– Tornando-se pai.

Em 2015 virei pai de uma garotinha linda. Sinto que a partir do momento em que minha filha saiu de dentro de minha mulher, tornei-me uma nova pessoa. Aliás, desde então, esse é o substantivo que mais me qualifica: pai. Antes de minha profissão, de ser marido, do lugar que ocupava em minha família de origem, do meu papel junto a meus amigos e, com certeza, antes dos meus hobbies (aliás, muito infeliz a matéria da revista da Folha de São Paulo que, ao abordar os “pais modernos” e seus hobbies, deixa a paternidade completamente de escanteio).

Tenho orgulho de que minha primeira função atualmente seja ser pai, mesmo que tenha que dividir meu tempo e atenções com o trabalho fora de casa. Recentemente meu segundo filho nasceu, jogando-me novamente no cenário caótico e maravilhoso dos cuidados de um recém nascido. A meu ver, a primeiríssima função de qualquer pai reside em criar um ambiente de bem estar mínimo necessário para que a mulher consiga amamentar o bebê com paz e tranquilidade. Provavelmente cada mulher ao amamentar deva ter suas próprias idiossincrasias, mas algum nível de silêncio, hidratação e sono me parecem questões básicas nesse momento tão vital. Devemos zelar por isso!

Das coisas mais valiosas que aprendi sobre esse comecinho de vida foi a seguinte: se a mãe está bem, o bebê está bem. O contrário é igualmente verdadeiro. Para o bebê, não há diferenciação entre mundo interno e mundo externo; nesse começo de vida o bebê vivencia sua mãe como extensão, o que acarreta em uma conexão muito profunda.

Aprendi muito sobre os diversos benefícios do aleitamento materno, desde o desenvolvimento do sistema imunológico, até a questão da formação do vínculo mãe-bebê.  Aí reside um fato biológico intransponível, não há nada mais básico para o desenvolvimento de uma vida do que a alimentação, sendo assim, nós, pais, seremos sempre os terceiros nesse princípio de vida e do desenvolvimento das relações afetivas. Há que se contentar e saber usufruir dessa posição. Nunca saberemos como é alimentar um filho com o nosso próprio corpo, produzir todos os nutrientes que eles precisam, por seis meses, um ano ou mais. Em uma cultura na qual apagamos quase todos os vestígios de nossa animalidade, para as mulheres, não resta dúvidas de que somos mamíferos e, naquele momento, isso é a coisa mais importante do mundo.

Providas as condições básicas para a amamentação, o que de forma alguma é um trabalho fácil e nem sempre possível, aos poucos temos a incumbência de apresentar o mundo não-mãe para nossos pequenos. Desde o som de nossas vozes, passando pelo nosso cheiro até nossa forma de tocar os seus corpos, ninar ou tentar acalmar o bebê. Penso que isso resume na prática o que seria a função paterna para a psicanálise, isto é, a de interceder na relação dual mãe/bebê e imprimir uma primeira marca de interdição.

Falando dessa forma, pode até parecer que a função paterna seria a de acabar de forma agressiva com o paraíso idílico que vivem mãe e bebê. Contudo, sem um pouco de assertividade de um terceiro, corre-se o risco de uma cristalização desse primeiro vínculo, o que normalmente acaba acarretando em sequelas psíquicas para o bebê.

Ao falar em assertividade de um terceiro, me refiro a uma certa dosagem de segurança que o pai precisa ter para mostrar ao seu filho(a) que o mundo não se resume à sua mãe. Acredito que para gerações passadas, a forma de mostrar essa assertividade acontecia somente em um momento mais tardio, pois os bebês faziam parte exclusivamente do domínio feminino. Quando os pais finalmente se mostravam presentes, a forma de colocar isso em prática passava mais pela ótica do medo, da imposição e dos imperativos, como por exemplo: “lá fora não haverá uma mamãe para te cuidar!”. Não que isso seja mentira, mas será o bastante?

Ao observar e conversar com alguns homens que se tornaram avôs recentemente, percebo que o contato que eles têm com seus netos(as) bebês parece ser mais íntimo e próximo do que a relação que estabeleceram com os seus filhos. Como se agora eles pudessem se dedicar e se apropriar mais dos cuidados e até mesmo se permitir serem tocados afetivamente por esses pequenos seres.

É claro que falo a partir de uma experiência pessoal e de um contexto particular, mas há inegavelmente uma tendência de mudança social do lugar do pai.  Há mais ou menos 100 anos, os homens sequer expressavam o amor dentro de seu núcleo familiar, sendo a relação matrimonial uma relação de procriação e as relações com os filhos uma relação de castração; o prazer do homem só era concebido fora do lar. Atualmente os homens procuram constituir relacionamentos afetivos, se perguntam sobre o amor (e sofrem por ele) e, quando pais, querem realmente envolver-se com seus filhos. 

De forma geral, os pais de hoje parecem participar mais da criação de seus filhos, não só por terem sido convocados para esse papel, mas também por mudanças culturais que lhes permitiram se incumbir e ter prazer nesse cuidado. Penso que ser pai é ter segurança de que você quer participar de todos os momentos possíveis desse começo de vida, é poder deixar-se tocar por seu próprio mundo infantil, é trocar fraldas e ter infinitas noites mal dormidas, é contar histórias e músicas de ninar de sua infância; enfim, aprender a ser pai junto de sua parceira ou parceiro.

 

* Recentemente foi publicado o artigo Paternidade e função paterna no blog da sociedade brasileira de psicanálise São Paulo, para quem quiser se aprofundar mais no tema, indico a leitura. 

 

Tomás Bonomi (com contribuições pontuais de Bruno Espósito e Bruno Mangolini).

 

 

 

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3 comments on “– Tornando-se pai.

  1. Regina Moraes Abreu says:

    Aos novos pais: bem vindos ao universo da maternidade! Seus filhos serão pessoas melhores por vivenciarem com eles seu lado mãe.

    Às novas mães: sua cumplicidade contribui para que seu companheiro descubra o pai que pode ser.

    Aos novos avós: orgulho desses novos-filhos-pais!

  2. Renato Udler Cromberg says:

    Que belo e verdadeiro texto! Obrigada! Já estou indicando para uma pesquisadora do tema.