Alzheimer: contribuições da clínica do acompanhamento terapêutico (por Cristiana Gerab)

Quando a memória ganha uma própria geografia, afastando-se cada vez mais do tempo cronológico, inaugura-se uma nova maneira de ser e estar no mundo.

Os idosos com problemas de memória tem chegado cada vez mais aos acompanhantes terapêuticos. Normalmente, a família busca ajuda ao notar que sua autonomia passa a ser comprometida pelos lapsos de memória. Toda uma situação desorientadora se estabelece, tanto ao paciente quanto aos familiares.

Uma das filhas de Lia (nome fictício) resolveu buscar um acompanhamento para a mãe. Há um situação completamente nova, que toma corpo em conseqüência de uma suspeita de mal de Alzheimer em estágio inicial.

Lia tem estado com a memória recente comprometida, desorganiza-se com facilidade e, diante disso, vem perdendo sua credibilidade frente aos que nela confiavam. Lia foi profissionalmente ativa até muito recentemente, bem-sucedida em uma geração na qual a maioria das mulheres era destinada à vida domestica e familiar. Uma mulher à frente de seu tempo.

O quadro da perda de memória recente foi se tornando mais complicado no último ano, até que Lia, aos 70 anos, foi obrigada a se aposentar e, além de tudo, mudar-se da cidade em que morava, no litoral, a pedido das filhas, que a queriam mais perto.

Em alguns meses, Lia perdeu diversas referências: o trabalho, em torno do qual organizava seu dia a dia, seu lar, seu círculo de amizades. Seu apartamento em São Paulo é clean: não possui aquelas coisas acumuladas de uma vida toda, essas a que estamos acostumados a ver na casa de avós e tios mais velhos. Gravuras modernas na parede, armários pequenos, televisão o dia todo ligada. Lia passou a viver uma vida despossuída de sua própria vida.

Uma pequena rotina passou a ser arquitetada pelas filhas: universidade aberta à terceira idade, algum exercício físico semanal (ao qual Lia, em geral, se opunha), exercícios de memória uma vez por semana, uma funcionária todos os dias para ajudá-la a se organizar e, principalmente, a se lembrar de tomar os remédios.         Providências tomadas, tudo feito com cuidado, tendo em vista sua “qualidade de vida” como o principal alvo, termo tão comum no discurso atual, especialmente quando nos referimos ao campo do envelhecimento. Vale lembrar que os tempos atuais evocam uma ordem em que vigora a “cultura do novo”, o envelhecer causa incômodo e a saúde torna-se um bem a ser consumido em espécie de promessa de se poder ser um “velho jovem”. A falsa concepção de que velhice e doença são sinônimos gera esta forma rasa e moralizante de lidar com o corpo, que esconde uma espécie de “evitação da velhice”, tomando-o como um puro corpo estético e biológico que precisa funcionar, ser ativo, estar bem[i].

Lia colocava em marcha essa nova rotina, deixava com que administrassem sua vida sem se queixar. Há, no entanto, uma tristeza no ar. Algo desconfortável, fora do lugar. Lia aceita tudo sem esboçar reações. Parece estar despossuída de opiniões, desejos, lembranças. As filhas compram um diário e insistem para que Lia comece a escrever sobre sua vida. Logo, percebem que a proposta foi aceita. Lia começa a escrever, envolve-se naquela tarefa. As filhas animam-se, percebem que há traços da memória totalmente preservados. Um trabalho terapêutico poderia ser benéfico, pensam. E assim, chego até Lia.

Sou também aceita por ela sem grandes resistências. Combinamos um encontro por semana para conversar, dar uma volta. Quando vou embora após essa primeira combinação, meu telefone toca alguns minutos depois: “Cristiana, o que foi mesmo que marcamos?” Dou-me conta de que, muito rapidamente, eu já fazia parte de suas confusões.

