Migração e subjetividade: efeitos no laço social e na clínica psicanalítica

Por Liliana Emparan*

Migrantes, deslocados, refugiados, exilados… o que vem à nossa mente quando pensamos sobre o fenômeno das migrações na era da globalização? Provavelmente sentimentos desencontrados. De um lado, notícias e flashes de imagens de muros e arames farpados;  pessoas anônimas enfileiradas ou em botes infláveis fugindo de guerras, fome, desemprego, desastres climáticos, perseguições políticas, religiosas ou sexuais, enfim, migrações forçadas.  Do outro lado, a sedução das viagens, de migrar “livremente”, trabalhar, estudar e morar em outro país, oportunidades para poucos que escondem as agruras de ser um migrante nem sempre bem-vindo, submetido a condições de trabalho exaustivas e moradia precária, muitas vezes, com documentação em situação irregular. Realidades diferentes que podem provocar efeitos radicais na vida do migrante e sua família, naqueles que ficaram e também na sociedade do país de destino.

Sabemos que as pessoas sempre se deslocaram ao longo da história constituindo o movimento civilizatório. Ao logo da história vivemos colonizações e a tentativa de extermínio dos povos originários; os efeitos sinistros da escravidão e do racismo estrutural; as grandes migrações do final do século XIX e início do XX; no entre guerras por conta da Shoá, xenofobia e eugenia. Nas últimas décadas do século XX e também no início do século XXI escutamos os slogans da globalização, a “aldeia global” e o famigerado “livre” trânsito de mercadorias e de pessoas e assim nos perguntamos: trânsito livre para quem? Exploração econômica do capitalismo transnacional e deportações sumárias de migrantes provindos de ex-colônias nos dão a resposta.

Na atualidade, a pandemia do COVID-19 restringiu e/ou impediu o movimento livre de ir e vir nos fazendo pensar ainda mais nos efeitos do (não) deslocamento nas nossas vidas. As desigualdades socioeconômicas se intensificaram e os deslocamentos de pessoas em situação de extrema vulnerabilidade continuaram a ocorrer. No Brasil estamos acompanhando os venezuelanos,  assim como anteriormente os haitianos, sírios, congoleses, entre outros povos. Cada vez mais convivemos com pessoas de países, culturas, religiões, línguas e cores de pele diferentes; existe, contudo, um movimento ambivalente de acolhida e hostilidade frente a esse outro tão estranho que chega e quer fazer parte e que pode ser sentido como ameaçador, intruso e invasor. Consideramos que o migrante nos interpela justamente pela sua diferença evidente provocando fantasias, medos, assombro, movimentos de atração e repulsa, conflitos muitas vezes inconscientes.

Os deslocamentos, portanto, afetam a todos. Jacques Derrida cunhou um termo muito propicio para definir esta ambivalência sentida frente a esse outro álter, criando a palavra hostipitalidade. Significante condensado entre hospitalidade e hostilidade que fala de opostos que se integram e se alternam, sintetizando movimentos de integração e acolhida, de afastamento e separação.

Como pensar tudo isto em termos  sociais e clínicos? Precisamos conhecer realmente quem é esse outro, sua língua, sua história, sua cultura, aquilo que fala de uma subjetividade singular e plural que é constituída pelas representações do grupo de pertencimento de onde provém articuladas à apropriação da sua origem. Deixá-lo falar, escutá-lo a partir de processos de pertencimento e identificações em movimento, deslocamentos psíquicos propiciados e cadenciados pela migração. O efeito disto no laço social é permitir-nos ser afetados subjetivamente por esse outro diferente que diz muito desse outro em mim, do unheimlich freudiano. Na clínica, o efeito  é reconhecer que como psicanalistas receberemos cada vez mais pessoas em trânsito, como gosto de dizer, o que pode nos incitar a estudar o fenômeno das migrações e do que chamei de “sujeitos partidos”, migrantes entre  partir/ ir embora e sentir-se fragmentado. Sujeitos que se sentem pertencentes ao país daqui e ao de lá, “cidadãos do mundo”; sujeitos que integram experiências, línguas e culturas vividas em espaços e tempos diferentes; outros que não conseguem fazer parte e decidem voltar. Enfim um mosaico de situações, posições subjetivas  e desafios que enriquecem nossa clínica e nos fazem repensar o seu manejo. É necessário conhecer a língua e cultura do paciente? Que língua eleger para atendê-lo? Perguntas e escolhas de uma clínica extremamente rica.

Por último, gostaria de dizer que o manejo clínico em um equipamento como o Projeto Ponte onde recebemos pacientes em situação de vulnerabilidade tem especificidades institucionais onde o atendimento grupal e a escolha da língua implicam discussões teórico-clínicas, tanto pela multiplicidade de pacientes e grupos étnicos-culturais que recebemos, quanto pelo tipo de migrações que empreenderam, forçadas ou “livres”. No consultório particular e no atendimento individual os desafios são também particulares pois geralmente nos defrontamos com pacientes que não sabem quanto tempo irão permanecer no país, algo que denomino de transferência em movimento. A clínica com migrantes requer um psicanalista que acolha a diferença de um sujeito situado entre o permanecer e o se deslocar, que  possa suportar e sustentar um setting clínico apontado para a transitoriedade  e o desamparo constitutivo, que escute a associação livre no “entre línguas”. Uma clínica viva, instigante e desafiadora.

Para saber mais, convido-os a explorarem minha tese de doutorado defendida em 2021, clicando no link abaixo.

https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47133/tde-24072021-134753/

* Liliana Emparan é Psicanalista, Doutora em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP), Coordenadora do Projeto Ponte no Instituto Sedes Sapientiae.

*Foto do quadro “Memories of Immigrant” da artista Cristina Bernazzani.

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