decisivo para a pessoa que está deprimida se conscientizar de sua situação e buscar ajuda. Pergunte sobre como está a vida dela, quais atividades realiza, se obtém prazer com elas ou não, se algo a anima, se tem esperança de melhora, se esta situação já ocorreu antes e como tem lidado com ela. Se a pessoa mostra-se com sentimentos muito negativos, sem esperança e desesperada, é fundamental abordar se há pensamento de morte, pois pode haver um risco significativo. Se houver ideação suicida, deve-se avaliar em qual estágio esta ideação está: já pensou em como se matar? Existe um plano? Se houver já um plano, o risco de suicídio é grande. Neste caso, deve-se tentar sensibilizar a pessoa a buscar ajuda profissional; para isso, pode-se recorrer à família e à religião (se houver), que geralmente são fatores de proteção ao suicídio. Se a pessoa recusar, o meio familiar ou social deve solicitar ajuda profissional, indicando que há uma pessoa deprimida com risco de suicídio.

USO DE SUBSTÂNCIA

A síndrome de dependência está bastante associada a casos de suicídio e isto se deve a alguns fatores. O estreitamento do repertório de atividades do sujeito, que passa a obter prazer quase exclusivamente através da droga, somado ao fenômeno de tolerância (ter que aumentar a dose para alcançar o mesmo efeito) e a impulsividade compõem um cenário no qual o suicídio é tido como a única salvação para cessar o sofrimento.

Podemos dizer que uma pessoa está em síndrome de dependência quando ela apresenta prejuízos significativos em decorrência do uso da substância, sendo incapaz de reduzir o consumo. Diferentemente da depressão, o suicídio relacionado ao uso de substância não segue necessariamente uma graduação, em que é possível perceber um agravamento do quadro. Por conta do componente impulsivo, é comum que “de repente” aconteça o suicídio. Por isso, é importante mostrar a esta pessoa que existem outros que se importam com ela, que observam o quanto ela está sendo prejudicada por seu descontrole no consumo, e que deve buscar ajuda. A tarefa de sensibilizar a pessoa para buscar ajuda é árdua, sendo necessário paciência e persistência da parte de quem quer ajudar. Um dos momentos importantes para se motivar o usuário é quando ele sofre algum problema de saúde decorrente do abuso da substância; mais do que confrontá-lo, é a oportunidade de mostrar os fatos a ele e auxiliá-lo a se responsabilizar pela mudança.

TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE

Existem diversos tipos de transtornos de personalidade, cada um com sua especificidade. De modo geral, essas pessoas possuem grande dificuldade em manter relacionamentos pessoais, costumam estabelecer vínculos desmedidos e intensos, sem haver grande preocupação com o outro, além de apresentarem defesas psíquicas primitivas, marcadas pela ambivalência.

O manejo com esses pacientes exige tanto o reconhecimento das dificuldades, legitimando seu sofrimento, como também o estabelecimento de limites, de modo calmo e firme. Isto é importante pois esses pacientes possuem a característica de exigir o possível e o impossível do profissional e dos serviços de saúde, aproveitando-se de eventuais fragilidades que esses possam demonstrar. Por isso, no caso dos transtornos de personalidade, uma dúvida é comum aos profissionais: “será que este paciente de fato tem ideação suicida ou faz isto para mobilizar minha atenção e me fragilizar?”. Discutir o caso com outro colega ou com a equipe pode ser uma boa maneira de ampliar os olhares e a percepção que se tem. De toda forma, não se deve negligenciar cuidado por causa desta questão; mesmo se for um modo de ter atenção, este é um pedido de ajuda, que deve ser trabalhado para que o paciente consiga isto de outra forma.

ESQUIZOFRENIA

Este transtorno afeta cerca de 1% da população. Destes, aproximadamente 10%  falecem por suicídio. A esquizofrenia é um transtorno que afeta diversas áreas, como o afeto, a sensopercepção e a cognição, acarretando prejuízos importantes nas esferas social, profissional e familiar. Os sintomas mais comuns são as alucinações, os delírios, o discurso desorganizado e o embotamento afetivo, levando ao isolamento social na maioria das vezes.

Pacientes com esquizofrenia exigem uma ampla variedade de recursos terapêuticos, com enfoques diferentes, pois o cotidiano deles costuma ser bastante esvaziado de atividades e de sentido. Ações que visam a autonomia, o pertencimento ao grupo, a estimulação cognitiva e a remissão dos sintomas psicóticos são sempre bem vindas ao paciente. É importante destacar que não se deve manter um alto grau de exigência a eles, pois isto tem sido relacionado a um maior número de suicídios. Como a principal forma de prevenir tentativas de suicídio, o vínculo bem estabelecido é capaz de promover tranquilidade ao paciente, fazendo-o aderir às propostas terapêuticas. Nesses casos é fundamental que ele esteja vinculado a uma instituição de referência (como os CAPS) e em uso de medicação, pois quando não utilizam antipsicóticos as alucinações auditivas são comuns, podendo levar ao suicídio por seguir as vozes de comando.

 

REFERÊNCIAS:

Muitas das informações utilizadas aqui foram retiradas do documento “Prevenção do Suicídio: manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental.”, de 2006. Para acessa-lo, clique aqui.

O único documento mais recente que encontramos foi o “Prevenção do Suicídio: manual dirigido a profissionais da saúde da atenção básica“, de 2009, mas que tem poucas mudanças em relação ao anterior. Ele pode ser acessado clicando aqui.

Encontramos também um documento do governo de Portugal, o “Plano Nacional de Prevenção ao Suicídio 2013-2017”, com metas, estratégias e ações bem definidas, demonstrando a relevância do tema para o país europeu. Este documento pode ser acessado clicando aqui.

 

 Bruno Mangolini, Tomás Bonomi e Bruno Espósito.

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4 comments on “– Suicídio: dados, fatores de risco e manejo.

  1. Carol Rocha says:

    Muito bom o texto de vocês. Sou paciente da psiquiatria, trato distimia e síndrome do pânico, e criei um blog para falar sobre esses temas. Vou compartilhar esse conteúdo. Abraços.

  2. renata says:

    Muito bom

  3. Magda says:

    Prezados, estou fazendo um curso sobre cuidados paliativos e apresentarei um trabalho. Gostaria de abordar situações onde a tentativa de suicidio gerou a necessidade de cuidados paliativos e também falar do luto em famílias de suicidas.
    Podem me ajudar com bibliografia, artigos ou similares?