O bebê e a conquista do próprio corpo

Por Talita Pryngler

Natureza, relação, movimento, gesto e palavra. São esses os caminhos que o bebê faz nos seus primeiros anos de vida. Esse desenrolar traz também ao adulto que se ocupa dele a possibilidade de se refazer com ele. Isso acontece toda vez que um bebê nasce e é colocado na posição de sujeito.

Esse trajeto começa já na primeira mamada. O bebê tem fome, precisa mamar para sobreviver, e encontra no reflexo de sugar a possibilidade de fazer parar a intensidade que lhe acomete: a fome. Nesta primeira mamada, recebe leite (colostro), colo, pele, cheiro e a voz da mãe. Dali a algumas horas, quando novamente for tomado pela sensação de fome, ele buscará encontrar, através do seu choro, tudo aquilo que recebeu junto com o leite, o outro. Este outro faz marca, traz contorno e organiza as intensidades enlaçando esse bebê numa cadeia de sentidos.

Este pequeno corpo pode então, cada vez mais, vir a ser para além das manifestações biológicas, “subvertendo” o instinto, inaugurando um caminho pulsional. O corpo, enquanto natural, é transformado pela pulsão e isso só acontece se houverem trocas corporais entre o bebê e o adulto que dele se ocupa. Ele precisa ser tocado tátil, visual e olfativamente e, ao mesmo tempo, ser sonhado, amado e odiado por seus pais. Através dessas trocas haverá a passagem de um funcionamento da ordem da necessidade para a ordem da demanda. Estes intercâmbios farão marcas constituindo o mapa dos percursos pulsionais e suas manifestações. Podemos, então, pensar a constituição deste corpo para além do biológico, que será habitado por um sujeito.

Na minha experiência de trabalho com mães, famílias e bebês me interesso muito por observar o desenrolar deste processo e como ele é nomeado pelo adulto que dele cuida. Tenho a oportunidade de acompanhar bebês desde os dois meses de vida até que completam 2 anos e meio.

Eles chegam enrolados em mantinhas, aconchegados e permanecem a maior parte do tempo dormindo ou mamando.

Ao longo dos meses, a partir do contato com o chão (placa de EVA) o bebê pequeno encontra apoio, oposição de forças entre seu corpo e a superfície firme, convidando-o a perceber-se através de pequenos movimentos.

Parte então de um reflexo, uma movimentação involuntária, para uma movimentação intencional e mais complexa.

Ainda deitado, ele “treina” muitas vezes para conseguir agarrar com as duas mãos um objeto a sua frente.

Agora seus olhos já conseguem focar, ele é capaz de virar o rosto acompanhando o som de uma voz conhecida.

Experimenta o mundo e as extremidades de seu corpo através da boca. Vai em direção a um objeto querendo de toda forma agarrá-lo e levá-lo à boca.

De repente rola, se assusta, depois aprende a voltar, experimenta esse eixo muitas vezes.

Passado mais de meio ano de vida, o bebê já consegue sentar e enxerga o mundo com uma ampla perspectiva.  

Se arrasta pelo chão, consegue mover-se sem precisar da ajuda e do suporte do corpo do outro.

Por volta dos 9 meses, já é capaz de se apoiar em algum móvel fazendo força para se colocar em pé.

Perde o equilíbrio e cai sentado, tão rápido que até se assusta.

Quer andar, empurra os objetos que o ajudam a ficar de pé com apoio.

Se desloca de lado, apoiado, usando os dois pés.

Cai, levanta, cai, levanta.

Apoia, engatinha, fica de pé, cai e levanta.

Milhares de vezes, até que possa levantar-se do chão sozinho, sem apoio.

Ele caminha então, lentamente, com os braços abertos, muito concentrado.

Estes são seus incríveis primeiros passos.

A partir deste momento, há um domínio do próprio corpo, que nos conta sobre a sua autoconfiança, sua vontade de ir em direção às coisas e pessoas de forma autônoma.

Toda essa organização corporal do bebê, por meio do movimento, do tônus, da postura, da gestualidade, do olhar, da atividade rítmica expressa a forma como ele vem se constituindo a partir das relações com os adultos e seu meio.

Gosto muito de observar o desenrolar deste caminho e suas nuances. Essa é a comunicação expressa pelo corpo do bebê, e a forma como é nomeada pelos pais nos conta sobre a história daquela família.

Essa narrativa e sequência varia bastante e tem como cenário e instrumento o brincar livre dos bebês. É através da brincadeira que conhecemos e nos comunicamos com os pequenos. Dessa forma também a conversa flui com os pais e eles conseguem enxergar aspectos interessantes dos filhos para além das projeções que muitas vezes os impedem de perceber as conquistas ou dificuldades.

O bebê brinca imitando as expressões faciais dos pais, sente prazer com o próprio corpo, explora os objetos cada vez de uma forma mais “sofisticada”. É ávido em conhecer buscando no adulto o respaldo para suas experiências. Os pais investem nesta pesquisa nomeando as sensações que o bebê sente no corpo. Nas palavras de Fernandez (2011, p.121) “esse investimento supõe que a mãe é capaz de transformar esse ‘corpo de sensações’ em um ‘corpo falado'”.

Portanto, a chegada do bebê cria um laço que transforma aquele casal, seja este homossexual ou heterossexual, numa família. Cada um daqueles pais tem uma história de vida e suas próprias marcas. O nascimento de uma criança “revisita” estas marcas trazendo à tona aspectos constituintes importantes de serem cuidados. Ambos, pais e filhos, são formados pelas relações.

 

Agradeço ao Conexões Clínicas o espaço para compartilhar essas reflexões!

 

 

Talita Pryngler é psicóloga com Especialização em educação de 0 a 3 anos em desenvolvimento motor e psicanálise. Idealizou e coordena o Espaço Bebê da Hebraica, é consultora na área e também atende em consultório particular.

 


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Comentários

One Reply to “O bebê e a conquista do próprio corpo”

Nurit

Adorei o texto minha amiga que me ajudou mto nos primeiros momentos como mãe nesta vida tao gostosa da maternidade!

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