– Violências contemporâneas: de súbito, o ato.

Nas últimas semanas, acompanhamos com espanto uma série de atos violentos ao redor do país. Nos referimos à violência tanto no que diz respeito a agressões, espancamentos e assassinatos, como também a palavras e gestos extremamente ofensivos. As cenas ocorreram em campos de futebol, blocos de carnaval, nos espaços comuns da cidade, ou mesmo dentro de apartamentos habitados por famílias de condições sociais e emocionais aparentemente favoráveis.

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Pensamos que não cabe aqui recapitular cada uma dessas notícias, já que todos tivemos acesso a elas; além da mídia explorá-las amplamente, o fator chocantepresente em todos esses atos de violência nos impele a buscar essas informações e comentá-las com nossos pares. Sozinhos ou coletivamente realizamos um trabalho psíquico na tentativa de encontrar representações,  ou seja, encontrar razões que justifiquem fenômenos que mais se parecem com filmes ou pesadelos do que com a realidade propriamente dita. Em geral, demoramos algumas semanas para esquecê-los – isso quando não somos nós mesmos as vítimas diretas do trauma, pois nesse caso a exigência de elaboração torna-se muito mais demorada e trabalhosa.

Algumas dessas violências não constituem propriamente uma novidade, tal como o exemplo do assassinato do torcedor de um time de futebol por “rivais”. Ocasiões semelhantes nos vem à mente e conseguimos compreendê-las enquanto ações de movimentos organizados, cujos membros frequentemente já estiveram em outros atritos, operando sob uma ideologia que se mantém ao longo do tempo: a de que o outro é uma ameaça e deve ser eliminado. Sabemos que a diferença entre os “adversários” é mínima, seja quanto à idade, classe social, origem, sendo às vezes até vizinhos ou parentes distantes! E talvez seja justamente o horror de deparar-se com essa mínima diferença que incita esses grupos à violência, no sentido de diferenciar-se e assegurar-se de sua própria existência.

briga torcedores

Sem desconsiderar as variáveis socioculturais, é possível compreender essa classe de violência na esteira do que Freud chamou de “narcisismo das pequenas diferenças”, razão pela qual pessoas, grupos ou povos atacam ou atacaram-se durante séculos: corinthianos e palmeirenses, ingleses e franceses, israelenses e palestinos, etc.  

Frente a esse tipo de violência, se nos deslocarmos do discurso midiático corriqueiro e inflamado, sabemos que precisamos, enquanto sociedade, da ação da lei, mas concomitantemente da criação de espaços nos quais as diferenças e a agressividade (que em certa medida todos nós temos) tenham espaço de expressão através da arte, da convivência, das disputas esportivas e recreativas, etc. Precisamos, afinal de contas, fomentar uma Cultura de Paz.

Não obstante, há uma outra classe de violência que se faz cada vez mais presente. Se no jogo contra as violências previsíveis e habituais não estamos nos saindo lá muito vitoriosos, o que dirá então frente aos atos de violência para os quais não encontramos nenhuma explicação?

Passagens ao ato

As diferentes disciplinas que compõem as Ciências Humanas tem buscado compreender este inquietante fenômeno de violencia_domestica_1-1nossos tempos: por que alguém, sem qualquer histórico pregresso de violência ou criminalidade, sem tampouco um transtorno mental grave previamente diagnosticado, é capaz de, em um rompante, por em xeque a própria vida, a de entes queridos ou desconhecidos? Pessoas que, supostamente dispõem de boa saúde mental e são frequentemente consideradas funcionais (reconhecidas no trabalho, com renda fixa e família constituída) e cujos conflitos familiares não fogem necessariamente dos habituais.

Do ponto de vista psicanalítico, podemos definir como passagem ao ato – ou acting out – as situações nas quais um determinado sujeito leva à ação um afeto ou conteúdo psíquico que não consegue ser pensado, processado através do psiquismo. Um afeto que não ganha representação, ou seja, ao invés de ser contido e metabolizado pela mente, escoa e invade a realidade concreta, atingindo o outro ou a si próprio. Ao invés do pensamento, do sonho e da palavra, o impulso, a ação e a agressão.

Evidentemente, de alguma maneira, sempre existiram as passagens ao ato. Não raramente fazemos algo que esquecemos, algo que inconscientemente ocultamos de nós mesmos; na vida de todos nós existe uma espécie de “gangorra de três assentos” onde se dispõem os afetos: o pensamento, o corpo e a ação. Essa gangorra se desequilibra frente às características e aos momentos vividos de cada um: quanto mais pensamento, menos acting e somatização, quanto mais fenômenos psicossomáticos, menos acting e pensamento, e assim por diante, considerando que a gangorra pode virar subitamente de lado.

Feito essa ressalva, cabe tentarentender o que há de característico e tão trágico nas passagens ao ato que temos acompanhado na atualidade. E dizemos tentar pois certamente não existe só uma resposta e uma saída para um fenômeno tão complexo.

 

Subjetividade: mitos fundadores, cultura, identificação e ideal. 

