Clínica Underground: Sándor Ferenczi

*por Gustavo Dean

A volumosa correspondência com Sigmund Freud (quase mil e trezentas cartas) faz de
Sándor Ferenczi, provavelmente, o mais intenso interlocutor do pai da psicanálise ao
longo de sua construção da teoria psicanalítica. Ao mesmo tempo leal e inquieto, Ferenczi
tinha um profundo senso clínico e abnegação ímpar para a prática da psicanálise com
casos que, a princípio, pareciam refratários ao método. Algumas de suas ideias, contudo,
não foram bem acolhidas pela instituição psicanalítica após sua porte precoce, em 1933,
tendo sido reavaliadas e revalorizadas de maneira ampla, especialmente a partir dos anos
1990.

Ferenczi nasceu em 1873 no interior da Hungria e formou-se médico na mesma
Universidade de Viena em que Freud se graduou. Após um período praticando diversas
formas de psicoterapia, aprofundou-se no estudo da psicanálise e, em 1908, uniu-se ao
movimento que se formava em torno da nova ciência.

Desde seus primeiros escritos, Ferenczi demonstrou uma grande capacidade de absorver
a teoria psicanalítica e oferecer contribuições originais, que poderiam versar sobre a
relação do universo infantil como o adulto, como faz em “Psicanálise e Pedagogia”, ou
sobre a relações entre metapsicologia e a prática clínica, redundando em conceitos e
ideias inovadoras, como fez em “Transferência e introjeção” – ambos os textos escritos
ainda na prima década do século XX.

Ao longo dos anos seguintes, Ferenczi esteve ao lado de Freud não somente na construção
do método psicanalítico, mas também de suas instituições, propondo da criação da
Associação Internacional de Psicanálise (IPA) em 1910. Ocupou-se ainda da formação
de novos terapeutas, tendo sido analista de figuras ilustres como Melanie Klein e Michael
Balint, além de outros menos conhecidos mas igualmente instigantes como Imre Hermann
e Clara Thompson.

Nos anos 1920, diante de impasses no processo terapêutico reconhecidos pelo próprio Freud, Ferenczi adotou um espírito de pesquisa clínica ainda mais investigatório, iniciando suas práticas com técnica ativa, um método clínico amparado e patrocinado por seu mestre, que levava a ideia da abstinência ao extremo por meio de proibições e determinações dirigidas aos pacientes, que visavam recolocar o processos associativos estagnados em marcha. A partir de meados dessa década, contudo, influenciado por suas pesquisas sobre o trauma de guerra e alguns maus resultados com a técnica ativa – e acompanhado de colegas como Otto Rank e Georg Groddeck –, Ferenczi passou a rever suas práticas terapêuticas e decidiu-se por novos experimentos. Nessa reviravolta, ganharam destaque suas ideias pautadas no tato, na empatia, no princípio de relaxamento, no brincar e no uso da regressão – dentre outros elementos que ele procurou destacar a partir da relação entre analista e analisando. Por meio desses procedimentos, o húngaro buscou ampliar a possibilidade terapêutica da psicanálise, aperfeiçoando o método para o tratamento de neuroses e também dos ditos “casos difíceis”.

Esse período final de seu percurso de reflexão clínica encontra-se especialmente elaborado em escritos publicados a partir de 1928, dentre eles “A elasticidade da técnica psicanalítica”, “Princípio de relaxamento e neocatarse”, “Análise de crianças com adultos” e “Confusão de língua entre os adultos e a criança”. Embora, à sua época, muitas das hipóteses de Ferenczi tenham sido mal compreendidas, parte de suas ideias ressurgiram na pena de outros insignes analistas nas décadas que se sucederam e hoje esse pioneiro húngaro da psicanálise é reconhecido como um importante interlocutor em diferentes escolas de psicanálise europeias, norte e sul americanas.

Gustavo Dean-Gomes: Psicanalista, Mestre em Psicologia Clínica pela
PUC-SP, Doutorando no Programa de Psicologia Clínica do IP/USP.
Professor do Centro de Estudos Psicanalíticos e autor de Budapeste, Viena
e Wiesbaden – O percurso do pensamento clínico-teórico de Sándor
Ferenczi.

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