-A importância da Atenção Primária em São Paulo, a cidade com maior índice de transtornos mentais do mundo.

Os resultados de uma pesquisa recente chamou a atenção de muitas pessoas: a grande São Paulo é a megalópole com maior prevalência de transtornos mentais em todo o mundo. Foi o que revelou o estudo “Mental Disorders in Megacities: Findings from the São Paulo Megacity Mental Health Survey, Brazil”, realizado em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Universidade de Harvard.

Transtornos Mentais no Trânsito

Segundo o estudo, quase 30% da população apresentou algum distúrbio mental nos últimos 12 meses, sendo o mais comum o transtorno de ansiedade (19,6%), seguido por transtornos de comportamento (11%), transtornos de controle de impulso (4,3%) e abuso de substâncias (3,6%).

Outro aspecto importante refere-se à proporção de casos considerados graves, que  chegou a 10% no Brasil, bastante acima dos Estados Unidos (5,7%) e Nova Zelândia (4,7%), que vieram em seguida.

Transtornos Mentais - Metrô

Mesmo considerando a tendência atual de diagnosticar excessivamente a vida cotidiana, acreditamos que estes índices dizem algo sobre a saúde mental e a qualidade de vida da população de São Paulo.

Segundo a pesquisadora Laura Helena Andrade, “as pessoas que moram em áreas precárias apresentam quadros mais graves e tendência ao abuso de substâncias. As que tiveram mais exposição à vida urbana têm mais transtornos de controle e impulso – em especial o transtorno explosivo intermitente, que é típico de situações de estresse no trânsito, por exemplo”.

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O estudo identificou alguns fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos mentais, como migração, exposição à violência, relações familiares frágeis e tempo de exposição à urbanicidade. 

charge_ponte quebradaAs relações afetivas, geralmente estabelecidas em nossa cidade natal, mostram-se de grande relevância para mantermos nossa saúde mental. Nota-se que hoje em dia, com o auxílio da tecnologia, as possibilidades de relação são cada vez maiores. No entanto, o estudo indica algo sobre a qualidade da relação quando identifica na migração um fator de risco: manter um vínculo com algum parente via telefone ou mandar emails não seria suficiente; haveria a necessidade do contato, da troca, da pele.

 O alto índice de divórcios, apesar de não ser um fenômeno novo, também é apontado pela pesquisa como um fator de impacto  importante na saúde mental das pessoas. A ausência do contato com a figura paterna, um apego excessivo da mãe com o filho(a) e a vivência das crianças em ambientes de muita discórdia e violência são situações que vemos com grande freqüência em nossos trabalhos e que são  geradoras de intenso sofrimento mental.

charge_briga de paisDesta maneira, vemos que as relações afetivas, familiares e sociais, são de extrema importância, constituindo-se como fatores de proteção à saúde mental quando bem constituídas.

O estudo indicou a necessidade de se expandir as ações de saúde mental na atenção primária, o que se iniciou recentemente no Brasil – apenas em 2008, com a implantação dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF) – e que, segundo a pesquisa, deve ser uma medida adotada por todos os países pouco desenvolvidos e com grande população. Mas por quê?

Atenção primária ou atenção básica é o nome dado a um conjunto de ações que visam prevenir doenças e promover saúde. São ações realizadas em unidades básicas de saúde (UBS), dispositivo de maior capilaridade do SUS (abaixo, mapa das UBS de São Paulo). Através de procedimentos de baixo custo operacional e tecnologia de menor complexidade, estima-se que 80% dos problemas de saúde podem ser tratados com atenção primária, desde que disponha de profissionais bem capacitados.

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Em relação à saúde mental, a atenção primária é ainda mais estratégica. Através dos agentes comunitários de saúde – que vivem nas comunidades atendidas e visitam mensalmente as famílias – as equipes de saúde têm maior conhecimento da população. Com isso, possuem mais e melhores informações sobre hábitos e grupos mais vulneráveis de seu território. Com o acompanhamento longitudinal das famílias, ou seja, com o acompanhamento por um longo período, o contato entre os profissionais e os membros da comunidade é intenso, tornando possível a criação de vínculos. O investimento no vínculo com as famílias é uma estratégia fundamental da atenção primária, pois é através dele que se melhora a aderência aos tratamentos e consegue-se transformar alguns hábitos, como alimentação, prática de atividades físicas e engajamento em projetos de vida. Além disso, possibilita a criação de uma relação de confiança e apoio entre a população e os profissionais.

A criação do NASF visa ampliar a resolução da atenção primária, tornando as equipes de saúde habilitadas a intervir em casos de maior complexidade, que necessitam de conhecimentos e ações da assistência social, nutrição, psicologia, fonoaudiologia, dentre muitas outras especialidades que podem compor a equipe do NASF.

nasfAtravés de reuniões, a equipe de saúde da família (ESF) elege o caso de uma pessoa ou grupo familiar que gostaria de discutir. A partir da discussão, ocorre a troca de conhecimentos entre os presentes, que é uma das formas de matriciamento. Em seguida, estabelece-se uma estratégia de intervenção para o caso, que pode ser uma consulta compartilhada, a inserção em um grupo ou uma visita, para dar alguns exemplos. A proposta do NASF é bastante inovadora e traz consigo uma mudança na lógica de atendimento em saúde, principalmente com o conceito de matriciamento. Por ser muito recente, podemos dizer que ainda vivemos um período de adaptação; mas já podemos ver em muitas regiões a atenção primária mais forte, oferecendo cuidado com mais qualidade e de maneira integral, sem tantas fragmentações e encaminhamentos.

images_alongamentoAs ações de saúde mental em atenção primária têm grande potencial quando favorecem o sentimento de pertencimento a um grupo. Desta forma, ações que visam à socialização, através de atividades artísticas e culturais, são capazes de oferecer suporte afetivo entre a população, constituindo uma rede de apoio na própria comunidade. Vimos na pequisa como os vínculos sociais podem constituir-se como fatores de proteção para o desenvolvimento de transtornos mentais.

Além disto, muitos pacientes considerados graves em saúde mental têm dificuldade de mobilidade. A facilidade de acesso na atenção básica é um recurso bastante importante, permitindo que muitos pacientes consigam tratamento próximo a suas casas.

Concluindo, acreditamos que a atenção primária é de fato uma via importante para a transformação da saúde mental da população de São Paulo. No entanto, cada vez mais a saúde precisa de articulação com outras áreas, pois a complexidade do processo saúde-doença depende de múltiplas variáveis. Não teremos pessoas saudáveis vivendo à beira de córregos, sem emprego, sem educação de qualidade, com acesso restrito à cultura; ou seja, as privações sócio econômicas e culturais constituem um pano de fundo adoecedor.

Muitos esforços estão sendo feitos para a implantação de um sistema de saúde (mental) público de qualidade; no entanto, ainda temos um longo caminho…

 

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Bruno Mangolini, Bruno Espósito e Tomás Bonomi

Fonte:

http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0031879;jsessionid=4151EEE277978104A67C1B5132944915#pone.0031879-Vlahov1

http://agencia.fapesp.br/15215

http://www.viapublica.org.br/2011/12/atlas-da-saude-da-cidade-de-sao-paulo-revela-desigualdade-e-esforco-para-melhorar-atendimento/

1 Comment

  1. Renata Udler Cromberg on dezembro 11, 2014 at 9:12 pm

    Muito, muito bom este importante artigo. Claro, didático e atual. Mostra o que foi feito e o muito a fazer. Mobilidade e mobilização.

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