– Michel Foucault: história e experiência (por Saulo Mota)

foucault arco iris

 

Nas últimas semanas o nome do filósofo Michel Foucault tem sido evocado nas mídias digitais e impressas, depois que a cátedra universitária "Michel Foucault e a Filosofia do Presente" foi vetada pelo Conselho Superior da Fundação São Paulo, que é a mantenedora da PUC - SP. O motivo alegado, de que seu pensamento não coaduna com os princípios da igreja católica, deixou professores e pesquisadores de todo o Brasil estarrecidos, já que o autor de obras como "Vigiar e Punir" e “História da Sexualidade" tem influenciado amplamente pesquisas no campo das ciências humanas e sociais no Brasil. Com intervenções artísticas e acadêmicas, diversas mobilizações têm acontecido na universidade na tentativa de reverter tal decisão. Mas quem foi Foucault e por que seu pensamento é tão influente em pleno século XXI? Longe de tentarmos defini-lo ou mesmo conceituá-lo, propomos revisitá-lo e escutá-lo sobre sua própria história.

Em 1981, Foucault declarou que a cada vez que buscou fazer um trabalho teórico, o fez partindo de elementos de sua própria experiência, sempre em relação a processos que via acontecer em seu entorno. Isso porque acreditou reconhecer fissuras, disfunções, abalos surdos nas coisas que presenciava, seja nas instituições com que se ocupava, ou em suas relações com os outros, que motivaram a realização de seus trabalhos. Nesse sentido, Foucault lembra foucault hosp psiqque durante sua formação em Psicologia e Filosofia pela École Normale Supérieure, em Paris, na década de 1950, se tornou visitante assíduo da unidade psiquiátrica do Hôpital Saint-Anne, onde “queria ver o que era a Loucura”. No hospital não tinha função precisa, e podia circular entre doentes e vigilantes, ainda que fosse considerado membro não remunerado da equipe. Era um período de expansão das neurocirurgias e da farmacologia, práticas e saberes que Foucault diz ter aceitado como necessários no início. Contudo, ao final de três meses, passou a se perguntar qual a sua necessidade. Com um profundo mal-estar, três anos depois, Foucault abandonou este trabalho, partiu para a Suécia e iniciou a escrever o que entendeu como uma história dessas práticas.

Desde a publicação de História da Loucura, em 1961, Foucault procurou marcar a imbricação profunda de sua pesquisa e sua vida, ou os mal-estares que tivera vivido. Na apresentação da primeira edição do livro, Folie et Déraison. Histoire de La Folie, Foucault declara: “Este livro é de alguém que se surpreendeu”. Relatando sua passagem por hospitais psiquiátricos, pela Suécia, Polônia e Alemanha, bem como seu retorno à França como professor universitário, Foucault afirmou ter refletido com seriedade sobre o que é um asilo, querendo saber qual era essa “linguagem que, através de tantas fechaduras, portões, muralhas, se ata, pronuncia e se troca”. Entretanto, longe de pretender que seus livros contassem sua vida, ou que fossem uma espécie de “confissão”, Foucault alerta que seus livros não são uma transposição de experiências pessoais para o saber. A experiência para ele deveria permitir uma transformação, não só dele próprio como sujeito que escreve, como também daqueles que venham a ler seus textos. Para Foucault um livro precisa ser, para ele mesmo e para aqueles que o lerem, uma transformação nas relações estabelecidas com a loucura, a delinquência, a sexualidade, as instituições, pois se essas relações são historicamente datadas, não são universais e foram resultado de disputas, confrontos e relações de forças, podem também ser alteradas.