Fazer parte de suas confusões inaugura o trabalho psicanalítico com Lia. Há transferência estabelecida, e muito rapidamente seu fio condutor vai se evidenciando. Nos encontros seguintes, conversamos como se fossemos velhas amigas. Lia tem histórias detalhadas sobre sua infância, juventude e momentos de seu casamento. Compartilha essas histórias comigo, que são revisitadas intensamente, algumas com certa insistência. Lia fala, por exemplo, sobre o dia em que resolveu separar-se do marido. Desde o primeiro encontro comigo, este momento é contado e recontado. Como se algo pudesse ser apreendido, retomado e até elaborado por Lia através destes relatos a mim endereçados. Ela não se lembra de estar repetindo a história, conta como se fosse sempre uma grande novidade com a qual, inexplicavelmente, impacta-me, toda vez.

Neste ponto, gostaria de citar Goldfarb em texto intitulado “É melhor esquecer”[ii], onde escreve: podemos entender o fenômeno demencial como o produto da falta de um “trabalho de luto”, uma recusa à aceitação da perda que bloqueia o processo elaborativo. (p.14)

A hipótese de Goldfarb, de que a impossibilidade de fazer o trabalho de luto estaria na base do entendimento das demências e esclerose (nome antigo ao que se chama, hoje, mal de Alzheimer), ou o que também podemos compreender como um desejo inconsciente de esquecimento, é de grande valia para pensarmos não só nesse caso, como em outros tantos sujeitos que apresentam sinais de demência, muitas vezes precedidos de um quadro depressivo.

Tal como nos dizia Freud, a memória não tem relação direta com os fatos ocorridos, mas sim com experiências vividas, fantasiadas, imaginadas e desejadas. As lembranças deslocam-se, os detalhes de algumas delas, aparentemente sem importância, retornam encobrindo perdas ou conflitos muito dolorosos – o que Freud chamou de lembranças encobridoras.

A existência do inconsciente e sua atemporalidade rompe, afinal, com qualquer afirmação geral de que a memória é cronológica. As recordações são atravessadas por processos psíquicos que as modificam. Podemos entendê-las, assim como o fez Freud, como construções. Neste sentido, falar a alguém permite que o presente se enrede ao passado e possa ser ressignificado. Rememorar significa reescrever o passado. E reescrever o passado diz respeito a poder efetuar uma série de trabalhos de luto, o que significa poder elaborar perdas que nos ocorreram. Nas palavras de Freud, em seu célebre “Luto e Melancolia”(1915/17):

“O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. (…) Também vale a pena notar que, embora o luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, jamais nos ocorre considerá-lo como sendo uma condição patológica e submetê-lo a tratamento médico. Confiamos em que seja superado após certo lapso de tempo, e julgamos inútil ou mesmo prejudicial qualquer interferência em relação a ele”.

O que se perde naquilo que foi perdido? Vou levando comigo essa pergunta quando estou com Lia, quando me despeço dela e permaneço com ela em pensamento. Esse acompanhamento terapêutico, recheado de contação de histórias, também me leva a outros tempos, quando eu nem havia nascido, quando não havia internet nem um mundo digital tão ilimitado, quando não havia essa velocidade característica de nossos tempos em que tudo é informado e quase nada é apreendido.

A contação de histórias pertence a um tempo ancestral, e narrar-se a um outro é o tecido da clinica psicanalítica: “contar é suportar o corte do tempo e seus intervalos (…) dar intervalos ao que se conta é um dos caminhos para a entrada na cadência do tempo, escutando o que se repete com tanta insistência, pois toda a repetição tem um sentido. Na clínica encontramos sujeitos que chegam cansados de tanto falar e por não suportarem falar em vão”. (Mucida, p.38)

Vou me dando conta de que o tempo, no acompanhamento de Lia, pode ser trabalhado de diversas maneiras. Voltar ao passado junto com ela, estar aberta ao que ela me traz (é disso que se trata a transferência), é tecido básico para o que estamos costurando. Quando Lia me conta inúmeras vezes da separação de seu marido, com quem há anos mantinha um conflito no casamento, faço-me a pergunta: o que ela perdeu quando o perdeu? “Estávamos eu e ele, em pé, na sala, quando eu disse: cansei, você precisa escolher o que quer! Ele permaneceu calado, atônito, as pernas levemente abertas, os joelhos um pouco arcados. Não disse nada. Eu então disse: estou te deixando. E saí.”

