– Vida clandestina (por Lia Novaes Serra)

enfermeira silencio

Hoje temos a honra de ceder nosso espaço para Lia Novaes Serra. Lia é psicanalista, mestre e doutoranda pelo Instituto de Psicologia/USP.

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Valorizar a vida, legalizar o aborto. De início, nossa petição pode parecer contraditória. Afinal, compreendemos habitualmente que aborto significa a expulsão voluntária ou involuntária de um feto antes do tempo. Ou seja, nessa acepção, socialmente partilhada, aborto significa o fim da vida. Mas, e se invertêssemos a proposição, e se afirmássemos que defender a legalização do aborto significa não a interrupção, mas a continuidade da vida.

É a vida que num curto espaço de tempo, com o susto da gravidez indesejada, e num completo estado de desorganização psíquica, encontra na clandestinidade a única saída. É a vida que encara o submundo das clínicas abortivas; introduz objetos perfurantes em seu próprio corpo; provoca hemorragias; faz uso de medicações sem prescrição; e, o mais grave: coloca em risco à própria vida para cessar uma gestação. Ainda assim, ela tem inúmeros motivos para realizar o aborto. É a vida, pela continuidade da vida.

Sem apoio ou proteção do Estado, a vida se torna irresponsável, puta, assassina. Se rica, tem, provavelmente, um aborto mais “seguro”. Paga à vista o procedimento em alguma clínica de alto padrão. Se pobre, a situação é radicalmente diferente. A cada nove minutos perdemos uma vida, pelo mundo afora, por consequência de um aborto induzido e mal sucedido. São feitos com agulhas, chás ou misoprostol – ainda vendido no mercado paralelo por diversas indústrias farmacêuticas. A diferença de classe aqui se faz presente. É a desvalorização da vida da Jandira, da Tatiana, da Elisângela e de tantas outras.

Contudo, se sobrevive e, por sorte, o dano físico for insignificante, ainda sim, a vida precisa conviver com o trauma psíquico. E o pior tratamento ao trauma é silenciá-lo. É preciso declarar com todas as letras: a aprovação do PL 5069 é um atentado contra a vida. Além de aumentar exponencialmente o número de mortes, de danos físicos e psíquicos, quer manter calado o sofrimento já existente de tantas vidas. Por isso, a luta pela não aprovação desse projeto de lei e, sobretudo, a luta pela legalização do aborto. Em favor da vida.

Obrigada pelo espaço carinhosamente oferecido, Conexões Clinicas. #agoraéquesãoelas.

 

 

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One comment on “– Vida clandestina (por Lia Novaes Serra)

  1. Fernanda Rios says:

    Dura realidade! Obrigada pelas palavras, Lia! Estamos juntas por um Brasil que ame de verdade as suas mulheres. Um abraço aos profissionais do Conexões, sempre ativo e atento. Fernanda Rios.