Quando ocorre uma passagem ao ato tão violenta, descolada da história pessoal e bastante sem sentido, pensamos que não se trata de algo esquecido (recalcado) no psiquismo e que ganha contornos na realidade. Trata-se de algo mais radical, uma verdadeira clivagem, uma separação na qual o afeto simplesmente não tem em que se “agarrar” no psiquismo. O afeto não consegue ligar-se à nenhuma representação, aos referenciais simbólicos já constituídos, portanto fica forçosamente deixado de lado e explode em ato.

corrente quebrando

Tal como afirmam diferentes psicanalistas hoje, em franco acordo com filósofos e sociólogos contemporâneos, é possível postularmos que na contemporaneidade vivemos uma crise na transmissão de valores e referenciais simbólicos que são fundamentais para a sustentação do psiquismo e da vida em comum. Os suportes simbólicos servem como base para a elaboração de situações relacionadas às temáticas fundantes do ser humano: sexualidade, morte, união, separação, filiação, parentesco, etc. Eles são transmitidos, por exemplo, através de mitos sobre nossas origens, nossos antepassados, projetos sociais em comum (utopias), ou marcas simbólicas que denotem o pertencimento a um grupo.

Em nossos tempos de “modernidade líquida” (Zygmunt Bauman), tudo isso deu lugar a uma outra utopia, na qual os referenciais que norteiam a vida subjetiva seriam auto-engendrados, ou vendidos através de novos produtos e tendências de um mercado que se modifica a cada segundo. Quando tentamos nos agarrar a algo, este algo já passou, esvaneceu… Seja pela utopia do sujeito que se auto produz, ou pelas tendências e propagandas que se propagam, estamos sempre sob o risco de cair em um profundo desamparo, carentes de suportes simbólicos que possam tornar pensáveis e dizíveis obstáculos que não raramente aparecem pelo caminho, tal como separações amorosas, desilusões, traumas disruptivos, etc.

Para onde vamos?

mão que grita

Frente ao desamparo, tem sido frequente um retorno súbito e radical a uma religiosidade, de maneira quase fundamentalista. Encontra-se um Deus que detém todas as respostas, todos os caminhos. Um Pai que ampara e protege, mas que muitas vezes oblitera a visão, novamente fortalecendo a cisão entre nós e eles – “ou você está com Deus, ou é do outro time, portanto está equivocado e deve aprender a torcer  pro nosso”. O curioso é que a adesão a essas novas religiosidades se dá de uma maneira líquida, quase um acting out. Ao contrário da tradicional transmissão religiosa pela via da família ou de um grupo, hoje é comum pessoas adotarem uma religião de modo súbito, como que para restabelecer um equilíbrio perdido; algo que nos parece ter relação, portanto, com esse silencioso desamparo.

A psiquiatria dos novos manuais classificatórios, muito interessada em fazer caber em seu escopo o máximo possível de experiências humanas, tem se movimentado no sentido de incluir novas categorias diagnósticas, transformando em uma psicopatologia individual aquilo que estamos tentando compreender como um mal estar da subjetividade que se constitui em um momento histórico-cultural preciso. Dessa maneira, advém diagnósticos como o de transtorno disruptivo de desregulação de humor, ou síndrome do risco de psicose. Ao psicopatologizar qualquer passagem ao ato, perdemos novamente a oportunidade de “escutar” parte do mal estar de nossa civilização, pois o diagnóstico explicaria por si o ato: “ah, ele tinha uma doença mental, por isso fez o que fez”.

Sabemos que, frente ao atual estado de coisas, nossas possibilidades de interferir nos caminhos que nossa cultura toma são sempre limitados – é preciso, por isso, ter sempre “um pé no chão”. Acreditamos, no entanto, em alguns caminhos a serem feitos frente ao mal estar, o que eventualmente pode evitar uma passagem ao ato.

 

cultura-de-paz-2Um dos caminhos, sobre o qual já falamos em publicação recente, diz respeito aos grupos – sejam eles comunitários, terapêuticos, de trabalho, etc. – enquanto instrumentos de resgate ou construção de um pertencimento coletivo, de ideais e identificações em comum, ou seja, dos suportes simbólicos que mencionamos. Certamente, cada leitor aqui tem exemplos de sujeitos que, através do engajamento em um grupo ou coletivo maior, superou vivências de desamparo, luto ou passividade.

Desta forma os grupos teriam a potência de oferecer ao indivíduo um substrato afetivo e representacional, servindo como espaços intermediários entre o impulso e a ação, diminuindo as possibilidades da instalação de uma passagem ao ato.

Por outro lado, os grupos podem ter para o indivíduo a função de preencher o sentimento de vazio, oferecendo ideais imaginários pelos quais os sujeitos perdem seus esquemas referenciais, tal como nas já mencionadas torcidas organizadas ou movimentos políticos como o nazismo.

Eis a ambiguidade do grupo: ser um dispositivo de sustentação e proteção psíquica ou alienação e destruição.

Entendemos também que o tratamento psicanalítico pode constituir um campo de construção de simbolizações, identificações, ideais, etc. Neste processo criam-se palavras e pensamentos, que podem dar estofo a esse afeto que muitas vezes está solto em nosso desamparo contemporâneo. Logo, a construção de novas narrativas pode possibilitar novos destinos para o afeto, que não seja o da passagem ao ato.

 

Bruno Espósito, Tomás Bonomi e Bruno Mangolini 

 

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