 Essa história recheia Lia. Ela traz essa mistura de dor e decisão, foi o momento em que Lia foi forte (como tantas vezes havia sido em sua vida), mas sofreu por deixar para trás o amor de sua vida – assim ela o denomina. Ela me conta que depois disso quase nunca mais o viu, procurou um apartamento para ela e se afogou em trabalho. Seus próximos 10 anos de vida foram super ativos, ela trabalhando sem parar. Recolheu muitos frutos da carreira de que cuidou tão bem. Sempre me diz que amava seu trabalho, seu dia a dia, sua independência.

Em um acompanhamento, chegamos em sua casa e nos deparamos com um monte de envelopes embaixo de sua porta: eram chamadas para congressos de sua área de atuação. Lia sequer os olha, e eu pergunto por quê. Ela felizmente pode me dizer: “dói muito olhar pra isso que perdi”. Vale aqui atentar para a situação em que está Lia: há pouco aposentou-se do trabalho, não porque quis, mas porque se viu obrigada. Ela me diz que tomou essa decisão por conta do quadro de Alzheimer, teve que ser forte. E quando pergunto se não havia maneira de diminuir a carga de trabalho, tentar adequar a profissão à condição atual, ela diz que prefere “virar de uma vez a página”. Sua maneira de despedir-se é assim, sua maneira de lidar com a perda é essa, assim como o fez com o casamento. E justamente nesse momento em que não há mais trabalho no qual se “afogar”, ela se lembra tão vivamente do marido; estou certa de que há um luto a ser empreendido – e estou aqui para ajudá-la.

Ângela Mucida nos diz: “o trabalho de luto, ao contrário do que o termo possa evocar, implica uma verdadeira abertura ao desejo. Trata-se de construir um saber sobre o que foi perdido. Uma vez feito o luto, o sujeito se encontra livre para buscar outros caminhos, abrindo outras páginas para continuar a escrita da vida (…) lutos não elaborados levam a estados depressivos e desinvestimentos no mundo. Perdas muito fortes na velhice, sem o trabalho de luto, podem levar à retirada maciça de laços com os outros, com efeitos diretos sobre a memória” (p.100).

Há pesquisas que associam a doença de Alzheimer a fatores genéticos e bioquímicos, e de forma alguma esse texto desconsidera estes fatores. A perspectiva psicanalítica não nega a biologia, mas pressupõe que estes fatores podem tomar força ou não diante da singularidade de cada um, com suas capacidades de enfrentar as perdas, elaborar lutos e fazer substituições. O acompanhamento terapêutico, dentro dessa perspectiva, é um dispositivo que nos traz à luz a possibilidade de tratar e retardar o processo de degeneração cognitiva e perda de memória próprios do Alzheimer, justamente por possibilitar que o trabalho de luto ganhe chances de acontecer.

Também o processo de substituir objetos perdidos pode começar a acontecer no AT, já que os laços com o mundo estão presentes nessa modalidade clínica. Passeios pelo shopping, pelas livrarias e sebos de São Paulo, idas à manicure, à cafés servidos com bolo de fubá – Lia ganha, aos poucos, a abertura necessária para admitir o quanto gosta desses passeios de “dondoca”(sic), aos quais tantas vezes se negou em sua vida de mulher trabalhadora. Recentemente, comprou um livro de título nada casual: “Não espere pelo epitáfio”. Parece haver lugar para a esperança, para a satisfação, para as surpresas que nos podem acometer – lugar para o desejo. Novas páginas a serem escritas neste acompanhamento, aberto ao futuro.

 

[i] Ver mais em Barbieri: Doença, envelhecimento ativo e fragilidade – discursos e práticas em torno da velhice, unifesp, 2014.

[ii] Goldfarb, Délia: Do tempo da memória ao esquecimento da história: um estudo psicanalítico das demências, ipusp, 2004.

[iii] Mucida, Ângela: A escrita de uma memória que não se apaga, autentica, 200

 

Cristiana Kehdi Gerab é psicanalista e acompanhante terapêutica, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Integra a equipe de Ats do Instituto A Casa e o grupo de transmissão e formação na clínica do envelhecimento.

1 Comment

  1. José Ibraim Andrade on outubro 28, 2017 at 2:27 pm

    Texto rico em ensinamentos para acompanhantes de doentes portadores do mal de Alzheimer.
    Muito bom. Parabéns.

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