Foucault apresentou, em conferências realizadas na PUC-Rio na década de 1970, seus estudos acerca do modo como uma série de instituições como a escola, o hospital, o asilo, o manicômio, a polícia, o exército, a fábrica e a prisão, a partir do século XVIII, buscaram vigiar e corrigir os indivíduos ao longo de suas vidas, através de um poder que, ao invés de buscar reduzir as forças destes indivíduos, interditá-las ou retirá-las, procurava multiplicá-las, tornando-as úteis e atuando na sua transformação em função de certas normas. Para ele, o poder disciplinar é o poder que busca foucault presoagir ao nível do que os indivíduos podem fazer e que tem como objetivo final adestrar, amansar, tornar os indivíduos úteis e dóceis. Em seus trabalhos seguintes, Foucault estudou a transição das Sociedades de Soberania, nas quais o soberano tinha o direito de fazer morrer a título de castigo, para as sociedades em que ocorre o poder disciplinar, nas quais “o velho direito de causar a morte ou deixar viver foi substituído por um poder de causar a vida ou devolver à morte”. Assim, Foucault aponta que esse poder normalizador, investido sobre a vida, se desenvolveu no ocidente a partir do século XVIII, através de dois pólos: a disciplina dos corpos e as regulações da população. O primeiro mais relacionado às instituições, desenvolvendo a utilidade e produzindo a docilidade dos indivíduos, e o segundo abordando e regulando os processos da vida das populações, através de práticas políticas e observações econômicas, no campo dos cálculos da vida, das taxas de natalidade, mortalidade, compondo um conjunto de características entendidas por Foucault como Biopoder. Este, segundo o filósofo, foi indispensável para o desenvolvimento do capitalismo, que pode se consolidar ao custo da inserção controlada dos indivíduos no “aparelho de produção e por meio de um ajustamento dos fenômenos de população aos processos econômicos”.

Foucault fez diversas leituras e releituras de sua obra ao longo de sua trajetória. Em certo momento de sua vida, afirmou que o objetivo de seu trabalho não foi analisar o fenômeno do poder, que ele entende como um modo de ação de uns sobre a ação dos outros, que é sempre relação de forças, confronto, que não só restringe, mas produz modos de viver. Segundo o filósofo, seu objetivo foi “criar uma história dos diferentes modos pelos quais, em nossa cultura, os seres humanos tornaram-se sujeitos”. Nessa ocasião Foucault afirmou que “seu trabalho lidou com três modos de objetivação que transformam os seres humanos em sujeitos”. Primeiramente, destacou o estudo dos modos de investigação que buscaram alcançar estatuto de ciência, a formação e a transformação dos saberes, que poderiam ser exemplificados pelo processo de objetivação do “simples fato de estar vivo”, realizado pela biologia, foucault círculopela medicina, dentre outros. Na segunda parte, apontou o estudo da objetivação do sujeito através de práticas divisórias, nas quais os sujeitos são divididos em seu interior e em relação aos outros, tal como ocorre entre o louco e o são, o doente e o sadio, o delinquente e o cidadão. Caberia lembrar ainda que nesse período Foucault passou a analisar o surgimento dos saberes a partir de condições de possibilidade externas a eles próprios, a partir das relações de poder. E, por fim, na terceira parte de seu trabalho, Foucault, ao abordar o domínio da sexualidade, estudou os modos pelos quais um ser humano se torna ele próprio sujeito de uma sexualidade.

Entendendo que não somos essencialmente sujeitos, mas que nos tornamos sujeitos, Foucault indagará: o que nós estamos fazendo de nós mesmos? Ou o que podemos fazer de nós mesmos? Que tipo de vida podemos construir para nós mesmos? E no último período de sua vida se dedicará a noções como “Cuidado de Si” e “Parresía”, buscando estudar os modos como se problematizou a relação a si, de formas distintas das sociedades ocidentais, na Grécia antiga. Não para oferecer uma alternativa, solução ou modelo a ser seguido, mas para questionar o que pode ser pensado, em busca de ferramentas que possam viabilizar a superação dos procedimentos de conhecimento de si, que nos colocam como objeto de conhecimento, investigação e exame, na direção de outras práticas, novos modos de ser. Nessa perspectiva, a proibição da cátedra "Michel Focault e a Filosofia do Presente" pode nos remeter aos próprios estudos do filósofo, ao mesmo tempo em que nos convoca a retomar suas indagações.

Saulo Mota é Doutorando em Psicologia Social pela PUC-SP. Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e Psicólogo (PUC-MG).

foucault puc

- ASSINE AQUI a petição em defesa da Cátedra Foucault e Filosofia do Presente: http://foucault.lrdsign.com/

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